Relógio mental de pessoas com insônia é desregulado, diz estudo

Pesquisa científica indica que pessoas com insônia podem manter o cérebro ativo como se ainda fosse dia, dificultando o processo natural de adormecer

17 mar 2026 - 10h06

Quem sofre com insônia conhece bem a sensação: o corpo está cansado, mas a mente parece continuar em plena atividade. Pensamentos surgem em sequência, lembranças aparecem, preocupações voltam à tona - e o sono simplesmente não chega. Agora, uma pesquisa científica ajuda a explicar por que isso acontece.

Estudo revela que pessoas com insônia podem ter um “relógio mental” desregulado, mantendo pensamentos ativos na hora de dormir
Estudo revela que pessoas com insônia podem ter um “relógio mental” desregulado, mantendo pensamentos ativos na hora de dormir
Foto: Reprodução: cottonbro studio/Pexels / Bons Fluidos

Um estudo conduzido pela Universidade da Austrália do Sul, publicado na revista científica Sleep Medicine, sugere que pessoas com insônia podem ter um "relógio mental" desregulado, que mantém o cérebro funcionando como se ainda fosse dia justamente no momento em que ele deveria desacelerar.

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O cérebro que não "desliga" na hora de dormir

Para investigar essa hipótese, os pesquisadores analisaram o padrão de pensamentos de adultos mais velhos ao longo de um período de 24 horas. O objetivo era entender como a mente se comporta em pessoas que dormem bem e em pessoas que convivem com insônia.

O estudo envolveu 32 voluntários com mais de 55 anos. Metade deles tinha insônia caracterizada por acordar durante a madrugada e ter dificuldade para voltar a dormir. A outra metade era composta por pessoas consideradas bons dormidores.

Antes do experimento principal, todos passaram por exames e avaliações do sono para garantir que não havia outros distúrbios ou fatores que pudessem interferir nos resultados.

Um experimento para observar o "relógio interno"

Na fase principal da pesquisa, os participantes passaram por um protocolo chamado "rotina constante". Durante cerca de 26 horas em laboratório, ficaram deitados sob luz fraca, sem cochilar e sem acesso a estímulos fortes como café, álcool ou telas.

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Eles recebiam pequenos lanches a cada duas horas e, ao longo do dia e da noite, respondiam a questionários que analisavam a forma como seus pensamentos estavam acontecendo naquele momento.

Os cientistas avaliaram aspectos como: se os pensamentos eram mais imagens ou diálogos internos; se surgiam de forma repetitiva ou em sequência; se estavam ligados à realidade ou pareciam mais próximos de sonhos; o grau de controle sobre os próprios pensamentos; e o nível de atenção ao ambiente ao redor. A intenção era observar como a atividade mental varia naturalmente ao longo do ciclo de 24 horas.

A diferença entre quem dorme bem e quem tem insônia

Os resultados mostraram que, em ambos os grupos, existe um ritmo natural no funcionamento da mente. Durante o dia, os pensamentos tendem a ser mais lógicos, organizados e ligados a tarefas. Já à noite, eles costumam se tornar mais soltos, imagéticos e próximos do estado de sonho - um processo esperado quando o cérebro começa a se preparar para dormir. No entanto, entre pessoas com insônia, essa transição acontece de forma diferente.

Enquanto bons dormidores apresentaram uma queda clara na intensidade dos pensamentos racionais durante a noite, aqueles com insônia mantiveram níveis mais altos de atividade mental justamente no horário em que o cérebro deveria desacelerar.

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Além disso, o pico de pensamento mais engajado - aquele em que ideias se encadeiam em sequência lógica, como listas mentais ou planejamentos - apareceu cerca de seis horas e meia mais tarde no grupo com insônia. Em outras palavras, o cérebro continuava funcionando em modo "resolução de problemas" quando já deveria estar entrando em um estado mais relaxado.

A famosa "mente que não para"

Outro ponto que chamou a atenção dos pesquisadores foi o estilo de pensamento observado nos participantes com insônia. Eles relataram com mais frequência um padrão de raciocínio linear - aquele em que uma ideia leva à outra, que leva a mais outra, formando uma cadeia contínua de preocupações ou reflexões.

Esse fenômeno é muito comum em relatos de quem sofre com dificuldades para dormir: a mente revisita acontecimentos do dia, antecipa problemas, faz planejamentos e analisa cenários, criando uma espécie de fluxo interminável de pensamentos. Esse padrão mental também aparece em estudos sobre ansiedade e pode contribuir para manter o cérebro em estado de vigília.

O que isso significa para o tratamento da insônia

Os pesquisadores acreditam que os resultados reforçam a teoria da hiperexcitação cerebral, segundo a qual algumas áreas do cérebro continuam excessivamente ativas durante a noite. Uma dessas regiões é o córtex pré-frontal, responsável por funções como planejamento, tomada de decisões e controle dos pensamentos. A partir dessa compreensão, especialistas sugerem que o tratamento da insônia pode se beneficiar de duas abordagens principais:

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1. Fortalecer o ritmo biológico

Manter horários regulares para acordar, se alimentar e dormir, além de garantir exposição à luz natural durante o dia. Tudo isso ajuda a reforçar o contraste entre dia e noite no relógio interno.

2. Trabalhar os padrões de pensamento

Técnicas como mindfulness e terapia cognitivo-comportamental podem ajudar a observar os pensamentos sem se prender a eles. Isso reduz a tendência de entrar em ciclos de preocupação antes de dormir.

Quando o problema não é apenas relaxar

A pesquisa também ajuda a explicar por que, para muitas pessoas, simplesmente "tentar relaxar" ou deitar mais cedo não resolve a insônia. Se o próprio ritmo da mente está fora de sincronia com o relógio biológico do corpo, o cérebro pode continuar funcionando em modo de alerta mesmo quando o ambiente está silencioso e escuro.

Os autores defendem que novas pesquisas com grupos maiores e diferentes tipos de insônia são necessárias para aprofundar essa compreensão. Mas uma coisa já parece clara: às vezes, o desafio para dormir não está apenas no corpo cansado - e sim em uma mente que ainda não encontrou o momento certo para desacelerar.

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