Mais de 90% dos brasileiros consideram importante preservar a Amazônia e quase a mesma proporção associa essa preservação ao enfrentamento do aquecimento global. A preocupação não é abstrata; ela se apoia em evidências científicas cada vez mais robustas. Por exemplo, entre 1985 e 2020, a estação seca amazônica ficou mais quente e mais seca. As chuvas diminuíram e as temperaturas máximas subiram. Parte significativa dessas mudanças está associada ao desmatamento. A alteração no regime de chuvas afeta a vida das populações que historicamente dependem do equilíbrio entre rios, solo e vegetação.
Diante de um território de mais de 5 milhões de quilômetros quadrados, que se estende por vários países, soluções globais são necessárias, mas são muito difíceis. A complexidade ecológica e social da Amazônia exige respostas que considerem realidades muito diferentes. Por isso, a estratégia que tem ganhado força é começar pelo local. Este é o caso de um projeto desenvolvido em comunidades do estuário do rio Amazonas, no município de Gurupá (PA). A área corresponde a uma fração minúscula da Amazônia Legal (cerca de 0,01% do território), mas ali existem desafios e oportunidades que ajudam a pensar no futuro da região.
Viver entre rios e sem rede elétrica
Gurupá está mais próxima de Macapá, no Amapá, do que de Belém, capital do Pará. No estuário, as casas se espalham às margens de rios, furos e igarapés. Muitas ficam isoladas, cercadas por mata frequentemente alagada. Por isso, percursos inferiores a um quilômetro quase sempre são feitos de barco.
O extrativismo sustenta a economia local. O açaí é protagonista como alimento, fonte de renda e elemento cultural. Sua produção é altamente sensível às flutuações climáticas.
Porém, a infraestrutura de trabalho na região é limitada. Não há rede pública de energia elétrica nas comunidades estudadas. Durante anos, as alternativas foram os geradores a diesel — caros, barulhentos e dependentes do transporte fluvial de combustível.
Nos últimos anos, sistemas fotovoltaicos começaram a mudar esse cenário. A energia solar reduziu custos, ampliou o acesso à eletricidade e diminuiu a dependência do diesel. Ainda assim, a ausência de infraestrutura impacta a economia, pois muitos produtos são vendidos in natura, o que significa baixo valor agregado e menor renda.
Foi nesse contexto que pesquisadores da Universidade Federal do Amapá (Unifap) e da Embrapa Amapá firmaram uma parceria com a Associação de Trabalhadores Agroextrativistas da Ilha das Cinzas (ATAIC), com apoio da Fundação Honnold. A equipe implantou um sistema fotovoltaico capaz de atender tanto às demandas domésticas quanto à operação de equipamentos mais robustos, como motores trifásicos usados para processar o açaí.
Esta iniciativa e colaborações anteriores dos mesmos parceiros transformaram a Ilha das Cinzas em um laboratório de tecnologias ambientais. Porém, uma pergunta permaneceu: seria possível dar um passo além, ampliando o impacto econômico com benefícios ambientais adicionais?
Do resíduo ao combustível
A busca por uma resposta deu origem a um novo projeto, aprovado na primeira chamada da iniciativa Amazônia+10, coordenada pelo Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap). A chamada financia soluções científicas colaborativas voltadas a desafios estratégicos da região amazônica.
O projeto iniciou em meados de 2023 e reúne pesquisadores do Amapá, do Rio de Janeiro e de São Paulo, com apoio das agências de fomento desses estados (FAPEAP, FAPERJ e FAPESP). O objetivo central é implantar um sistema de produção de gás combustível a partir de biomassa local e integrá-lo à rede fotovoltaica já existente na Ilha das Cinzas. A matéria-prima já está ali: pedaços de madeira resultantes do manejo florestal — necessário para o cultivo do açaí —, caroços do próprio açaí e resíduos de outras frutas.
Quando descartados no ambiente, esses resíduos se decompõem e liberam gases de efeito estufa como dióxido de carbono (CO₂) e metano. O metano é muito mais agressivo que o CO₂ neste sentido. Porém, ao se converter a biomassa em gás combustível e utilizá-lo em motores ou fogões industriais, a emissão direta de metano é evitada. Em seu lugar, ocorre a liberação de CO₂, com menor impacto climático. O benefício é duplo: geração de energia para a comunidade e redução líquida das emissões de gases de efeito estufa.
Desafios tecnológicos
A ideia parece simples, mas a implementação é complexa. Diferentemente de um motor convencional, que opera com combustível de composição química bem definida, um sistema de gaseificação de biomassa precisa lidar com materiais variados e com alta umidade, característica previsível em plena Amazônia.
Resíduos de madeira precisam ser cortados em pedaços menores. Se estiverem úmidos, devem passar por secagem. Outros resíduos exigem compactação prévia, por meio de briquetadeiras, para aumentar sua eficiência energética. A integração entre o sistema de produção de gás e a rede fotovoltaica também demanda ajustes técnicos sofisticados.
Parte dessas soluções vem sendo desenvolvida pela empresa Seahorse Energy, do Rio de Janeiro, cujo diretor técnico integra a equipe do projeto, e por um grupo de pesquisadores da Engenharia Elétrica da Unifap. Paralelamente, pesquisadores da USP e da Embrapa Amapá realizam a quantificação da biomassa disponível e o levantamento das emissões de carbono associadas. Esse monitoramento é essencial para garantir que o novo sistema realmente reduza o impacto ambiental das atividades econômicas locais.
Em 2026, um mapeamento detalhado da vegetação e dos sistemas produtivos da Ilha das Cinzas deverá ser iniciado pela equipe da UFF com o uso de drones, ampliando a base de dados para avaliação ambiental.
Educação como estratégia de futuro
No entanto, a proposta vinculada à chamada Amazônia+10 não se limitou à energia. Ela também inclui ações de educação científica e ambiental em comunidades do estuário. A razão é simples: uma economia baseada no extrativismo de poucas espécies é pouco diversificada e vulnerável a oscilações de mercado. Agregar valor ajuda, mas não resolve tudo.
A experiência internacional mostra que a diversificação econômica passa, inevitavelmente, pela educação. Em comunidades isoladas, isso assume uma dimensão adicional: nem todos os moradores desejam ou conseguem se dedicar às atividades tradicionais. A escola pode ampliar horizontes mantendo a harmonia com a cultura local, e o interesse das equipes escolares em estreitar laços com as universidades foi imediato. Uma parceria de longo prazo, contudo, dependerá de investimentos adicionais.
Água, ciência e confiança
Outra frente de atuação surgiu a cerca de 10 quilômetros da Ilha das Cinzas, na comunidade do Rio Barbosa. Ali, o desafio é a qualidade da água consumida. O rio é a principal fonte de abastecimento, mas sua água tem alta turbidez e alta concentração de matéria orgânica, o que dificulta o tratamento seguro.
Com apoio da associação local (ASPRORIOS), um pesquisador da equipe e um mestrando estão ensinando métodos seguros de tratamento doméstico da água para residentes daquela comunidade. É uma solução de baixo custo, mas potencialmente transformadora para a saúde coletiva.
O que aprendemos com 0,01% da Amazônia
Experiências como essa mostram que enfrentar a crise climática e promover desenvolvimento na Amazônia é possível com projetos territorializados, construídos em parceria com associações locais e atentos às especificidades de cada comunidade.
O compromisso institucional das universidades e agências de fomento é fundamental, mas não suficiente. Trabalhar com comunidades ribeirinhas exige adaptação a um ambiente muito diferente dos laboratórios de pesquisa. Nossos pesquisadores têm dado conta deste desafio.
Ademais, se a Ilha das Cinzas se tornou um laboratório de tecnologias ambientais, isto não ocorreu apenas por causa de painéis solares ou gaseificadores de biomassa. Um elemento decisivo foi a receptividade dos moradores, que abriram suas casas, compartilharam conhecimentos e aceitaram testar soluções desenvolvidas fora da região.
Em um momento em que o mundo observa a Amazônia com preocupação, iniciativas locais mostram que é possível alinhar conservação ambiental, inovação tecnológica, geração de renda, educação e saúde. Pode parecer pouco diante da dimensão do desafio. Porém, é possível que em 0,01% do território comecem as transformações capazes de inspirar um percentual muito maior. Outros 38 projetos aprovados na mesma chamada Amazônia+10 também estão fazendo a diferença para a região.
Fábio David Alves Aarão Reis recebe financiamento da FAPERJ, do CNPq e da CAPES. No estado do Rio de Janeiro, coordena o projeto da chamada Amazônia+10 apresentado no artigo.