Trump ameaça intervir no Irã após mortes em protestos

2 jan 2026 - 14h41

EUA estão "prontos e armados" para "auxiliar" os manifestantes que vem protestando contra alto custo de vida no país, disse o presidente americano. Levantes são os maiores em três anos na república islâmica.O presidente americano, Donald Trump , sinalizou que os Estados Unidos podem intervir no Irã, varrido nos últimos dias por uma onda de protestos, caso autoridades "atirem em manifestantes pacíficos e os matem violentamente". Confrontos com as forças de segurança deixaram seis mortos nesta quinta-feira (01/01), quinto dia de levantes contra o alto custo de vida no país.

"Estamos prontos, armados e preparados para intervir", escreveu Trump. Segundo o presidente, o objetivo dos EUA é "auxiliar" os manifestantes, mas não está claro de que forma isso aconteceria.

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Na capital Teerã, comerciantes fecharam negócios em protesto contra a hiperinflação, a desvalorização da moeda e a estagnação econômica. Em seguida, as manifestações se espalharam para as universidades e outras partes do país.

O Irã sofre há anos com a inflação descontrolada de produtos básicos e a desvalorização crônica de sua moeda, o rial. Em dezembro, os preços subiram, em média, 52% em relação ao ano anterior, segundo o Departamento Central de Estatísticas.

Os EUA e o Irã são rivais desde a Revolução Islâmica de 1979 e não mantêm relações diplomáticas formais. O Irã apoia diferentes grupos envolvidos em conflitos no Líbano, Iraque e Iêmen.

Troca de ameaças

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Em junho, as forças militares dos EUA se posicionaram ao lado de Israel ao bombardearem instalações nucleares do Irã. Os governos americano e israelense acusam o Irã de querer construir uma bomba nuclear, o que o regime de Teerã nega.

"Trump deve saber que a interferência dos EUA nesse assunto interno significaria desestabilizar toda a região e destruir os seus interesses", escreveu Ali Larijani, secretário-geral do Conselho de Segurança do Irã, numa rede social. "Distinguimos entre a posição dos comerciantes que protestam e as ações de atores disruptivos."

Não está claro como os protestos evoluirão. "Nenhum dos grupos da oposição conseguiu, até agora, estabelecer organizações poderosas ou redes duradouras que possam conduzir os protestos", escreveu o historiador Arash Azizi na revista americana The Atlantic. "Sem essa orientação, é provável que os protestos atuais percam força e se dissipem."

Em Teerã, centro político e econômico do país, a preocupação com o futuro vem afetando parte dos moradores há vários anos. "Eu vi os protestos de perto. Muitos eram pessoas da Geração Z - jovens que não têm esperança nem motivação", diz Mortesa, um treinador físico.

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Já Mohammad-Javad, que administra uma joalheria no Grande Bazar de Teerã, fechou sua loja no último domingo. Com as flutuações no mercado de câmbio, ele precisa fazer correções a cada hora. "Simplesmente não sabemos mais quais preços definir," afirma.

Maiores protestos em três anos

O Irã já enfrentou repetidas expressões de insatisfação popular nas últimas décadas. O governo costuma sufocar protestos com medidas de segurança rigorosas e prisões em massa. Mas os problemas econômicos podem tornar as autoridades mais vulneráveis agora.

Os protestos desta semana são os maiores em três anos, desde as manifestações nacionais desencadeadas pela morte da jovem Jina Mahsa Amini , sob custódia da polícia, que paralisaram o Irã por semanas no fim de 2022. À época, grupos de direitos humanos relataram centenas de mortos e presos.

Agora, um vídeo verificado pela agência de notícias Reuters mostrou dezenas de pessoas reunidas em frente a uma delegacia em chamas durante a noite, enquanto tiros soavam esporadicamente e manifestantes gritavam "vergonha, vergonha" para as autoridades.

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O grupo de monitoramento de direitos humanos Hengaw relatou 29 prisões relacionadas aos protestos. A televisão estatal também reportou a prisão de um número não especificado de pessoas em outra cidade, Kermanshah, acusadas de fabricar coquetéis molotov e pistolas caseiras.

As mortes reconhecidas pela mídia oficial ou semi-oficial iraniana ocorreram nas pequenas cidades de Lordegan e Kuhdasht. O Hengaw também relatou que um homem foi morto na província de Fars, no centro do Irã, embora sites de notícias estatais tenham negado.

Presidente reconhece falhas

O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, vem adotando um tom conciliador e prometeu diálogo com líderes dos protestos.

Antes da ameaça dos EUA, Pezeshkian reconheceu que falhas das autoridades estavam por trás da crise. "Nós somos os culpados. Não procurem os Estados Unidos ou qualquer outro para culpar. Devemos servir adequadamente para que as pessoas fiquem satisfeitas conosco. Somos nós que temos que encontrar uma solução para esses problemas", disse.

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O governo de Pezeshkian tenta implementar um programa de liberalização econômica, mas a desregulamentação de parte do câmbio contribuiu para uma forte queda no valor do rial iraniano no mercado paralelo. A desvalorização da moeda agravou a inflação, que tem se mantido acima de 36% desde março, mesmo segundo estimativas oficiais, em uma economia castigada por sanções ocidentais.

Os ataques de Israel e EUA em 2025 aumentaram a pressão sobre as autoridades, assim como a queda na Síria, no final de 2024, do ditador Bashar al-Assad , aliado próximo de Teerã, e os bombardeios israelenses contra seu principal parceiro regional, o Hezbollah do Líbano.

ht/le (dpa, Lusa, Reuters)

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