A neurociência do Big Brother, efeito manada e o cérebro coletivo

O Big Brother é apenas uma versão amplificada do que já acontece nos escritórios, nas escolas, nos grupos de amigos e, sobretudo, nas redes sociais

23 fev 2026 - 22h30

Você já se perguntou sobre o poder que o ambiente exerce em nossa vida? Ou mudou o seu jeito de acordo com certos locais e grupos? Todos os anos, milhões de brasileiros assistem ao Big Brother Brasil com a sensação de que estão observando um grande experimento humano. Julgam mudanças de comportamento, apontamos incoerências, elegemos vilões e heróis. "Ele mudou." "Ela está sendo falsa." Mas talvez estejamos interpretando o fenômeno de maneira simplista. Talvez o que vemos ali seja uma das forças mais primitivas do cérebro social operando sob máxima intensidade.

Todos os anos, milhões de brasileiros assistem ao Big Brother Brasil com a sensação de que estão observando um grande experimento humano
Todos os anos, milhões de brasileiros assistem ao Big Brother Brasil com a sensação de que estão observando um grande experimento humano
Foto: Divulgação/Globo / Bons Fluidos

O matemático Steven Strogatz descreve a força da sincronização como uma tendência natural de sistemas complexos à organização espontânea. Elementos independentes, quando colocados em interação contínua, começam a se alinhar. Vaga-lumes piscam juntos. Corações sincronizam batimentos. Não há um líder invisível coordenando tudo há apenas interação suficiente para que surja uma ordem coletiva.

Publicidade

Entre humanos, essa sincronização ganha contornos emocionais e identitários. Em ambientes de convivência intensa como a casa do Big Brother, o cérebro busca estabilidade social. A exclusão ativa regiões associadas à dor física e risco de rejeição é interpretado como se fosse ameaça real. O cortisol sobe. O sistema de alarme dispara. Pertencer não é luxo; é regulação emocional e no BBB é um mecanismo de defesa pois nao pertencer a um grupo pode significar a eliminação do jogo.

É nesse ponto que surge o chamado efeito manada. Trata-se da tendência de seguir o comportamento predominante do grupo, mesmo quando a percepção individual aponta outra direção. O sistema de recompensa dopaminérgico é ativado quando somos aceitos e validados, discordar pode gerar conflito neural no córtex pré-frontal medial. Assim, alinhar-se reduz desconforto interno. Ajustamos discurso, postura, posicionamento. Nem sempre por estratégia consciente muitas vezes por autopreservação psíquica.

E quando nos vemos estamos indo para o caminho oposto da nossa ética moral e agimos completamente diferente de como "costumávamos" ser. Na neurociência esse caminho existe o que denominamos "efeito colmeia" é quando o grupo tem uma identidade individual se funde à identidade do grupo. Em estádios lotados, vemos ondas sincronizadas. Em empresas, vemos culturas organizacionais que moldam comportamentos. Em reality shows, vemos alianças que transformam percepções individuais em verdades coletivas. No BBB, a casa torna-se uma colmeia emocional. O participante que diverge demais corre risco de isolamento. O grupo cria coerência interna mesmo que essa coerência não seja necessariamente racional.

E não pense que isso se limita ao confinamento televisivo. Nas redes sociais, o efeito manada ganhou velocidade exponencial. Fake news se espalham porque ativam emoção, e emoção gera compartilhamento. Quanto mais pessoas curtem, comentam e replicam uma informação, maior a percepção de que ela é válida. O cérebro lê popularidade como segurança. Repetição gera familiaridade, e familiaridade é confundida com verdade. É assim que narrativas frágeis se tornam convicções sólidas e podem mudar as percepções de "normalidade"

Publicidade

Ninguém acorda decidido a participar de uma distorção coletiva. Mas basta observar quatro fatores que favorecem esse processo: falta de clareza na meta, falta de independência, ausência de diversidade e insegurança interna. Em ambientes onde objetivos são confusos, as pessoas tendem a seguir o fluxo. Onde há pouca autonomia, repete-se comportamento dominante. Onde não há diversidade de pensamento, cria-se eco. E onde há insegurança, buscar pertencimento se torna prioridade.

É aí que surge o que chamamos de "normose"trata-se de atitudes e conjuntos de comportamento que outrora eram considerados inaceitáveis e que com a repetição começam a se tornar normal aceitável e ate mesmo uma nova maneira de ser. No cotidiano, isso aparece em frases aparentemente inocentes: "Se ninguém arruma, eu também não vou arrumar." "Todo mundo se atrasa." "Se ninguém se importa, por que eu deveria?" Pequenos ajustes individuais, somados, a cultura como por exemplo contextos musicais, programas de TV vao normalizando e aos poucos vai e gerando uma nova cultura coletiva. E cultura molda comportamento.

O Big Brother é apenas uma versão amplificada do que já acontece nos escritórios, nas escolas, nos grupos de amigos e, sobretudo, nas redes sociais. A diferença é que lá as câmeras são explícitas. Aqui fora, a vigilância é simbólica mas igualmente poderosa. Proteger-se desse fenômeno não significa isolar-se do mundo. Significa fortalecer o pensamento crítico e a regulação emocional. Pensar e estar ter convicções sobre o que aceitamos e o que não aceitamos é importante para questionar impulsos coletivos. Pausar antes de compartilhar, verificar antes de acreditar. Tolerar o desconforto de pensar diferente e muitas vezes "ser o chato da turma"e discordar do que nao concordamos. Desenvolver segurança interna suficiente para sustentar opinião própria mesmo sob pressão, autenticidade exige coragem neural. Exige suportar a possibilidade de não ser aplaudido, exige aceitar que pertencimento e individualidade nem sempre caminham juntos.

O Big Brother nos entretém, mas também nos revela. Mostra que identidade é fluida mostra que grupo tem força própria,mostra que ninguém está imune à sincronização social. Talvez a verdadeira maturidade não esteja em nunca ser influenciado isso é impossível. Talvez esteja em reconhecer quando estamos apenas ecoando a colmeia… e quando estamos, de fato, escolhendo por nós mesmos. Porque viver em sociedade é inevitável. Mas viver sem consciência coletiva pode ser perigoso. E viver sem consciência individual pode ser ainda mais.

Publicidade

Sobre a autora

Jéssica Martani é médica psiquiatra, especialista em TDAH, saúde mental e regulação emocional. Coordena a pós graduação em TDAH do Instituto TDAH, reconhecida pelo MEC, em parceria com a Universidade Anhanguera. É colunista da Bons Fluidos (Editora Caras) e criadora do canal Brilhantemente, onde traduz temas complexos e reflexões acessíveis para quem busca equilíbrio emocional e transformação pessoal. Saiba mais em Instagram e YouTube: @dra.jessicamartani

Saiba mais: https://www.instagram.com/dra.jessicamartani/ e https://www.youtube.com/@dra.jessicamartan

Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações