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Como o consumo de pornografia na adolescência impacta a saúde mental?

Conteúdo sexualmente explicito é associado a disfunção erétil, baixa libido, depressão e ansiedade, com riscos a curto e longo prazo

18 jun 2026 - 11h41

A curiosidade pelo universo erótico acompanha a humanidade há séculos. Isso vai de representações pré-históricas do corpo a imagens sexuais em objetos cotidianos de civilizações antigas. Hoje, a pornografia surge principalmente na forma de vídeos explícitos. O avanço tecnológico dos últimos 20 anos ampliou consideravelmente o acesso a esse tipo de conteúdo. Da mesma forma, cresceram os impactos na saúde.

Pornografia é associada a disfunção erétil, baixa libido, depressão e ansiedade, com riscos a curto e longo prazo
Pornografia é associada a disfunção erétil, baixa libido, depressão e ansiedade, com riscos a curto e longo prazo
Foto: Canva Equipes/Africa Images / Bons Fluidos

Embora faltem estimativas robustas a níveis global e nacional, especialistas apontam um aumento no consumo. Além disso, o contato com esse conteúdo acontece em idades cada vez mais jovens. O livro Handbook of Children and Screens ("Manual de Crianças e Telas") destaca essa realidade com base na literatura científica recente. A maioria dos adolescentes já viu pornografia. Mais da metade relata o primeiro contato antes dos 14 anos, de forma intencional ou não.

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Entenda o cenário

Um estudo realizado nos Estados Unidos com mais de 1.300 jovens de 13 a 17 anos apresentou dados ainda mais alarmantes. Nesse grupo, 15% disseram ter visto pornografia online pela primeira vez aos 10 anos ou menos. A pesquisa mostra que a idade média do primeiro contato foi aos 12 anos. Além disso, 44% buscaram pelo conteúdo, enquanto 58% esbarraram nele acidentalmente.

No Brasil, um trabalho publicado em 2023 na Revista Brasileira de Sexualidade Humana traz novos dados. O primeiro contato com a pornografia ocorreu, em média, aos 13 anos entre os homens. Entre as mulheres, a média ficou por volta dos 15 anos. O levantamento envolveu apenas 153 pessoas, mas ajuda a compor o cenário nacional ao lado de outras pesquisas.

Em 2025, a pesquisa TIC Kids Online Brasil, do Cetic.br/NIC.br, entrevistou 2.300 jovens e seus responsáveis em todo o país. O estudo revelou que 8% os usuários de internet de 9 a 17 anos viram imagens ou vídeos de conteúdo sexual online nos 12 meses anteriores, com ou sem intenção.

Reflexões da pornografia no emocional

Entre médicos, já existe o consenso de que a pornografia afeta o desenvolvimento emocional, sobretudo na adolescência.

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"O uso frequente como estratégia de alívio de tensão pode reduzir a capacidade de lidar com frustrações e emoções negativas de forma adaptativa e saudável para o adolescente", diz o psiquiatra Luiz Gustavo Zoldan, gerente médico do Espaço Einstein de Bem-Estar e Saúde Mental, do Hospital Israelita Albert Einstein. "Além disso, pode distorcer expectativas sobre corpo e desempenho. Isso gera ansiedade de performance na relação sexual e afasta o jovem de uma vivência sexual mais integrada e realista."

De acordo com o especialista, muitos adolescentes ainda não viveram experiências reais, conversas educativas ou vínculos afetivos. Quando a pornografia entra cedo e intensamente na vida deles, o risco de virar a referência primária de sexualidade é maior. Consequentemente, causa prejuízos.

Impactos na saúde mental

A perspectiva psicológica e social do fenômeno acende outro alerta. A pornografia pode alterar a forma como adolescentes entendem consentimento, intimidade e reciprocidade.

"O indivíduo pode perder a dimensão de limites do próprio corpo e do outro. Com isso, desenvolve episódios de mais impulsividade ou irritabilidade frente a qualquer tipo de frustração", explica o psicólogo Maycon Torres, professor de psicologia clínica e saúde mental e vice-coordenador do programa de pós-graduação em Psicologia da UFF (Universidade Federal Fluminense).

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Diferentes estudos apontam as nuances desse comportamento. Um artigo publicado no periódico L'Encéphale revela associações entre o consumo desse conteúdo e atitudes sexuais mais permissivas. Isso inclui comportamentos sexuais de risco, agressão sexual e experiências de abuso sexual digital. Um amplo estudo divulgado em 2022 no Journal of Research on Adolescence também associou a pornografia à conduta de assédio sexual.

Em parte, a tendência de produções com teor cada vez mais extremo explica esse cenário, pois a indústria busca engajamento e lucro. Nessa seara, encontram-se vídeos com conotação violenta e degradante. São cenas que exaltam a dor, simulam o não consentimento e trazem encenação de incesto. Há também a exploração de corpos com aparência muito jovem, embora os atores sejam maiores de idade.

Pornografia e vício

A exposição abusiva ao conteúdo sexual explícito pode levar a um problema chamado de tolerância. O processo é semelhante ao uso de algumas substâncias ilícitas. Com o tempo, o corpo precisa de doses cada vez mais altas para desencadear o mesmo efeito inicial.

No caso da pornografia, a pessoa perde a sensibilidade a filmes "comuns" e recorre aos conteúdos mais intensos. Diversas pesquisas mostram isso, incluindo um estudo qualitativo publicado na Scientific Reports em 2024. O uso problemático pode trazer eventos adversos como ansiedade, depressão, culpa, vergonha e isolamento social.

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"Observamos uma associação com ansiedade e sintomas depressivos, muitas vezes relacionados ao ciclo de uso e frustração. Culpa e vergonha podem aparecer principalmente em contextos culturais ou familiares mais restritivos", diz Zoldan. "O isolamento fica evidente quando o jovem substitui interações reais, como compromissos e atividades, pela necessidade de consumo compulsivo da pornografia."

Além da adolescência

O contato precoce e intenso com a pornografia antes de experiências reais tende a colocá-la como referência de sexualidade. "A adolescência é o momento em que essas vivências começam a produzir marcas que condicionam a sexualidade adulta. Pessoas com um padrão de consumo excessivo, principalmente ao nível de provocar alterações da autoestima e do autocontrole, tendem a relatar mais dificuldades em obter satisfação sexual e apresentam mais problemas de relacionamento", afirma Torres.

Os impactos sobre a vida sexual e afetiva se estendem para a idade adulta. Surgem dificuldades para a formação de intimidade e vínculo, além da compreensão do sexo apenas como performance. O adulto encontra desafios para lidar com constrangimentos e falhas, sente vergonha de imperfeições corporais naturais e sofre distorções no entendimento de limite e consentimento.

Nem todo indivíduo exposto a materiais explícitos na juventude apresenta o mesmo padrão de comportamento ou entraves posteriores. Mesmo assim, a literatura sugere um risco aumentado. A observação clínica também aponta consequências de longo prazo. Entre elas estão quadros de disfunção erétil, ejaculação precoce, falta de prazer, baixa libido com parcerias reais e dependência associada a sintomas como fissura e comprometimento da vida social.

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Reconhecimento do problema

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), da Associação Americana de Psiquiatria, não inclui o uso problemático de pornografia em uma categoria própria. Por outro lado, a Classificação Internacional de Doenças (CID-11), da OMS, reconhece o transtorno do comportamento sexual compulsivo. Essa classificação pode incluir o uso excessivo de conteúdo pornográfico.

"O diagnóstico considera diversas questões. Isso inclui se a pessoa apresenta um sofrimento muito significativo com a prática ou prejuízos, que podem ser de ordem sexual, de saúde mental e nos relacionamentos", diz o psiquiatra e pesquisador Thiago Roza, professor da UFPR (Universidade Federal do Paraná).

A prevenção depende de eixos que compreendem família, escola e atenção em saúde mental. Contudo, as dificuldades na implementação do cuidado persistem por se tratar de um tema considerado tabu. Antes de mais nada, as pessoas precisam reconhecer os sinais de alerta.

"Há perda de controle, associada ou não a tentativas frustradas de reduzir ou interromper o comportamento. Nota-se o aumento progressivo do tempo de uso e o consumo em contextos inadequados, como escola, trabalho ou na sala de estar de casa. Além disso, surgem prejuízos nas áreas acadêmica, social ou familiar", afirma Zoldan, do Einstein.

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Orientações para prevenir os efeitos

A proibição isolada pode não surtir grandes efeitos. O caminho mais consistente exige uma abordagem combinada. "Ela envolve educação sexual baseada em evidências, incluindo discussões sobre consentimento, afetividade e realidade em relação à fantasia", explica Zoldan. Além disso, o processo inclui manter um diálogo aberto para reduzir o estigma e favorecer a orientação segura, junto com um letramento digital para a compreensão crítica do conteúdo.

Nesse contexto, outras estratégias podem ser mais eficazes. Destacam-se o monitoramento da atividade digital por pais e responsáveis, a promoção de habilidades socioemocionais em casa e na escola, e a educação sexual pautada na discussão crítica sobre encontros sexuais, consentimento, gênero e a falta de realismo da pornografia.

*Texto escrito por Lucas Rocha, da Agência Einstein 

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