Após falhar em derrubar regime, Trump passa a acusar curdos de receberem armas americanas e não as destinarem para opositores iranianos. Curdos negam e analistas dizem que presidente tenta esconder seu próprio fracasso.O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, gerou controvérsia no Oriente Médio ao acusar grupos curdos na região de reter armas destinadas a manifestantes de oposição no Irã.
No início de março, no começo da guerra entre EUA e Israel contra o Irã, Trump disse que seria "maravilhoso" se as forças curdas iranianas, baseadas do outro lado da fronteira, no Iraque, lançassem ataques contra o regime islâmico em Teerã.
No mês seguinte, Trump disse à emissora conservadora americana Fox News que Washington tentou enviar armas para manifestantes dentro do Irã por meio de intermediários curdos. "Enviamos armas para os manifestantes, muitas", disse Trump. "E acho que os curdos ficaram com as armas."
Em maio, ele disse estar "muito decepcionado com os curdos", acrescentando que os EUA haviam enviado "algumas armas com munição, que deveriam ter sido entregues, mas eles as retiveram".
Em conversas com a DW sob condição de anonimato, fontes de várias facções curdas no Iraque, Turquia e Síria negaram categoricamente ter recebido quaisquer armas dos EUA.
Curdos iranianos negam reter armas americanas
No Irã, organizações curdas, incluindo o Partido da Vida Livre do Curdistão (PJAK), um grupo militante armado, rejeitaram de forma semelhante a narrativa da Casa Branca. As lideranças desses grupos consideram as declarações de Trump logisticamente impossíveis e politicamente prejudiciais.
Fariba Mohammadi, vice-secretária-geral do Partido Komala do Curdistão iraniano, descreveu essas alegações como "guerra psicológica".
Ela afirmou que tais armas nunca chegaram aos partidos ou forças políticas curdas, e enfatizou que o ressurgimento dessas alegações é melhor analisado dentro da estrutura da pressão política nas equações regionais, em vez da realidade no terreno.
Adib Vatandoust, membro do Comitê Central do Komala (Partido Comunista do Irã), também afirmou que sua organização não recebeu "uma única bala, nem mesmo um insignificante centavo".
Ele caracterizou a suposta operação americana como um projeto que serve às agendas dos EUA e de Israel, em vez dos genuínos interesses democráticos do povo curdo.
Mustafa Mouloudi, secretário-geral adjunto do Partido Democrático do Curdistão Iraniano (KDPI), destacou que, do ponto de vista logístico, as acusações são inviáveis.
Ele explicou que as fronteiras fortemente militarizadas, a presença onipresente das forças de segurança iranianas e os rigorosos acordos de segurança recentemente firmados entre Teerã e Bagdá tornam essas transferências de armas transfronteiriças praticamente impossíveis.
Quem são os curdos?
Especialistas argumentam que a retórica de Trump expõe sua profunda falta de compreensão da sociedade política curda. O presidente dos EUA se refere aos "curdos" como se fossem uma única força unificada, aguardando ordens de Washington.
Na realidade, a população curda de mais de 30 milhões de pessoas está espalhada por diversos países, principalmente Irã, Iraque, Turquia e Síria.
Cada país tem seu próprio cenário político complexo, com diversos partidos ideológicos que variam da esquerda ao conservadorismo, e dinâmicas regionais singulares.
Dr. Kamran Matin, professor associado de Relações Internacionais da Universidade de Sussex, destacou o perigo dessa ignorância.
"Trump tem uma compreensão muito limitada tanto da sociedade quanto da política curda. Ao culpar os curdos coletivamente, enquanto negligencia a multiplicidade de atores, partidos e regiões curdas, ele redireciona e inflama a opinião pública anti-guerra e anti-americana contra os curdos, o que pode levar a ataques perigosos contra eles", disse Matin à DW.
Por que Trump tem feito essas acusações agora?
Os especialistas entrevistados pela DW afirmam que as declarações controversas do presidente americano sobre a entrega de armas são um caso clássico de tentativa de distração política.
Kamal Chomani, editor-chefe do The Amargi Outlet, uma publicação focada no Oriente Médio, traça um paralelo com o "bezerro de ouro"- uma passagem da Bíblia que trata de falhas de liderança e transferência de culpa.
Chomani argumenta que Trump, fortemente influenciado pelo primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, partiu do pressuposto equivocado e excessivamente otimista de que o regime iraniano estava à beira de um colapso iminente. Quando esse colapso não se materializou, Trump precisou de um bode expiatório.
"Para encobrir esse fracasso, Trump usa os curdos como um 'bezerro de ouro'", explicou Chomani.
"Nenhuma arma foi enviada aos curdos para ser transferida aos iranianos dentro do país. Como vimos, até mesmo a entrega da internet via satélite Starlink enfrentou sérias dificuldades, quanto mais o envio de armas", acrescentou.
"Trump tenta justificar o fracasso da sua guerra contra o Irã em alcançar qualquer um de seus principais objetivos culpando os curdos", corroborou Matin.
O presidente dos EUA também "tenta culpar os curdos por seu fracasso em cumprir a promessa feita aos manifestantes de oposição no Irã de que viria em seu auxílio quando eles estivessem sendo massacrados pelo regime iraniano", acrescentou.