Atitude nem sempre diz respeito diretamente à pessoa que foi bloqueada
Conhecer alguém e, de repente, perceber que essa pessoa bloqueou você em todas as redes sociais provoca uma mistura intensa de sentimentos. A surpresa costuma vir acompanhada de frustração, tristeza e muitas perguntas sem resposta. Sem uma explicação clara, é comum que a pessoa bloqueada passe a revisitar conversas, atitudes e momentos recentes em busca de algum sinal que possa justificar o que aconteceu.
Pesquisas recentes mostram que o desaparecimento repentino nas relações digitais se tornou cada vez mais comum. Um levantamento citado pela Forbes Health em 2025 aponta que cerca de 61% dos usuários de aplicativos de relacionamento relatam já ter passado por situações de ghosting. Especialmente entre jovens adultos que utilizam essas plataformas para conhecer novas pessoas. O dado reforça como o silêncio ou o bloqueio sem explicação se tornou uma dinâmica frequente nos relacionamentos mediados por aplicativos.
O início de qualquer relação, mesmo quando ainda está nos primeiros encontros ou conversas, envolve expectativa e curiosidade emocional. Ainda que o vínculo esteja em formação, existe um investimento afetivo natural, uma abertura para descobrir o outro e construir uma conexão. Quando alguém interrompe o contato de maneira abrupta e sem diálogo, a pessoa provoca uma sensação de rejeição ou desrespeito, ampliando a confusão emocional.
"Quando duas pessoas começam a se conhecer, não são apenas duas presenças ali. São histórias, experiências passadas, traumas e maneiras diferentes de lidar com sentimentos. Nem todo mundo desenvolveu repertório emocional para lidar com conversas difíceis ou para encerrar algo de forma clara e respeitosa", afirma Roberson Dariel, Pai de Santo especialista em relacionamentos e fundador do Instituto Unieb.
Fuga
Segundo o especialista, bloquear alguém pode surgir como uma forma de evitar o desconforto de uma conversa direta. Em vez de explicar sentimentos, dúvidas ou a falta de interesse em continuar o vínculo, algumas pessoas preferem desaparecer completamente do contato. "É uma forma de evitar conflito, mas também demonstra uma dificuldade de assumir responsabilidade afetiva dentro das relações", explica Roberson.
Mesmo sendo uma experiência dolorosa, o especialista ressalta que quem bloqueia nem sempre direciona esse tipo de atitude diretamente à pessoa bloqueada. Em muitos casos, ela revela mais sobre quem tomou a decisão e sobre a forma como essa pessoa costuma lidar com vínculos emocionais. "Ser bloqueado pode machucar, mas é importante entender que esse comportamento fala muito mais sobre quem bloqueia do que sobre quem foi bloqueado", pontua.
Essa é a responsabilidade afetiva que você deseja em uma relação?
Embora a experiência possa gerar frustração, situações como essa também podem abrir espaço para reflexões importantes. Por exemplo, sobre o tipo de relação que cada pessoa deseja construir. Quando comportamentos de evasão aparecem logo no início de um vínculo, eles podem revelar características emocionais que talvez demorassem muito mais tempo para aparecer em um relacionamento mais profundo.
"Às vezes o que parece rejeição é, na verdade, uma informação importante sobre a maturidade emocional do outro. Descobrir isso no começo pode evitar que a pessoa se envolva profundamente com alguém que não consegue lidar com diálogo e responsabilidade afetiva", afirma Roberson Dariel. Para ele, em vez de transformar o bloqueio em uma autocrítica constante, pode ser mais saudável compreender que nem todas as atitudes do outro estão sob nosso controle ou refletem diretamente o nosso valor.