Um ciberataque sem precedentes desativou os sistemas de refrigeração de mais de 400 supermercados na França, elevando as temperaturas e forçando o descarte de toneladas de alimentos perecíveis. A ação explorou vulnerabilidades no software da fornecedora dinamarquesa Danfoss. O caso gerou alertas sobre segurança alimentar na Europa, mobilizou investigações de agências de cibersegurança e levantou suspeitas em meio a tensões geopolíticas, embora a autoria ainda não tenha sido identificada.
Mais de 400 supermercados tiveram seus sistemas de refrigeração desativados, causando a perda de toneladas de alimentos congelados. Ataque sem precedentes levanta preocupações sobre a segurança alimentar na Europa.Centenas de supermercados na França foram forçados a descartar produtos perecíveis nesta segunda-feira (12/10), depois que hackers assumiram o controle de sistemas de refrigeração em todo o país, comprometendo os estoques de grandes redes em um sofisticado ataque cibernético ocorrido durante a noite.
Os hackers inutilizaram os alimentos após assumirem o controle dos sistemas de refrigeração de redes de supermercados como Intermarché, Cooperative U, Leclerc e Les Mousquetaires em todo o país, desativando o resfriamento de milhares de unidades de congelamento e refrigeração.
Durante o ataque noturno, em alguns casos, refrigeradores totalmente abastecidos tiveram a temperatura elevada para 50º C por mais de seis horas. Segundo os varejistas, mais de 400 lojas foram afetadas.
Promotores de Paris confirmaram os ataques e informaram que houve relatos de incêndios em alguns locais. A rede Intermarché afirmou que as lojas afetadas não tiveram outra opção a não ser "descartar todos os produtos frescos e congelados".
A Leclerc informou que "um ataque cibernético afetou um de seus fornecedores de equipamentos de refrigeração", o que gerou "repercussões na operação dos sistemas de refrigeração em várias lojas".
Como os sistemas de refrigeração foram acessados?
O gabinete do primeiro-ministro Sébastien Lecornu relatou que os sistemas de refrigeração afetados seriam da fornecedora dinamarquesa Danfoss, que teria identificado "uma vulnerabilidade em um software fornecido por uma empresa dinamarquesa" e entrado em contato com os varejistas.
A Danfoss declarou estar "ciente de incidentes na França que afetaram um número limitado de sistemas de gestão de refrigeração", e alegou que as unidades em questão "estavam operando com firmware desatualizado".
A empresa afirmou que há muito tempo aconselha os clientes a manterem os sistemas compatíveis atualizados com a versão mais recente do firmware e a migrarem os sistemas legados para soluções da geração atual.
O gabinete de Lecornu encarregou a Agência Nacional Francesa para a Segurança dos Sistemas de Informação (ANSSI) de investigar o ataque e está "em contato com seus homólogos europeus, uma vez que outros países podem ter sido afetados".
Problemas de segurança também foram relatados na Bélgica, em Luxemburgo e nos Países Baixos; a rede de supermercados holandesa Ahold Delhaize informou ter desconectado sistemas de refrigeração para protegê-los, embora tenha assegurado não haver qualquer ligação com os ataques ocorridos na França.
Ataques ao abastecimento de alimentos são "realidade"
Ainda não está claro quem pode ter sido o responsável pelo ataque cibernético, e nenhum grupo ou indivíduo reivindicou a autoria até o momento.
O incidente ocorre em meio a uma preocupação crescente com vulnerabilidades relacionadas ao ransomware industrial - ciberataques que bloqueiam o acesso a sistemas ou arquivos de uma empresa e exigem o pagamento de um resgate - e ataques cibernéticos perpetrados por agentes maliciosos, bem como a uma maior sensibilidade em relação a ataques híbridos russos, diante da escalada de tensões provocada pela guerra na Ucrânia.
No mês passado, o presidente francês Emmanuel Macron - um firme defensor de Kiev em sua luta contra a invasão russa - ordenou a implementação de medidas para proteger a infraestrutura crítica da França contra "ataques híbridos" do Kremlin.
O CEO da Cooperative U, Dominique Schelcher, afirmou em postagem no X que "atacar equipamentos essenciais para a conservação de produtos frescos e para o abastecimento de alimentos da população francesa é algo extremamente grave e sem precedentes. É inaceitável."
"A segurança alimentar exige mais atenção em todos os níveis", escreveu no X o comissário da União Europeia (UE) para Agricultura e Alimentação, Christophe Hansen, que condenou o ataque e alertou que a "exploração do setor de alimentos" é agora uma "realidade".
rc (AFP, dpa, Reuters)
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