Do leite à borracha: como extrativistas transformam seringa em produtos sustentáveis na Amazônia

Morador da Reserva Cazumbá, no interior do Acre, explica como funciona produção manual de bichinhos de borracha

28 fev 2026 - 04h58
Seu Jilberto Maia molda os bichinhos de borracha com látex
Seu Jilberto Maia molda os bichinhos de borracha com látex
Foto: Adrielle Farias/Terra

Da colheita do leite da seringueira à moldagem manual, o processo de criação de bichinhos de borracha é um ofício de vida de Jilberto Miranda Maia, 62 anos. O processo existe há mais de 15 anos e é feito todo por ele. "Esse trabalho que eu faço foi onde eu encontrei a melhor maneira de ter mais respeito pela natureza", diz em entrevista ao Terra.

  • Esta matéria foi produzida com o apoio da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) em parceria com o Instituto Talanoa

Morador da Reserva Extrativista do Cazumbá-Iracema, no interior do Acre, ele é um dos que ajudam a manter a floresta em pé no território federal criado em 2002, graças à luta de Chico Mendes (1944-1988). O extrativismo consiste em retirar da natureza apenas o que é necessário para sobreviver, sem agredir o meio ambiente, o que leva a Resex Cazumbá, como é chamada, a ter 98,7% de floresta preservada.

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Os bichinhos de seu Jilberto são famosos na região. Capivara, onça e jacaré estão entre os animais que ganham formas nas mãos do seringueiro. "Eu pego o leite da seringa e vou fazendo a montagem. Faço só o corpo. Depois a cabeça, os pés, as mãos, as orelhas... Aí coloco no sol porque tem bastante umidade e precisa secar. Depois de dez dias, dou várias camadas de leite novamente e levo na fumaça para coagular", acrescenta.

Leite extraído da seringueira torna-se borracha
Foto: Adrielle Farias/Terra

O processo artesanal de seu Jilberto é a prova de que produtos sustentáveis podem ser feitos e vendidos sem agredir a natureza. Afinal, essa é a grande magia do extrativismo. "Depois que eu defumo, começo a fazer a marcação dos olhos, dos ouvidos e da boca", complementa.

O calendário de Jilberto é ditado pelo clima amazônico. Moradores da Resex Cazumbá relataram ao Terra que as mudanças climáticas têm afetado a forma como o leite sai da seringa. Em um período mais quente e mais seco, o leite se torna fraco e de difícil retirada. Além disso, o calor extremo obriga os seringueiros a levantarem entre 1h e 2h da manhã, para não sofrerem tanto quando estiverem dentro das matas.

No inverno, a produção também se torna mais complicada. "Têm dias que a gente vai fazer a coleta, daí a chuva toma o leite. Praticamente na época do inverno eu não trabalho, fico mais concentrado entre junho e novembro. É muito melhor o leite no inverno do que no verão, mas a questão das chuvas faz com que a gente não consiga extrair o leite da seringa". 

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O artesanato corresponde a 90% da renda do extrativista. Por mês, ele consegue produzir de 70 a 80 peças, nos períodos em que dá para extrair bastante leite das seringueiras. Esse montante é justificado pela produção ser manual e, algumas peças, exigem mais trabalhos do que outras. "Eu levo duas horas para pintar uma onça", afirma.

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O látex extraído da seringa pelos moradores da Cazumbá também é vendido para uma empresa franco-brasileira, a VEJA. Procurada, a marca diz que usa borracha nativa da Amazônia nas solas de todos os seus calçados e que atua há mais de 20 anos em parceria com famílias extrativistas do Norte do Brasil. 

"Comprar a borracha diretamente das famílias produtoras, sem atravessadores, nos permite pagar mais pela matéria-prima. Desde 2004, compramos mais de 3,5 mil toneladas de borracha e continuamos fortalecendo nosso relacionamento com os territórios onde atuamos", declara a empresa em nota ao Terra.

A relação entre o extrativista e a natureza é um laço formado desde o nascimento. Por isso, o cuidado com a floresta ao redor faz parte do cotidiano dessas comunidades. "Eu não consigo morar fora da floresta. Se eu pudesse, todos os dias eu estava n omeio da floresta. Eu amo a natureza. Se eu ficar dois dias na cidade, eu não consigo, preciso vir embora o mais rápido possível. Aqui é tranquilidade, a gente respeita muito melhor", ressalta o seringueiro.

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Dona Francisca Maia cria folhas de borracha inspiradas na Amazônia
Foto: Adrielle Farias/Terra

Entre outras formas de renda dos extrativistas estão a colheita e venda de castanhas, a pesca e a plantação de subsistência. No caso de seu Jilberto, todas essas atividades são realizadas por ele e pela esposa, Francisca Moura Maia.

A extrativista também desenvolveu sua própria forma de artesanato. Observando o molde das folhas que rodeiam a Resex Cazumbá, dona Francisca cria folhas em látex de diferentes formatos e tamanhos. O item é feito com leite da seringa e moldado de acordo com o formato. Cacau, abiu, capeba, algodoeiro, apuí e pimenta longa estão entre as folhas usadas de molde para ela aplicar as camadas de látex até que vire borracha. 

As folhas de borracha podem ser usadas para decoração ou como um acessório na cozinha, por exemplo. Mas o trabalho dela também é afetado pelo inverno e pelo verão amazônico. "Eu só trabalho no verão. Cada folha leva cerca de um dia para ficar pronta, então dá pra fazer umas 40 por dia. Você mistura o leite com o pó de serra para engrossar e formar uma massa, e aí você usa um pincelzinho pra ir passando no molde", explica dona Francisca, que trabalha com artesanato há 10 anos. 

Em relação à mudança do clima, ela concorda com o marido. "Você planta o milho, por exemplo, aí chega o verão e ele fica feio. Não era pra ser assim. Além disso, mesmo com as árvores, ainda é muito quente. A gente procura ficar perto delas, não tem como ficar dentro de casa porque é muito calor. Agora está bem mais difícil", destaca. 

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Fonte: Portal Terra
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