Menos de um ano após o título da Série C, a Ponte Preta vive grave crise financeira e esportiva. Com seis meses de salários atrasados, o elenco entrou em greve e o técnico Márcio Zanardi pediu demissão. Lanterna da Série B e punida pela FIFA, a Macaca sofreu debandada de atletas e viu a criação da SAF travar na Justiça. Sem acordo com os profissionais, o clube corre risco iminente de sofrer W.O. no próximo confronto contra o América-MG se não conseguir levar atletas da base a campo.
A Ponte Preta atravessa um dos capítulos mais sombrios de sua trajetória centenária. Menos de um ano depois de levantar a taça da Série C do Campeonato Brasileiro, o clube de Campinas se encontra asfixiado por dívidas milionárias e uma gestão paralisada. O cenário de terra arrasada culminou, nesta quarta-feira, em uma greve geral dos jogadores profissionais, escancarando uma crise estrutural que já transborda das finanças para os gramados e ameaça a própria continuidade do time na temporada.
Sentimento de abandono e paralisação
O estopim para a interrupção das atividades foi o esgotamento do prazo dado pelo elenco à diretoria para a regularização dos vencimentos. Na manhã da última quarta-feira, os atletas compareceram ao Centro de Treinamento do Jardim Eulina apenas para formalizar a paralisação, amparados pelo artigo 90 da Lei Geral do Esporte.
Com aproximados seis meses de salários e direitos de imagem atrasados, os profissionais se recusaram a treinar e deixaram o local logo em seguida.
A indignação do grupo foi externada por meio de um comunicado oficial contundente, no qual os jogadores apontaram a ausência de diálogo e o descaso da alta cúpula pontepretana. Nas palavras dos próprios atletas, a situação se tornou insustentável:
"Há ainda uma nuvem de incertezas que pairam sobre nós, é que a diretoria atual abandonou o dia a dia do clube e, além dos atrasos salariais, estamos sem qualquer satisfação ou garantia. Nosso sentimento é de abandono!"
Mudança de comando no meio da tempestade
A turbulência nos bastidores provocou uma reação em cadeia no departamento de futebol. Diante do agravamento do caos financeiro e da greve instaurada, o técnico Márcio Zanardi pediu demissão.
O treinador encerrou uma passagem relâmpago e desastrosa de apenas 12 jogos, registrando um aproveitamento de 5,5%, sem nenhuma vitória conquistada.
Ao anunciar sua saída, Zanardi justificou a decisão pela quebra das expectativas em relação ao suporte estrutural prometido. Segundo o ex-comandante:
"Topei, de forma muito honrada, o desafio de assumir esse grande clube sabendo do momento delicado pelo qual a instituição atravessa e com expectativas de que pudéssemos encontrar soluções dentro e fora de campo. No entanto, o agravamento da situação financeira comprometeu o desenvolvimento do trabalho."
Para tentar apagar o incêndio, a diretoria recorreu a uma velha solução caseira e encaminha o acerto com Gilson Kleina, que caminha para sua sexta passagem à beira do gramado do Moisés Lucarelli.
Humilhação em campo e solidariedade rival
A ruína administrativa se reflete diretamente nas quatro linhas. A Macaca amarga a lanterna da Série B, com apenas 10 pontos conquistados em 24 rodadas. O jejum de vitórias já dura 18 partidas, enquanto a distância para a saída da zona de rebaixamento chegou a 19 pontos, tornando a permanência cada vez mais difícil.
No início do ano, o roteiro trágico já havia dado as caras com o rebaixamento no Campeonato Paulista, onde a equipe somou apenas um ponto em toda a primeira fase.
A fragilidade do time atingiu seu ápice na recente goleada por 6 a 0 diante do Vila Nova. O abalo no elenco paulista ficou tão evidente que até mesmo os adversários demonstraram empatia diante da situação.
O zagueiro Tiago Pagnussat, da equipe goiana, resumiu o sentimento de quem acompanhou o vexame de perto:
"A verdade também é que a gente fica até um pouco constrangido pelo adversário e se solidariza. É triste ver a situação desses profissionais, que têm famílias, filhos, pais, os funcionários sofrendo."
Ameaça de W.O. e futuro incerto
O colapso também envolve o desmanche do elenco. Nomes de peso, como o atacante William Pottker e o zagueiro David Braz, já haviam rescindido seus contratos recentemente por conta da inadimplência.
Além disso, a Ponte Preta está impedida de registrar novos atletas devido a duas punições esportivas aplicadas pela FIFA. A esperança de transformação do clube em Sociedade Anônima do Futebol (SAF) também esbarrou na burocracia e acabou travada na Justiça no início da semana.
Com o elenco profissional de braços cruzados, a Macaca flerta com um desastre ainda maior. Caso não haja acordo nas próximas horas, a diretoria precisará acionar emergencialmente jogadores das categorias de base para viajar a Belo Horizonte, onde o time tem compromisso marcado contra o América-MG no domingo.
Se não conseguir reunir atletas suficientes para entrar em campo, o clube poderá sofrer um W.O., escrevendo mais uma página melancólica em uma das maiores crises de sua história esportiva.
Há menos de um ano, a Ponte Preta celebrava um título nacional e projetava a reconstrução de sua trajetória. Agora, vive o extremo oposto: salários atrasados, jogadores em greve, treinador demissionário, elenco desmontado, punições esportivas e o risco de sequer conseguir disputar a próxima partida.
O abismo que se abriu em Campinas não surgiu de uma hora para outra. Mas a velocidade com que a crise atingiu o futebol profissional transformou uma temporada difícil em uma situação que ameaça deixar marcas profundas na história da Macaca.
Publicado originalmente na Woo! Magazine.