Tecnologia controversa: empresas estudam criar um "guarda-sol" artificial para o planeta

Nos últimos anos, um grupo pequeno, mas crescente, de startups passou a apostar em uma ideia que até pouco tempo atrás circulava mais na ficção científica do que em laboratórios: usar geoengenharia solar com aerossóis na estratosfera para reduzir a temperatura média do planeta.

15 jun 2026 - 07h31

Nos últimos anos, um grupo pequeno, mas crescente, de startups passou a apostar em uma ideia que até pouco tempo atrás circulava mais na ficção científica do que em laboratórios: usar geoengenharia solar com aerossóis na estratosfera para reduzir a temperatura média do planeta. A proposta, em linhas gerais, cria uma espécie de "guarda-sol" artificial que reflete parte da luz do Sol de volta para o espaço. Desse modo, a técnica diminui o aquecimento global sem mexer diretamente nas emissões de gases de efeito estufa.

Essa abordagem chama atenção justamente porque surge em um cenário em que as metas climáticas sofrem forte pressão e as emissões seguem elevadas. Assim, empresas de base tecnológica, muitas delas saídas de universidades e centros de pesquisa, enxergam aí um possível campo de negócios e de inovação climática. Ao mesmo tempo, cientistas, ambientalistas e organismos internacionais acompanham o tema com cautela. Eles destacam riscos pouco conhecidos e o potencial de dependência de uma solução que não substitui a redução de carbono.

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O que é a geoengenharia solar com aerossóis estratosféricos?

A expressão geoengenharia solar reúne propostas que tentam manipular o balanço de energia do planeta, interferindo na quantidade de radiação solar que chega ou permanece na superfície. No caso específico dos aerossóis estratosféricos, a ideia libera partículas minúsculas, como sulfatos ou outros compostos refletivos, a altitudes em torno de 15 a 25 quilômetros. Assim, o processo ocorre acima da camada onde se formam a maioria das nuvens e fenômenos meteorológicos cotidianos.

Essas partículas funcionam como microscópicos espelhos, espalhando parte da luz solar e reduzindo, de maneira temporária, o aquecimento da atmosfera e da superfície. O conceito se inspira em observações feitas após grandes erupções vulcânicas. Nesses eventos, o lançamento natural de aerossóis na estratosfera provoca quedas mensuráveis na temperatura global. No vocabulário de pesquisa, especialistas costumam chamar a técnica de injeção de aerossóis estratosféricos, ou SAI, na sigla em inglês.

Do ponto de vista operacional, startups testam desde balões de alta altitude até aviões especialmente adaptados para espalhar essas substâncias. No entanto, a maior parte dos experimentos públicos até agora permanece em escala reduzida. Eles utilizam volumes muito menores do que o necessário para afetar o clima global. Em paralelo, equipes de pesquisa concentram esforços em simulações computacionais e estudos de modelagem climática. Além disso, alguns grupos começam a comparar cenários de aplicação com diferentes compostos, como carbonato de cálcio.

Geoengenharia solar com aerossóis na estratosfera para reduzir a temperatura média do planeta. – depositphotos.com / REDPIXEL
Geoengenharia solar com aerossóis na estratosfera para reduzir a temperatura média do planeta. – depositphotos.com / REDPIXEL
Foto: Giro 10

Como as erupções vulcânicas inspiram esse "guarda-sol" artificial?

A principal referência empírica para esse tipo de geoengenharia vem de erupções de grande porte, como a do Monte Pinatubo, nas Filipinas, em 1991. Na época, a liberação de enormes quantidades de dióxido de enxofre na estratosfera formou uma camada de aerossóis. Segundo medições climáticas, essa camada levou a um resfriamento médio global de cerca de meio grau Celsius. O efeito durou pouco mais de um ano. Esse tipo de evento fortaleceu a hipótese de que uma intervenção controlada poderia gerar efeito semelhante, porém planejado.

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O raciocínio central das empresas considera que, se a natureza já demonstrou esse mecanismo de resfriamento temporário, equipes humanas podem imitá-lo de forma ajustável. Para isso, as startups defendem doses menores e monitoradas. Portanto, elas trabalham em três frentes principais:

  • Modelagem climática detalhada para estimar impacto em diferentes regiões;
  • Estudos de materiais e partículas que ofereçam maior eficiência de reflexão com menos riscos;
  • Desenvolvimento de sistemas de dispersão, como aeronaves e plataformas de balões, para liberar os aerossóis a altitudes específicas.

Apesar da inspiração vulcânica, especialistas destacam uma diferença importante. Erupções representam eventos únicos e espontâneos. Já um "guarda-sol" artificial exige intervenções constantes para manter o efeito de resfriamento. Desse modo, a estratégia cria um cenário de longo prazo, com implicações próprias para governança e para custos contínuos. Além disso, um eventual aumento gradual de intensidade poderia gerar dependência tecnológica.

Quais seriam os possíveis benefícios dessa estratégia?

Defensores da pesquisa em geoengenharia solar argumentam que, em um contexto de aquecimento rápido, a injeção de aerossóis estratosféricos pode funcionar como um recurso emergencial para reduzir riscos extremos. Entre os benefícios teóricos discutidos na literatura científica aparecem principalmente os seguintes pontos:

  • Redução temporária da temperatura média global, o que ajuda a limitar ondas de calor intensas;
  • Atenuação de eventos climáticos extremos, como secas prolongadas e tempestades mais severas, dependendo da região;
  • Ganho de tempo para que políticas de descarbonização, restauração de ecossistemas e transição energética produzam efeitos duradouros.

Alguns estudos também sugerem que, se pesquisadores calibrarem a técnica com cuidado, a estratégia pode diminuir a taxa de derretimento de geleiras e mantos de gelo. Isso reduz a contribuição imediata para a elevação do nível do mar. Em cenários de emergência climática, determinados grupos de pesquisa tratam essa possibilidade como um "plano B" a ser analisado, e não como alternativa principal às medidas de redução de emissões. Ainda assim, vários cientistas reforçam que a solução não corrige problemas como acidificação dos oceanos.

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Quais são os riscos ambientais e éticos envolvidos?

Os mesmos elementos que tornam a geoengenharia solar atraente para parte da comunidade de inovação também alimentam preocupações significativas. Entre os riscos ambientais mais citados aparecem potenciais alterações nos regimes de chuva, com mudanças na distribuição de secas e enchentes entre continentes. Além disso, surgem possíveis impactos na camada de ozônio e na química da atmosfera. O comportamento de longo prazo das partículas na estratosfera ainda gera intenso debate científico.

Do ponto de vista ético e político, a discussão se mostra ampla. Um ponto sensível envolve a possibilidade de efeitos desiguais. Uma intervenção pensada para reduzir a temperatura média pode beneficiar determinadas regiões e, ao mesmo tempo, provocar impactos climáticos adversos em outras. Isso levanta perguntas sobre quem decide parâmetros como intensidade, duração e localização das intervenções. Ademais, países em desenvolvimento temem perder voz nesse processo.

Outra preocupação recorrente envolve o chamado "risco moral". A simples existência de um suposto recurso tecnológico capaz de resfriar a Terra pode diminuir o senso de urgência em relação ao corte de emissões. Além disso, pesquisadores temem a interrupção abrupta. Caso um programa de aerossóis estratosféricos comece e depois pare de maneira súbita, modelos indicam a possibilidade de um aquecimento rápido, concentrado em poucos anos. Esse "choque térmico" poderia pressionar ainda mais ecossistemas e sociedades humanas.

Em que estágio estão as startups e quais são as principais controvérsias científicas?

Até 2026, a maioria das startups de geoengenharia solar permanece em fases iniciais, com foco em pesquisa, testes limitados e captação de recursos. Algumas empresas já realizaram experimentos de pequena escala na atmosfera. Esses testes liberam volumes reduzidos de partículas para acompanhar dispersão e comportamento, mas ainda ficam longe da magnitude necessária para produzir um resfriamento mensurável do clima global. O investimento vem tanto de fundos de capital de risco quanto de filantropia voltada para clima. Em alguns casos, governos também financiam estudos básicos.

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No meio acadêmico, divisões claras surgem. Parte dos cientistas defende o avanço controlado dos estudos, pois entende que o melhor conhecimento da geoengenharia solar prepara o mundo para futuras emergências climáticas. Outro grupo considera arriscado ampliar esses testes antes de estabelecer regras globais claras e antes de esgotar medidas convencionais de mitigação. Entre essas medidas, aparecem a redução drástica de combustíveis fósseis, a proteção de florestas e o aumento da eficiência energética. Além disso, alguns especialistas apontam lacunas em modelos sobre impactos regionais.

Organismos internacionais discutem atualmente possíveis marcos de governança para regular pesquisas e eventuais aplicações, buscando evitar decisões unilaterais de governos ou empresas. Nesse contexto, conferências climáticas recentes iniciam debates sobre transparência, participação pública e mecanismos de responsabilidade. A tendência, por enquanto, aponta para um cenário em que a geoengenharia solar com aerossóis estratosféricos continua em investigação em escala limitada. Em paralelo, debates científicos, ambientais e diplomáticos acompanham de perto a questão e tentam definir até onde essa tecnologia deve avançar.

Alguns estudos também sugerem que, se pesquisadores calibrarem a técnica com cuidado, a estratégia pode diminuir a taxa de derretimento de geleiras e mantos de gelo – depositphotos.com / REDPIXEL
Foto: Giro 10
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