Como pesquisadoras do Paraná e da Fiocruz encontraram cocaína no sangue de tubarões no Caribe

Estudo mostra que ambiente não está tão preservado como parece; 85 animais de cinco espécies foram analisados e substâncias foram encontradas

12 mai 2026 - 20h11

Um estudo publicado na revista científica Environmental Pollution identificou pela primeira vez a presença de cocaína, cafeína e medicamentos como paracetamol e diclofenaco no sangue de tubarões nas Bahamas. A pesquisa foi conduzida por uma pesquisadora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e analisou 85 animais de cinco espécies diferentes.

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De acordo com as autoras do estudo, o achado não se limita à detecção das substâncias, já que também levanta alertas sobre alterações metabólicas nos animais e reforça a hipótese de que contaminantes químicos estão disseminados na cadeia alimentar - inclusive em regiões consideradas preservadas.

As coletas ocorreram na região de Eleuthera, nas Bahamas, onde vivem tubarões costeiros. O sangue dos animais foi retirado de forma não letal, processado em laboratório e analisado.

A bióloga e pesquisadora da Fiocruz Rachel Ann Hauser-Davis explicou ao Estadão que, na prática, o método separa as substâncias presentes no sangue e depois identifica cada uma por sua "assinatura química". O processo permite detectar quantidades muito pequenas de compostos no organismo dos animais. "Cada substância precisa aparecer no tempo certo na análise e ter massas específicas, como uma impressão digital química", disse.

O que foi encontrado nos tubarões

Entre os 85 tubarões analisados, os pesquisadores identificaram traços de cocaína, cafeína, paracetamol ou diclofenaco (um anti-inflamatório) em 28 deles. Os compostos aparecem em espécies como o tubarão-limão, o tubarão-lixa e o tubarão-de-recife-do-caribe. Em alguns casos, havia mais de uma substância no mesmo animal.

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Principal autora do estudo, a pesquisadora colaboradora da UFPR Natascha Wosnick afirma que o resultado mais impactante não foi apenas a lista de substâncias, mas o contexto em que elas surgem. "O que nos deixou mais surpresas é o fato de estar falando das Bahamas, um lugar visto como paradisíaco. Isso significa que aquele ambiente não está tão preservado como parece", diz.

Segundo ela, a presença desses compostos no topo da cadeia alimentar indica que o restante do ecossistema também está exposto. Para os pesquisadores envolvidos no trabalho, o estudo reforça que a poluição química marinha é subestimada justamente por não ser visível.

A ex-coordenadora do programa de pesquisa e conservação de tubarões do Cape Eleuthera Institute, nas Bahamas, reconhece ainda que esse tipo de contaminação exige métodos caros e complexos de detecção, o que reduz o monitoramento global. Segundo ela, isso faz com que o problema passe despercebido em comparação a outros tipos de poluição, como plástico ou óleo. "A poluição química não é vista. Você precisa de muito investimento para comprovar isso", destaca.

O que acontece dentro dos tubarões

O sangue dos animais foi retirado de forma não letal, processado em laboratório e analisado.
O sangue dos animais foi retirado de forma não letal, processado em laboratório e analisado.
Foto: IOC/Fiocruz/Divulgação / Estadão

Além de identificar as substâncias, o estudo avaliou marcadores fisiológicos como triglicerídeos, ureia e lactato, ou seja, indicadores do metabolismo dos animais. A comparação entre tubarões contaminados e não contaminados revelou alterações consistentes em processos ligados ao uso de energia.

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Wosnick explica, contudo, que ainda não é possível afirmar uma causa direta. "A gente não pode bater o martelo", diz. "Mas os animais com contaminantes apresentaram alterações metabólicas mais consistentes."

Segundo ela, isso pode indicar que a eficiência energética dos tubarões está sendo afetada. "A energia que eles tiram da comida pode não estar sendo usada da forma ideal para o metabolismo e atividades diárias", explica.

Efeitos na sobrevivência ainda são incertos

As pesquisadoras afirmam que ainda não é possível determinar impactos diretos na reprodução ou sobrevivência das espécies. Isso ocorre porque estudos desse tipo exigiriam experimentos invasivos, o que não é compatível com tubarões, animais já ameaçados de extinção. Wosnick lembra que a pressão sobre esses animais é alta. "São cerca de 100 milhões de tubarões mortos por ano pela pesca", afirma.

Por isso, os estudos são feitos com captura não letal, coleta de sangue e devolução dos animais ao ambiente.

O Brasil já viu esse fenômeno

O estudo, destacam as autoras, não é isolado. A mesma equipe já havia identificado concentrações ainda maiores de cocaína em 13 tubarões no litoral do Rio de Janeiro. "No Brasil, vimos concentrações muito mais altas de cocaína", diz Wosnick. A droga foi encontrada nos fígados e músculos dos animais.

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Segundo ela, isso indica que a contaminação não está restrita a áreas urbanizadas. A comparação entre os dois cenários, um altamente urbano e outro considerado remoto, reforça a ideia de que o problema é disseminado.

A pesquisadora da Fiocruz reforça essa interpretação. Para Rachel Ann Hauser-Davis, os dados apontam para um fenômeno mais amplo. "Estamos começando a ver uma impressão digital global da química humana no oceano", afirma. Segundo ela, essas substâncias chegam ao mar principalmente por:

- esgoto doméstico;

- descarte incorreto de medicamentos;

- turismo em áreas costeiras;

- excreção humana.

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Segundo os pesquisadores, muitos desses contaminantes chegam ao mar porque não são completamente eliminados pelos sistemas de tratamento de água.

A engenheira ambiental e doutora pela Universidade da Flórida Tracy Fanara, que não participou da pesquisa, destacou em entrevista ao Estadão que o ponto mais importante não é apenas a presença das substâncias, mas os efeitos metabólicos observados. "Se os tubarões estão redirecionando energia para desintoxicação ou estresse, isso pode afetar o crescimento, a reprodução e a resiliência", afirma.

Ela também ressalta que os dados indicam exposição contínua. "Isso indica a presença ativa de efluentes no ambiente", diz a ex-colaboradora da Agência de Atmosfera e Oceanos dos EUA (NOAA).

Risco para humanos ainda é incerto

Os pesquisadores não identificam risco direto à saúde humana neste momento, mas apontam para a possibilidade de bioacumulação ao longo da cadeia alimentar. No Brasil, a carne de tubarão — vendida como "cação" — já faz parte da alimentação em algumas regiões. Wosnick reforça que, embora os níveis sejam baixos, o tema exige atenção. "A gente come carne com mercúrio o tempo inteiro", compara.

Para os cientistas, a mitigação total da poluição química nos oceanos é extremamente difícil. Wosnick afirma que o problema depende principalmente de políticas públicas. "São necessárias ações em saneamento, educação ambiental e controle de despejo", diz.

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Ela também faz um alerta mais amplo sobre os impactos. "O colapso dos oceanos vai, de forma inevitável, atingir os seres humanos."

O estudo

Publicado em março de 2026, o estudo reforça que a interferência humana no oceano não é apenas visível — ela também é química, contínua e com sinais de alcance global. A presença de substâncias humanas no sangue de tubarões mostra que mesmo ecossistemas distantes já estão conectados às atividades terrestres.

Apesar dos achados, o estudo ainda tem limitações. Segundo a pesquisadora da Fiocruz Rachel Ann Hauser-Davis, não é possível comprovar causa e efeito nem prever impactos a longo prazo. Além disso, a análise foi feita apenas no sangue, o que indica exposição recente, com uma amostra limitada. Como próximos passos, a pesquisa deve avançar para a análise de outros tecidos, ampliar os testes experimentais, monitorar os níveis ao longo do tempo e comparar diferentes regiões.

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