São Paulo costuma ser lembrada pelos arranha-céus, pela indústria e pela diversidade cultural. Mas há uma camada mais antiga da sua história que permanece pouco visível. Antes da metrópole, existia Piratininga. Antes de o português dominar as ruas, línguas indígenas marcavam o território. Entre elas, o guarani.
Essa presença não pertence apenas ao passado. Ela continua viva na fala de comunidades indígenas, nos nomes dos bairros e nas formas de compreender a relação entre o ser humano e a natureza. E nas próprias palavras da sociedade não indígena como capinar, pipocar, cutucar, pindaíba, capoeira e jururu, entre outras.
A força dessa língua pode ser percebida no próprio mapa da capital paulista. Ibirapuera, Pacaembu, Morumbi, Itaquera, Jaraguá e Anhangabaú são apenas alguns exemplos de lugares que preservam nomes de origem indígena. Muitos deles carregam descrições do ambiente, da paisagem ou de elementos naturais observados pelos povos que habitavam a região muito antes da colonização. O estudo A língua guarani (ainda) viva no Brasil mostra que boa parte da toponímia paulistana tem origem na família linguística tupi-guarani.
Mas a importância do guarani não se limita aos nomes dos lugares. Durante parte do período colonial, uma variante conhecida como Língua Geral Paulista foi amplamente utilizada na região que hoje corresponde ao estado de São Paulo. O português ainda não era dominante. A comunicação entre diferentes grupos acontecia, muitas vezes, por meio de línguas de origem tupi. Somente mais tarde, políticas coloniais favoreceram a substituição gradual desses idiomas pelo português.
Campanha de reconhecimento
Apesar desse processo, a língua sobreviveu. Atualmente, comunidades Guarani Mbya e Ñandeva mantêm aldeias em diferentes regiões paulistas, incluindo a Terra Indígena Jaraguá, TI Tenondé Porã e TI Krukutu, na capital, e territórios no litoral e no Vale do Ribeira. Nessas comunidades, a língua continua ligada à educação, às cerimônias, às narrativas tradicionais e à transmissão de conhecimentos entre gerações.
A sobrevivência do guarani possui valor cultural, mas também educativo e ambiental. Muitos pesquisadores destacam que as línguas indígenas guardam conhecimentos construídos ao longo de séculos de observação da natureza. Os nomes atribuídos a rios, plantas, animais e paisagens revelam formas próprias de compreender o ambiente. O próprio artigo "A língua guarani (ainda) viva no Brasil: a cultura originária que a colonização não conseguiu eliminar" mostra como diversos topônimos paulistas preservam referências à água, à fauna e à vegetação.
Hoje, lideranças indígenas, pesquisadores e instituições culturais defendem o reconhecimento da língua guarani como patrimônio cultural imaterial do Estado de São Paulo. A proposta busca proteger um dos mais importantes legados da história paulista.
A relação entre língua e território é um dos argumentos mais fortes para o reconhecimento patrimonial. Cada nome preserva uma memória coletiva. Quando alguém atravessa o Parque Ibirapuera ou segue para Itaquera, está usando palavras que atravessaram séculos de história. Esse patrimônio, porém, enfrenta desafios.
Segundo informações divulgadas por instituições envolvidas na campanha de reconhecimento, a língua convive com problemas como preconceito linguístico, dificuldades na produção de materiais didáticos e pressões que afetam os territórios indígenas. Organizações ligadas à preservação cultural também alertam para a necessidade de ampliar políticas de salvaguarda e revitalização linguística.
Foi nesse contexto que ganhou força uma mobilização que reúne lideranças indígenas, universidades, museus e órgãos de patrimônio. O movimento é coordenado principalmente pelo Museu das Culturas Indígenas e por organizações Guarani. A proposta busca registrar oficialmente a língua guarani como patrimônio cultural imaterial paulista.
É importante ressaltar que memória constitui um campo de disputas sociais e políticas. O reconhecimento de um patrimônio imaterial significa também reconhecer determinados sujeitos como produtores legítimos de cultura. Muitas manifestações indígenas, afro-brasileiras, camponesas ou periféricas permaneceram durante séculos excluídas, silenciadas e invisibilizadas na sociedade brasileira. Atualmente, suas memórias continuam sendo desvalorizadas por alguns setores.
Memória viva
Assim, o patrimônio imaterial pode funcionar como instrumento de fortalecimento das identidades coletivas; de reconhecimento de grupos historicamente marginalizados; de resistência cultural; de transmissão intergeracional de conhecimentos; e de preservação da diversidade cultural. Uma característica fundamental de uma língua como patrimônio imaterial é que ela não pode ser reduzido ao registro documental. Ele permanece vivo porque continua sendo praticado pelas comunidades. É, portanto, como memória viva que o guarani chega até nós.
A iniciativa dialoga com a Década Internacional das Línguas Indígenas, promovida pelas Nações Unidas, que chama atenção para a necessidade de valorizar e proteger idiomas originários. Também se conecta ao princípio de que os povos indígenas devem participar diretamente das decisões que afetam seus direitos culturais e linguísticos.
Reconhecer a língua guarani como patrimônio imaterial significa admitir que ela faz parte da própria identidade de São Paulo. Não se trata apenas de proteger um idioma. Trata-se de reconhecer o fio da memória que permaneceu viva apesar da colonização, da expulsão de comunidades indígenas e de séculos de invisibilidade.
São Paulo e outros estados continuam falando guarani, mesmo quando não percebem isso diretamente, já que poucos currículos escolares apresentam o rico léxico guarani dentro da língua portuguesa, ou estimulam estudantes a pesquisarem esse vocabulário, por exemplo. A língua está nos nomes dos locais nos mapas, nas aldeias, na história e na cultura do estado. Transformá-la em patrimônio imaterial representa, portanto, mais do que um ato simbólico.
É um passo concreto na disputa contra o esquecimento já que a memória não é apenas um mecanismo de preservação do passado; ela é um processo social que seleciona, interpreta e atualiza aquilo que um grupo considera significativo. Nesse sentido, o reconhecimento do guarani como patrimônio imaterial é um marco de preservação dos povos, de seus conhecimentos, direitos culturais e valorização dos povos que mantiveram viva uma das mais antigas vozes deste território.
Mario Ramão recebeu o nome Karai Ju do povo Guarani, do qual faz parte. Ele é integrante da Coordenação do GT SUL da Década Internacional das Línguas Indígenas (Brasil) e coordena o projeto de pesquisa/extensão Educomunicación e Cultura Guarani.
É membro da Cátedra Sérgio Vieira de Melo da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA).