Césio-137: o que aconteceu com as vítimas do maior acidente radiológico urbano?

Após cápsula ser aberta por catadores em 1987, 249 pessoas tiveram contaminação confirmada e mais de 100 mil foram monitoradas

24 mar 2026 - 04h57
Leide das Neves se tornou símbolo do acidente
Leide das Neves se tornou símbolo do acidente
Foto: Reprodução

O acidente com o césio-137, em setembro de 1987, transformou a jovem cidade de Goiânia e deu origem ao maior desastre radiológico fora de usinas nucleares já registrado. A contaminação começou de forma silenciosa e se espalhou rapidamente, atingindo centenas de pessoas e deixando marcas percebidas até hoje.

Era 13 de setembro quando os catadores Roberto dos Santos Alves, de 21 anos, e Wagner Mota Pereira, 20, entraram em uma clínica desativada no Setor Aeroporto, região central da capital. No local, encontraram uma cápsula metálica pesada que continha 19,26 gramas de material radioativo. Ao manusearem o objeto, iniciaram, sem saber, uma cadeia de contaminação que mudaria suas vidas, a de suas famílias e a de toda a cidade.

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A peça foi levada para casa e aberta. Dias depois, em 18 de setembro, acabou vendida a Devair Alves Ferreira, proprietário de um ferro-velho próximo. À noite, ele percebeu o brilho azul intenso que saía da cápsula e decidiu levá-la para dentro de casa. Encantado com a coloração, o material passou a ser manipulado e compartilhado entre familiares, como sua esposa, Maria Gabriela Ferreira, e conhecidos.

Sem qualquer informação sobre o perigo, fragmentos da substância circularam entre diferentes pessoas e bairros. Parte do pó radioativo foi levada pelo irmão de Devair, Ivo Alves Ferreira, para casa, enrolada em um pedaço de papel. No dia 24 de setembro, a filha dele, Leide das Neves Ferreira, de 6 anos, manuseou o material e, sem lavar as mãos, ingeriu partículas ao se alimentar. A menina se tornaria a principal vítima simbólica da tragédia.

Nos dias seguintes, os primeiros sintomas começaram a surgir: náuseas, vômitos, tontura e queimaduras na pele. Sem associação com radiação, muitos acreditaram se tratar de uma infecção alimentar, hipótese reforçada após uma refeição compartilhada entre alguns dos contaminados. Pacientes buscaram farmácias e hospitais e foram tratados como se tivessem doenças comuns, o que atrasou o diagnóstico correto.

Vítimas do césio-137

Quando a origem do problema foi identificada, a contaminação já havia se espalhado. De acordo com dados oficiais, quatro pessoas morreram em decorrência direta da exposição aguda à radiação:

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  • Leide das Neves Ferreira (6 anos), em 23 de outubro;
  • Maria Gabriela Ferreira (37 anos), também no dia 23;
  • Israel Baptista dos Santos (funcionário do ferro-velho, 20 anos), em 27 de outubro;
  • Admilson Alves de Souza (funcionário do ferro-velho, 18 anos), em 28 de outubro.

Outras mortes ocorreram anos depois entre pessoas diretamente ligadas ao episódio. Devair morreu sete anos após o acidente, aos 43 anos, após desenvolver depressão e problemas com alcoolismo. Ivo faleceu 15 anos depois, vítima de enfisema pulmonar. 

O número de atingidos, no entanto, foi muito maior. Cerca de 112 mil pessoas passaram por triagem para verificar possível contaminação. Destas, 249 tiveram níveis confirmados de exposição interna ou externa ao material radioativo.

As vítimas foram classificadas conforme o grau de contato. Parte teve contaminação leve, restrita a roupas ou objetos, sendo submetida a processos de descontaminação. Já os casos mais graves exigiram internação, isolamento e tratamentos intensivos. Muitos desenvolveram a Síndrome Aguda da Radiação, com infecções generalizadas, lesões na pele e comprometimento da medula óssea.

Embora quatro mortes sejam oficialmente atribuídas diretamente à radiação, associações de vítimas apontam que o número de óbitos relacionados ao acidente pode ser maior ao longo dos anos, considerando complicações decorrentes da exposição. É o exemplo de vítimas como Zilda Maria de Jesus, Aristides Neto e Maria das Graças Vieira, que trabalharam em contato com contaminados e morreram por complicações de câncer. 

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Além das consequências físicas, o acidente deixou impactos sociais duradouros. Vítimas enfrentaram preconceito, dificuldades para retomar a rotina e disputas judiciais por indenização. Em alguns casos, houve isolamento social motivado pelo medo de contaminação por parte da população.

Segundo a Associação de Vítimas do Césio-137, aqueles impactados pelo acidente radiológico recebiam auxílio de R$ 954 mensais em 2025 --valor tido como insuficiente. O Terra buscou a Secretaria de Saúde de Goiânia para o valor atualizado e as demais medidas de assistência, mas não obteve retorno até a publicação. 

O desastre também gerou cerca de seis mil toneladas de rejeitos radioativos. Todo o material contaminado foi recolhido e transferido para um depósito controlado em Abadia de Goiás, onde permanece sob monitoramento.

Fonte: Portal Terra
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