Às vésperas das eleições legislativas, Donald Trump provocou polêmica ao usar verba pública em anúncios de TV para autopromoção, prática proibida por lei. Sob fortes críticas, ele anunciou que os comerciais passarão a ser pagos com doações privadas. Enfrentando baixa popularidade e o risco de perder o controle do Congresso, o presidente tenta mobilizar eleitores com promessas atípicas, como pagar 5 mil dólares a cada cidadão caso os republicanos vençam o pleito de novembro.
Presidente já prometeu 5 mil dólares a cada eleitor e é acusado de usar comerciais do governo para fazer propaganda eleitoral, prática proibida por lei. EUA escolherão novo Congresso em novembro.Parecia até fake news, mas era verdade. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que uma série de comerciais de TV, exibidos desde setembro na televisão americana e que exaltam os feitos de seu governo, deixará de ser financiada com dinheiro dos contribuintes.
"A esquerda radical está indignada porque estou pagando comerciais que considero uma propaganda positiva para os nossos grandiosos Estados Unidos com recursos públicos", escreveu Trump em sua rede social, a Truth Social.
Apesar de o financiamento desse tipo de anúncio pelo governo dos EUA ser, segundo ele, "basicamente o padrão", os comerciais passarão a ser pagos com doações feitas por seus apoiadores, anunciou.
Os anúncios provocaram uma forte controvérsia nos Estados Unidos. Eles começaram a ser exibidos em setembro durante programas populares, como o Saturday Night Live, e transmissões de jogos de futebol americano, trazendo a inscrição "Financiado pelo governo dos Estados Unidos", ou seja, com dinheiro de impostos.
As peças mostravam, por exemplo, a prisão de Nicolás Maduro por tropas americanas. Sobretudo, porém, exibiam fotos e vídeos de Trump acompanhados de declarações de combate, nas quais ele afirmava que expulsaria os "belicistas" e a "classe política doente" da administração pública dos EUA e impediria que o país se transformasse num Estado comunista.
Dinheiro público para autopromoção
Os anúncios foram duramente criticados por adversários políticos e organizações não governamentais porque propaganda eleitoral às custas dos contribuintes é proibida nos Estados Unidos, e os comerciais foram veiculados pouco antes das midterms, as importantes eleições de meio de mandato do país.
No pleito, estarão em disputa todos os 435 assentos na Câmara dos Representantes (equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil) e 35 das 100 cadeiras do Senado. Ou seja, estará em jogo o controle do Congresso, que hoje é dominado pelos republicanos de Trump.
Segundo a emissora CBS, o Departamento de Segurança Interna dos EUA teria pago 20 milhões de dólares a uma agência por uma campanha nacional de mídia.
O "padrão" mencionado por Trump aplica-se aos chamados public service announcements, anúncios televisivos destinados, por exemplo, a informar a população sobre programas sociais do governo. Contudo, os vídeos exibidos não se encaixam nessa categoria, como observou a ONG Public Citizen, que defende o direito dos consumidores.
"A lei proíbe explicitamente o uso de recursos públicos para propaganda do governo, autopromoção ou publicidade política em favor de um partido", afirmou a organização. "Mas os comerciais de Trump são exatamente dessa natureza."
Especialistas também veem os anúncios de forma crítica. Patrick Malone, professor de políticas públicas na American University, diz que a exibição dos vídeos neste momento é particularmente problemática.
"Não se deve usar dinheiro público para coisas relacionadas a campanhas eleitorais. Estritamente, Trump não está fazendo campanha, ele não diz 'vote em mim!'", observa Malone. "Mas o complicador aqui é o momento em que isso ocorre, a poucas semanas antes das eleições de meio de mandato, isso é realmente um grande problema."
Temor antes das eleições de meio de mandato
No dia 3 de novembro, os eleitores americanos votarão para renovar todos os assentos da Câmara dos Representantes e cerca de um terço das cadeiras do Senado. Além disso, o cargo de governador estará em disputa em alguns estados.
Hoje os republicanos controlam as duas casas do Congresso. No Senado, possuem 53 dos 100 assentos. Na Câmara dos Representantes, contam com 219 dos 435 parlamentares. Isso permite que Trump aprove com relativa facilidade grande parte de sua agenda política.
No entanto, uma pesquisa eleitoral para as midterms divulgada em 5 de outubro pelo instituto Ipsos, em parceria com a agência de notícias Reuters, indicou que esse cenário pode mudar.
Entre os entrevistados com mais de 50 anos, os republicanos apareciam com 44% das intenções de voto, apenas dois pontos percentuais à frente dos democratas. Tradicionalmente, essa faixa etária participa mais das eleições de meio de mandato do que os eleitores mais jovens. Entre os americanos com menos de 50 anos, os democratas lideravam com uma vantagem de 18 pontos percentuais.
A situação de Trump nas pesquisas de aprovação também não é boa: apenas 32% dos entrevistados consideram que ele está fazendo um bom trabalho.
Republicanos tentam se desvincular de Trump
Provavelmente por esses motivos, alguns candidatos republicanos não demonstram muito entusiasmo em participar de eventos de campanha ao lado do presidente, algo que normalmente seria considerado um dos pontos altos da campanha de um candidato ao Senado ou à Câmara dos Representantes.
Muitos americanos passaram a associar Trump ao alto custo de vida e à guerra contra o Irã, que já dura mais de seis meses. Segundo um estrategista republicano que falou sob condição de anonimato ao portal Politico, se Trump aparecesse em um estado indefinido para fazer campanha pelos republicanos, "meus candidatos pegariam covid" apenas para não ter de comparecer.
Até mesmo a grande convenção partidária organizada por Trump em setembro, algo normalmente reservado a anos de eleição presidencial e não às midterms, teve várias ausências de candidatos republicanos, apesar de o evento ter sido concebido para lhes dar visibilidade.
Por exemplo, Susan Collins, do Maine, e Dan Sullivan, do Alasca, não compareceram à convenção. O mesmo ocorreu com candidatos à Câmara dos Representantes de estados onde a competição é acirrada, como Arizona, Iowa e Michigan.
Trump prometeu 5 mil dólares a cada eleitor
Durante o evento, Trump anunciou algumas medidas de campanha incomuns. Para incentivar a participação eleitoral, o presidente sugeriu diversas vezes ao público que fingisse que ele próprio estava na cédula de votação. E, se isso não fosse suficiente, ele prometeu que, se os republicanos conquistassem a maioria em ambas as casas do Congresso, cada americano apto a votar receberia 5 mil dólares (cerca de R$ 24,9 mil).
A medida custaria mais de 1 trilhão de dólares aos Estados Unidos, mas dificilmente se tornará realidade. "Ele não dispõe de dinheiro para fazer isso por conta própria. A medida teria de ser autorizada e implementada pelo Congresso", observa Malone. "Já vimos algo semelhante em promessas não cumpridas, como 'o México vai pagar pelo muro na fronteira'."
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