A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) encerrou seus trabalhos na madrugada deste sábado (28), de forma dramática e sem a aprovação do relatório final. Em uma votação apertada, o colegiado rejeitou o parecer apresentado pelo relator, o deputado Alfredo Gaspar, que sugeria o indiciamento de centenas de pessoas envolvidas em supostas irregularidades previdenciárias. O resultado de 19 votos contrários e apenas 12 favoráveis selou o destino da comissão, que chega ao seu prazo limite constitucional sem um documento formal aprovado pelos seus integrantes.
O ponto de maior tensão no relatório de Alfredo Gaspar era o pedido de indiciamento e até a sugestão de prisão preventiva para Fábio Luís Lula da Silva, empresário e filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo a tese do relator, existiam "indícios concretos" de que o empresário, conhecido como Lulinha, poderia tentar fugir para escapar de eventuais punições judiciais. O parlamentar sustentava que o filho do presidente teria recebido repasses financeiros de Antonio Carlos Camilo Antunes, apelidado de Careca do INSS, que é apontado pela Polícia Federal como o mentor de um esquema de descontos indevidos em aposentadorias.
A sessão, que teve início na manhã de sexta-feira (27), estendeu-se por mais de quinze horas sob forte pressão política. Enquanto a oposição defendia o texto rigoroso de Alfredo Gaspar, parlamentares alinhados ao governo tentavam emplacar um relatório alternativo. Esse segundo documento focava em outros nomes, sugerindo o indiciamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, do senador Flávio Bolsonaro e de figuras do setor financeiro, como o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Entretanto, o presidente da comissão, senador Carlos Viana, encerrou os trabalhos logo após a rejeição do primeiro texto, sem colocar a proposta governista em votação.
Apesar da derrota política no colegiado, o senador Carlos Viana garantiu que o esforço da investigação não será totalmente perdido. Ele confirmou que enviará cópias integrais do relatório rejeitado para o Supremo Tribunal Federal (STF) e para a Procuradoria-Geral da República (PGR). Em tom de despedida, o parlamentar lamentou a falta de consenso. "É uma pena que a gente não tenha completado o trabalho com o relatório completamente aprovado. Eu saio daqui de cabeça erguida de que fizemos o nosso trabalho, que lutamos e demos ao brasil respostas", declarou Carlos Viana após o encerramento da última reunião.
O impacto da rejeição atinge uma lista extensa de autoridades citadas no processo. Entre os nomes que constavam no pedido de indiciamento estavam ex-ministros como José Carlos Oliveira e Carlos Lupi, além de políticos experientes como José Sarney Filho e o senador Weverton Rocha. O relatório também mirava a cúpula administrativa do INSS e da Dataprev, mencionando nomes como Alessandro Antônio Stefanutto, Leonardo Rolim e Rodrigo Ortiz D'Avila Assumpção, acusando-os de omissão ou facilitação no esquema que prejudicou milhares de aposentados brasileiros.
Agora, o material acumulado em seis meses de quebras de sigilo e depoimentos segue para as autoridades de fiscalização. Como as CPIs não possuem poder de condenação direta, caberá ao Ministério Público decidir se apresentará denúncias criminais com base nas provas colhidas. O encerramento ocorre após o STF barrar a prorrogação dos prazos da comissão, forçando o desfecho apressado neste fim de semana. A sociedade aguarda para saber se os órgãos de controle darão continuidade aos apontamentos sobre a rede criminosa que operava dentro da previdência social.