Crianças e adolescentes estão mais ansiosos que adultos

Registros de ansiedade em crianças e adolescentes superaram os de adultos pela primeira vez no Brasil: por que isso está acontecendo?

7 jun 2024 - 15h53

Que a atual geração de jovens é mais ansiosa que as anteriores, pais, educadores e profissionais de saúde já vinham notando, mas um novo levantamento feito pelo jornal Folha de S.Paulo na última semana revela que os registros de ansiedade em crianças e adolescentes superaram os de adultos pela primeira vez no Brasil.

A Folha usou dados da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) do SUS de 2013 a 2023. A taxa de transtornos de ansiedade entre 10 e 14 anos é de 125,8 a cada 100 mil, já entre os adolescentes fica em 157 a cada cem mil, superando o registro em adultos, que é 112,5 a cada 100 mil, todos os dados de 2023.

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Os números trazem uma reflexão sobre o que poderia estar impactando a saúde mental dos jovens, com destaque para os transtornos de ansiedade. Fica evidente que estamos diante de uma questão multifatorial.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) vem apontando um crescimento dos casos de ansiedade na população brasileira na última década, considerando o país como um dos mais ansiosos do mundo. Esse cenário se reflete também na saúde mental dos mais novos.

Concentração da renda, pobreza de grande parte da população, insegurança social, polarização política, percepção de corrupção e impunidade, criminalidade, violência, discriminação, preconceito, machismo, racismo e a pandemia são alguns dos fatores que ajudam a entender porque a ansiedade se apresenta tão em alta no Brasil.

No caso dos jovens, também se discute o peso que o uso de telas e tecnologias, sobretudo redes sociais, tem nas emoções e comportamentos. A geração mais conectada da história também é a que parece mais vulnerável aos riscos que a vida online pode trazer.

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Menino no celular
Menino no celular
Foto: Orbon Alija/iStock

As redes são o “local” de encontro dos mais novos. É lá que eles se informam, publicam suas fotos, se expõem, veem os outros, se comparam, se cobram e se frustram. Claro que eles se divertem e curtem estar lá, mas de maneira geral têm poucos recursos e filtros para entender quando estão usando tempo demais ou ficando mal pelo uso excessivo.

Questões com autoestima e autoaceitação são comuns para os mais novos, e a imaturidade e falta de experiência naturais da idade podem dificultar a percepção que as redes não são a tradução mais fiel da realidade e, sim, uma versão editada  e melhorada daquilo que se compartilha. Pessoas lindas, lugares incríveis, comidas fantásticas, sucesso, luxo, amor perfeito e felicidade podem fazer mais mal do que bem para quem está mais vulnerável do ponto de vista emocional.

Além disso, o cyberbullying e outras formas de violência ganham uma escala sem precedentes no mundo virtual. A busca pelo reconhecimento que não chega para todos, o sonho inalcançável de milhares de seguidores, os padrões distorcidos e idealizados de corpo e beleza, tudo isso pode impactar negativamente os jovens.

Se ter um pouco de ansiedade e tristeza no dia a dia no torna humanos, o excesso, inrtensidade e frequência dessas emoções podem levar a sintomas, que se não tratados podem fazer eclodir um episodio de transtorno de ansiedade ou depressão.

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Embora a tecnologia não seja a única responsável pela ansiedade entre os jovens, ela certamente tem um peso importante. No livro “A geração ansiosa: como a infância hiperconectada está causando uma epidemia de transtornos mentais”, o psicólogo americano Jonathan Haidt aponta o papel central do celular na crise que vivemos.

Os dados trazidos pela Folha ainda revelam um aumento importante nas taxas de depressão e nos índices de suicídio entre garotas de 10 a 14 anos (maior do que entre  os garotos na mesma faixa etária). O mesmo fenômeno acontece em relação à ansiedade. Vale lembrar que enquanto os meninos tendem a usar o celular para acessar mais vídeos e jogos, as meninas buscam mais as redes sociais, onde podem se sentir mais pressionadas pela questão da aparência, do corpo e dos padrões de comportamentos esperados para elas.

Outros achados do levantamento mostram que quando o tema é escola, há entre os  alunos uma piora ao longo dos anos da sensação de solidão, de exclusão social e da percepção de pertencimento ao ambiente escolar.

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Para tentar reverter essa tendência, não existe uma fórmula pronta, mas podemos pensar em algumas indicações do que pode ser feito. Aumentar a idade do primeiro contato da criança com as tecnologias (sobretudo redes sociais), controlar de forma mais efetiva o tempo de uso de telas e educar sobre as melhores formas de se relacionar com o celular são algumas dessas ideias. Esse processo seria idealmente feito em conjunto por pais, filhos, escolas e as grandes plataformas digitais.

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Mas é importante também que outras discussões sejam levadas em consideração quando se trata da saúde mental dos jovens. Violência, preconceitos, discriminação, educação, projeto de vida, qualidade dos afetos e a construção de um canal ativo de diálogo com os pais e responsáveis são chaves para essa mudança. Tudo isso deve contribuir para uma geração menos ansiosa e, possivelmente, mais feliz.

*Jairo Bouer é psiquiatra e escreve semanalmente no Terra Você.

Fonte: Jairo Bouer
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