Dia da Democracia: Leandro Karnal explica por que discordar não deveria virar confronto

Em aula aberta na Unicamp, historiador refletiu sobre polarização, tolerância e os limites entre a divergência de ideias e a hostilidade

24 out 2026 - 21h37
Resumo
No Dia da Democracia, reflexões do historiador Leandro Karnal destacam que a divergência de opiniões é vital para o sistema democrático, alertando contra a transformação do conflito saudável de ideias em confronto hostil e violento. Karnal ressalta a capacidade da democracia de se aprimorar através da autocrítica e do debate público. Diante da polarização, ele defende que a tolerância, o diálogo e o acesso ao conhecimento são os caminhos fundamentais para superar o medo e proteger a convivência.

O Dia da Democracia, celebrado em 25 de outubro, abre espaço para refletir sobre um dos pilares desse sistema: a possibilidade de conviver com opiniões diferentes. Uma fala do historiador e professor Leandro Karnal, feita há dez anos, mas que permanece atual, principalmente em meio às Eleições 2026, ajuda a pensar justamente sobre esse desafio.

Reflexão sobre democracia feita há dez anos por Leandro Karnal volta a chamar atenção diante da polarização e das eleições de 2026
Reflexão sobre democracia feita há dez anos por Leandro Karnal volta a chamar atenção diante da polarização e das eleições de 2026
Foto: sefa ozel/Getty Images ProReprodução/Instagram/@leandro_karnal / Bons Fluidos

Em 7 de junho de 2016, durante uma aula aberta na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Karnal abordou as expressões e contradições da democracia dentro da universidade. O encontro, organizado pelo Centro Acadêmico do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Unicamp (CACAU), reuniu centenas de pessoas, segundo o portal 'Jornalistas Livres'.

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Na ocasião, então, o historiador chamou atenção para uma diferença que continua relevante. Discordar faz parte da vida democrática. No entanto, transformar a divergência em hostilidade ameaça justamente esse espaço de convivência.

Democracia exige distinguir conflito de confronto

Para Karnal, o conflito de ideias não deve ser tratado como algo negativo. Ele surge justamente porque pessoas diferentes possuem opiniões, experiências e interesses distintos, algo valioso e necessário em um cenário democrático.

"Conflito é desejável, é algo que mostra a diversidade humana. Confronto é quando eu acho que eu tenho que enfrentar quem discorda de mim, inclusive eliminar, seja pela humilhação do argumento, seja pelo poder físico, seja pelo poder policial. Na ditadura não há conflito algum, considerando que tudo termina no confronto violento", ressaltou.

A reflexão coloca o problema não na existência da discordância, mas na maneira como ela é conduzida. Isso porque quando a troca de argumentos dá lugar à tentativa de humilhar, silenciar ou eliminar quem pensa diferente, o espaço para diálogo diminui.

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Um sistema capaz de reconhecer as próprias falhas

Outro aspecto destacado por Karnal foi a capacidade de uma democracia identificar problemas e buscar mudanças. Para explicar essa característica, ele recorreu ao pensamento de Jean-Jacques Rousseau: "Todo sistema democrático tem uma característica que é a perfectibilidade, a característica plástica que a democracia tem de perceber-se falha e capaz de melhoras."

Na avaliação apresentada durante a aula, essa possibilidade de revisão é uma das forças do sistema. Mesmo com imperfeições, a existência de críticas, denúncias e cobranças permite que problemas sejam expostos e debatidos publicamente. Ademais, Karnal relacionou essa abertura à possibilidade de responsabilizar comportamentos antiéticos, algo que, segundo ele, encontra obstáculos muito maiores em regimes autoritários.

Polarização pode transformar divergência em hostilidade

Ao analisar o cenário brasileiro daquele momento, Karnal observou um aumento da participação política. Assim como ocorre hoje, mais pessoas manifestavam suas posições e ocupavam espaços de discussão. Ao mesmo tempo, ele demonstrou preocupação com uma polarização capaz de transformar divergências em confronto.

Para o historiador, o problema não está na existência de opiniões diferentes, mas na dificuldade de conviver com elas. No encerramento de sua reflexão, Karnal apontou o diálogo, a leitura e a tolerância como caminhos para enfrentar esse cenário.

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"Este é o grande desafio da nossa geração cosmopolita, exposta às contradições. Contestando, ouvindo essa diversidade, e superando lentamente o medo, que é o pai de todo fascismo. Para que o medo diminua, é fundamental que haja mais debates como este, mais leitura, mais abertura para o mundo, mais aprendizado, mais tolerância", concluiu o historiador.

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