O déjà vu é uma ilusão de memória provocada pelo desencontro entre a sensação de familiaridade e a capacidade de recordação do cérebro. Sem causas sobrenaturais ou premonitórias comprovadas, o fenômeno multissensorial ocorre quando estímulos atuais remetem a vivências passadas sem que a lembrança exata seja resgatada. Fatores como cansaço, estresse e viagens favorecem sua ocorrência, sendo uma experiência mais frequente entre jovens devido ao funcionamento ativo dos sistemas cerebrais de monitoramento.
"Espera aí, eu já vivi isso antes": é possível entender por que isso acontece
Sabe quando, de repente, vem à mente a sensação de que já viveu exatamente aquele momento, daquele mesmo jeito? É o famoso déjà vu, que provavelmente você já experienciou em algum momento da vida. Mas será que a psicologia e a neurociência têm uma explicação para isso? É o que vamos descobrir ao longo desta matéria!
Até onde a ciência pode explicar o déjà vu
Em resumo, o déjà vu se caracteriza pela seguinte descrição: uma experiência breve na qual uma situação atual que, embora reconhecida de forma racional como nova, provoca uma forte sensação de familiaridade. É como se o cérebro dissesse "isso já aconteceu", mas não fosse possível resgatar a lembrança concreta que justifique essa impressão. "Uma das explicações mais aceitas é que ocorre um desencontro momentâneo entre dois processos da memória: a familiaridade e a recordação. A familiaridade é a sensação de conhecer algo; a recordação permite recuperar quando, onde e como aquilo aconteceu. No déjà vu, a familiaridade surge, mas a lembrança correspondente não é encontrada. Por isso, compreende-se ele como uma ilusão de memória, e não como uma lembrança verdadeira", inicia a explicação a psicóloga e neuropsicóloga Tatiana Serra.
Segundo a profissional, não há consenso sobre um gatilho único que possa "disparar" o acontecimento do fenômeno. Mas ele pode surgir através de diferentes estímulos, como, por exemplo, elementos que se assemelham a experiências anteriores. "Pode ser a disposição de um ambiente, uma voz, uma sequência de acontecimentos ou determinada combinação de estímulos, mesmo que a pessoa não consiga identificar conscientemente — e de prontidão — essa semelhança. Além disso, ela aponta que casos de cansaço, estresse, ansiedade, alterações no sono e atenção dividida também podem estar associados ao déjà vu, pois todas essas situações interferem temporariamente na forma como o cérebro registra e reconhece as vivências. Lugares novos e viagens também podem favorecê-lo: o cenário é inédito, mas algumas de suas características podem se parecer com ambientes já vistos. Ainda assim, essas são associações, não causas obrigatórias", reforça.
Múltiplos gatilhos
Mesmo que, na maioria das vezes, o déjà vu venha acompanhado de experiências visuais, ele também pode ser vivido em outras práticas sensoriais. "Ele pode envolver uma conversa, uma voz, uma música, um cheiro, um gosto, um toque ou a atmosfera completa de uma situação. Na prática, nossas experiências são multissensoriais: o cérebro integra imagens, sons, cheiros, sabores, sensações corporais e emoções em uma única representação. Assim, qualquer componente dessa experiência pode ativar uma familiaridade cuja origem não conseguimos recuperar", discorre a psicóloga Tatiana Serra.
Ainda, a especialista comenta que o fenômeno tende a se tornar menos frequente com o passar dos anos, sendo mais comum entre adolescentes e jovens adultos. "Uma possível explicação é que pessoas mais jovens encontram mais situações percebidas como novas, mas que ainda compartilham elementos com experiências anteriores — combinação favorável ao aparecimento de uma familiaridade sem recordação", explica.
Outro motivo, segundo ela, diz respeito à hipótese de que o déjà vu dependa não apenas de um "alarme falso" de familiaridade, mas da capacidade de perceber a contradição do "isto parece conhecido, mas sei que é novo". "Com o envelhecimento, mudanças nos sistemas de memória e de monitoramento podem reduzir a percepção consciente desse conflito. Isso não significa que toda diminuição ou todo aumento do déjà vu seja sinal de alteração cognitiva; trata-se apenas de uma tendência observada nos estudos", pontua.
Apenas mitos
Por fim, é importante também abordarmos algumas crenças populares acerca do déjà vu, afinal, para muitas pessoas, o fenômeno significa algum tipo de premonição ou mensagens de vidas passadas. Para Tatiana, a experiência abre espaço para interpretações "místicas", pois é comum que o cérebro humano procure padrões, respostas e narrativas para que o episódio seja mais facilmente compreendido, já que o déjà vu não conta necessariamente com uma origem identificável. "Durante o déjà vu, algumas pessoas também sentem que sabem o que acontecerá em seguida. Experimentos mostram, porém, que essa sensação de previsão não costuma vir acompanhada de uma capacidade real de prever o próximo acontecimento. Quanto mais intensa a familiaridade, mais convincente pode se tornar a impressão de que o momento se antecipou. A experiência subjetiva é verdadeira; o que não está comprovado é a explicação sobrenatural atribuída a ela", finaliza a psicóloga.