Diagnosticada com a síndrome da pessoa rígida, doença neurológica rara e sem cura que causa espasmos e rigidez muscular, Céline Dion detalhou sua rotina de reabilitação para voltar aos palcos. Afastada das apresentações após ter sua mobilidade e capacidade vocal afetadas, a cantora combinou medicamentos, imunoterapia, terapia vocal, pilates e balé para retomar o condicionamento físico. A dedicação permitiu seu retorno em Paris, marcando a superação gradual das limitações da condição.
Depois de passar anos afastada dos palcos por causa de uma doença neurológica rara, Céline Dion vem retomando aos poucos uma das partes mais importantes de sua vida: cantar diante do público. O processo, porém, exigiu uma extensa rotina de tratamentos e reabilitação.
Em entrevista à revista Harper's Bazaar, a cantora falou sobre o período longe dos fãs e sobre a preparação necessária para voltar a se apresentar. "Já faz tanto tempo que eu gostaria de lhes oferecer algo para mostrar o quanto senti falta de vocês", declarou.
Céline Dion convive com a síndrome da pessoa rígida, condição neurológica rara que pode provocar rigidez muscular intensa e episódios de espasmos dolorosos. Os sintomas afetaram profundamente sua rotina e fizeram com que a artista interrompesse seus compromissos profissionais, incluindo a turnê Courage World Tour, que teria apresentações na Europa.
Nos últimos anos, a cantora passou por diferentes estratégias de tratamento e reabilitação, entre elas fisioterapia, terapia vocal, medicamentos e imunoterapia. A preparação física também ganhou espaço importante em sua rotina.
"Para me preparar para os shows em Paris, faço sessões de pilates de 90 minutos três vezes por semana; nos outros dois dias, faço aulas de balé com uma companhia local", contou Dion.
O esforço acompanha a tentativa de recuperar condicionamento e controle corporal suficientes para voltar ao palco. Em seu retorno, a artista se apresentou na Plenitude Arena, em Nanterre, nos arredores de Paris, diante de milhares de pessoas, em um show com mais de duas horas de duração.
O que é a síndrome da pessoa rígida?
Apesar do nome curioso, a síndrome da pessoa rígida é uma condição neurológica séria e bastante rara. Uma de suas principais características é o aumento progressivo da rigidez dos músculos, principalmente na região do tronco, acompanhado de espasmos involuntários que podem ser bastante dolorosos.
Alguns pacientes também apresentam uma sensibilidade acentuada a determinados estímulos. Sons inesperados, toques e até situações de estresse podem desencadear ou intensificar os espasmos.
A origem exata da doença ainda não é completamente compreendida. Uma das principais hipóteses é de que exista um mecanismo autoimune envolvido, fazendo com que o próprio sistema imunológico ataque estruturas relacionadas ao funcionamento do sistema nervoso.
Céline Dion tornou seu diagnóstico público em 2023. Na época, explicou como os sintomas estavam interferindo não apenas em sua mobilidade, mas também em sua capacidade de cantar. "Infelizmente, esses espasmos afetam todos os aspectos da minha vida diária, às vezes até causando dificuldades para caminhar; além disso, não me permitem usar minhas cordas vocais adequadamente", afirmou.
O que pode provocar a síndrome?
Embora ainda existam dúvidas sobre o que desencadeia a doença, especialistas estudam diferentes possibilidades. Uma delas é justamente a origem autoimune, já que alguns pacientes apresentam anticorpos relacionados à enzima GAD. Essa enzima participa da produção do GABA, neurotransmissor que exerce papel importante no controle da atividade muscular. A síndrome também pode aparecer associada a outras condições autoimunes, como diabetes, tireoidite de Hashimoto, anemia perniciosa e vitiligo.
Outra possibilidade, considerada menos frequente, é a chamada síndrome paraneoplásica. Nesses casos, alterações do sistema imunológico estão relacionadas à presença de um tumor. Segundo Andersson, essa situação corresponde a uma pequena parcela dos diagnósticos.
Há ainda pacientes nos quais não é possível determinar uma origem específica. Esses quadros são classificados como idiopáticos.
Quais são os principais sintomas?
A rigidez muscular progressiva é uma das manifestações mais características da síndrome da pessoa rígida. Com a evolução do quadro, tarefas simples do cotidiano podem se tornar mais difíceis, especialmente quando os espasmos interferem na marcha e na movimentação. Essas alterações podem aumentar o risco de quedas e prejudicar a autonomia dependendo da intensidade da doença.
No caso de uma cantora, os impactos podem ir além da locomoção. O controle muscular está diretamente envolvido na respiração, na articulação e na emissão da voz, o que ajuda a entender por que a síndrome interferiu de maneira tão significativa na carreira de Céline Dion.
A cognição, por outro lado, costuma permanecer preservada. Ainda assim, pacientes podem apresentar questões emocionais associadas à doença e às limitações provocadas por ela, incluindo ansiedade, fobias, ataques de pânico e depressão.
Diagnóstico pode ser desafiador
Por ser extremamente rara e apresentar manifestações que podem lembrar outros problemas neurológicos, a síndrome da pessoa rígida nem sempre é identificada rapidamente. A investigação médica pode envolver avaliação clínica, exames laboratoriais para identificar determinados anticorpos e, em situações específicas, análise do líquido cefalorraquidiano, além de outros testes necessários para excluir diagnósticos semelhantes.
Síndrome da pessoa rígida tem tratamento?
Ainda não existe cura para a síndrome da pessoa rígida, mas isso não significa que não haja maneiras de controlar seus sintomas. O tratamento é individualizado e busca principalmente diminuir a rigidez e os espasmos, aliviar a dor e preservar a mobilidade e a qualidade de vida.
Medicamentos que atuam sobre o sistema GABA, incluindo opções como diazepam e baclofeno, podem ser utilizados para auxiliar no controle da rigidez e dos espasmos musculares, sempre sob acompanhamento médico.
Em determinados casos, terapias voltadas ao sistema imunológico também entram no tratamento. Entre elas estão as imunoglobulinas intravenosas, utilizadas com o objetivo de modular a resposta imunológica envolvida na doença.
Fisioterapia e outras estratégias de reabilitação também podem integrar os cuidados. Para Céline Dion, essa reconstrução inclui ainda terapia vocal, pilates e balé - uma rotina intensa que acompanha seu processo de retorno à atividade profissional e de adaptação à vida com uma condição crônica.