Antes do nascimento, os pais projetam no bebê seus sonhos e frustrações, criando um filho idealizado. Sob a ótica psicanalítica, o grande desafio da parentalidade reside em renunciar a essas expectativas para acolher o filho real, que surge com identidade, limites e desejos próprios. Ser pai e mãe exige esse desapego contínuo, compreendendo que a criança é um sujeito singular e autônomo, e não uma extensão projetada para realizar os desejos não concretizados de seus criadores.
Quando um casal decide ter um filho, nasce também um desejo. Mas, antes de existir o filho real, existe o filho imaginado.
É nesse espaço psíquico que os pais começam a construir fantasias, expectativas, sonhos e projeções sobre quem esse bebê será.
Ainda durante a gestação, o filho passa a ocupar um lugar no inconsciente dos pais. Ele é investido de significados, esperanças, reparações e, muitas vezes, daquilo que os próprios pais não puderam realizar em suas histórias.
Sob a perspectiva psicanalítica, esse processo é natural e faz parte da constituição do vínculo. No entanto, o grande desafio da parentalidade acontece quando o bebê deixa de ser apenas imaginário e se apresenta como um sujeito singular.
O filho real nem sempre corresponde ao filho idealizado. Ele possui desejos próprios, características únicas, limites e potencialidades que escapam às expectativas parentais.
O filho real não é o filho idealizado
Tornar-se pai e mãe implica, portanto, realizar um trabalho psíquico de renúncia: abrir mão do filho ideal para acolher o filho possível.
Isso significa reconhecer que a criança não veio ao mundo para reparar frustrações, realizar sonhos interrompidos ou confirmar expectativas dos pais. Ela é um sujeito com uma história própria, que precisará construir sua identidade para além dos desejos daqueles que lhe deram a vida.
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