O problema dos brinquedos com IA, segundo especialista

Brinquedos com inteligência artificial: veja os riscos à privacidade e ao desenvolvimento infantil

28 out 2026 - 15h06
Resumo
Brinquedos com inteligência artificial atraem pela interatividade, mas especialistas alertam para riscos à privacidade e ao desenvolvimento infantil. Dispositivos conectados podem coletar dados e expor a rotina familiar, além de simular afeto sem empatia real, gerando dependência emocional. Respostas prontas também ameaçam a criatividade. Recomenda-se cautela, verificação de políticas de privacidade, controles parentais e a preservação de brincadeiras tradicionais e relações humanas reais.

Brinquedos que conversam, memorizam preferências e simulam demonstrações de carinho ganham espaço entre os presentes infantis, mas especialistas alertam para os riscos à privacidade, ao desenvolvimento e à saúde emocional dos pequenos

Com a chegada da inteligência artificial, muitas formas de se comunicar e realizar tarefas mudaram, e até mesmo a maneira de brincar está passando por transformações. Brinquedos capazes de conversar, memorizar o que a criança gosta e responder de forma personalizada têm conquistado espaço no mercado e podem parecer opções inovadoras para presentear os pequenos. No entanto, por trás das funcionalidades tecnológicas, existem questões que merecem atenção dos pais e responsáveis.

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) alerta que os adultos devem avaliar e acompanhar os efeitos do uso de brinquedos com IA por crianças e adolescentes. "Quando essas funcionalidades não trazem benefício claro, ou quando o funcionamento e os mecanismos de proteção carecem de transparência, a orientação é priorizar produtos e brinquedos sem esses recursos", recomenda a entidade.

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Especialistas também destacam que, antes de escolher esses produtos, é importante considerar não apenas a diversão oferecida, mas também os possíveis impactos sobre a privacidade, a criatividade e as relações afetivas das crianças.

Primeiros cuidados

Um dos primeiros cuidados envolve entender quais informações esses brinquedos conseguem coletar. Segundo Léo Soares, especialista em inteligência artificial, é necessário consultar as especificações do fabricante e a política de privacidade para identificar como a tecnologia funciona. Um brinquedo que apenas reproduz frases gravadas, por exemplo, é diferente de outro que utiliza IA generativa para manter conversas, lembrar informações e adaptar respostas.

"Dependendo do funcionamento, esses brinquedos podem coletar voz, imagens, nome, idade, preferências e até o conteúdo das conversas. O mais importante é entender se essas informações ficam armazenadas, se são enviadas para servidores externos e quem pode acessá-las", explica o especialista.

A preocupação aumenta quando os dispositivos possuem câmera, microfone e conexão com a internet. Embora pareçam objetos inofensivos, eles podem registrar conversas, imagens e detalhes da rotina familiar. Em caso de falhas de segurança, essas informações podem ser expostas ou acessadas indevidamente. Além disso, a inteligência artificial pode apresentar conteúdos inadequados para a idade da criança.

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"O principal risco é transformar um objeto aparentemente inofensivo em uma fonte de coleta de informações dentro de casa", alerta Léo. Ele ressalta que os pais precisam saber quando o brinquedo está gravando e ter controle sobre a coleta e a exclusão dos dados. Uma criança pode, por exemplo, contar onde mora, em qual escola estuda ou detalhes sobre a família sem compreender que essas informações podem ser armazenadas.

A tecnologia pode simular amizade?

Além da segurança digital, a interação emocional também merece atenção. Quando um brinquedo se lembra das preferências da criança, demonstra carinho e responde de maneira personalizada, pode criar a sensação de uma amizade verdadeira. Segundo Léo, isso representa uma preocupação especialmente entre os menores, que ainda estão desenvolvendo a capacidade de distinguir determinadas interações artificiais das relações humanas.

"A IA simula empatia, mas não sente emoções nem possui responsabilidade afetiva", explica o especialista. Ele destaca que existe preocupação com a possibilidade de a criança desenvolver vínculos excessivos com esses dispositivos ou substituir parte das experiências sociais importantes para seu desenvolvimento. Os efeitos de longo prazo desse tipo de interação, porém, ainda estão sendo estudados.

A psicopedagoga Anne Linhares também chama a atenção para os sinais de dependência emocional. Ela ressalta que dar nomes aos brinquedos, conversar com eles e criar vínculos durante a brincadeira são comportamentos naturais da infância. O alerta surge quando o dispositivo passa a ocupar o lugar das relações humanas ou se torna a principal fonte de afeto e orientação da criança.

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"Os pais precisam observar essas mudanças e conversar com a criança, explicando que, apesar de parecer que o brinquedo entende tudo, ele é uma tecnologia e pode dar respostas erradas. A relação com os adultos continua sendo fundamental para o desenvolvimento emocional infantil", afirma Anne.

Criatividade e autonomia também precisam ser estimuladas

Outro ponto levantado pelos especialistas é o impacto que os brinquedos com inteligência artificial podem ter sobre a criatividade e a autonomia. Para a psicopedagoga, quando a criança passa a depender de um dispositivo para obter respostas e soluções, pode perder oportunidades importantes de experimentar, imaginar e aprender a lidar com frustrações.

"A infância é uma fase em que ela precisa experimentar, imaginar, criar soluções e até lidar com a frustração de não conseguir alguma coisa de primeira. Quando o brinquedo entrega todas as respostas prontas, a criança pode perder oportunidades importantes de pensar por conta própria", explica.

Isso não significa que todo brinquedo com IA seja prejudicial. A diferença está na maneira como ele é utilizado e nas experiências que proporciona. Enquanto brinquedos tradicionais, como blocos de montar e bonecos, incentivam a criação de histórias e a busca por soluções, alguns dispositivos tecnológicos podem conduzir parte da brincadeira ao oferecer respostas prontas.

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"O ideal é que a tecnologia também estimule a curiosidade, faça perguntas e incentive a criança a pensar, em vez de simplesmente entregar tudo pronto. A criança precisa ter espaço para criar, explorar e ser protagonista da própria brincadeira", destaca Anne.

O que os pais devem observar antes da compra?

Antes de comprar um brinquedo com inteligência artificial, os responsáveis devem verificar a indicação etária, a certificação do Inmetro e a presença de câmera, microfone, conexão com a internet e controles parentais. Também é importante procurar informações claras sobre o armazenamento dos dados, o compartilhamento com terceiros, as atualizações de segurança e a possibilidade de apagar conversas e gravações. Produtos com Wi-Fi ou Bluetooth também devem atender às exigências de homologação da Anatel.

Léo Soares recomenda verificar se é possível desligar o microfone, limitar as conversas, impedir compras ou publicidade e excluir permanentemente os dados armazenados. "A escolha deve considerar se a tecnologia realmente acrescenta algo positivo à experiência infantil, e não apenas se torna o produto mais sofisticado", orienta.

O essencial

Na rotina, o equilíbrio também é essencial. Anne Linhares orienta que os pais estabeleçam horários para o uso desses brinquedos e garantam espaço para leitura, desenho, atividades físicas, brincadeiras livres e convivência com outras crianças. "A criança não precisa ter uma resposta ou um estímulo pronto o tempo inteiro. Muitas vezes, é justamente quando ela precisa inventar o que fazer que a criatividade começa a aparecer", afirma a especialista.

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A participação dos adultos continua sendo indispensável nesse processo. Brincar junto, conversar, ouvir as histórias inventadas pelos filhos e permitir que eles explorem diferentes atividades são formas de estimular o desenvolvimento. A inteligência artificial pode fazer parte da infância, mas não deve substituir as experiências que ajudam a criança a construir autonomia, criatividade e vínculos afetivos.

Como resume Léo Soares, "antes, os pais precisavam se preocupar com o que um brinquedo poderia ensinar à criança. Agora, também precisam se preocupar com o que o brinquedo pode aprender sobre ela". O desafio, portanto, é avaliar se os recursos tecnológicos oferecem benefícios reais sem comprometer a privacidade, a segurança e o desenvolvimento dos pequenos.

Revista Malu
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