Quando o joelho começa a dar sinais de alerta: o que os genes revelam sobre a osteoartrite

Estima-se que cerca de 39% do risco de desenvolver a doença esteja relacionado à herança genética. Em casos mais graves, esse percentual pode ultrapassar 50%

23 jan 2026 - 13h19

Você já passou há muito da adolescência e começa a sentir o peso da idade, especialmente no joelho. Ele falha de vez em quando, estala, range ao se movimentar. A dor aparece com frequência, inclusive em repouso, e levantar depois de um tempo sentado ou deitado se torna cada vez mais difícil. Em alguns momentos, o joelho parece travar, como se simplesmente não quisesse obedecer.

Sinto muito dizer, mas você pode estar entre as milhões de pessoas que convivem com a osteoartrite.

Publicidade

A osteoartrite é uma doença inflamatória crônica, progressiva e dolorosa, marcada pela degeneração da cartilagem, por alterações estruturais nos tecidos articulares e pela inflamação da sinóvia.

A osteoartrite de joelho é a forma mais comum da doença, justamente porque o joelho sustenta grande parte do peso corporal e está constantemente exposto ao estresse mecânico.

Esses números são ainda mais altos entre as mulheres. Especialmente após a menopausa, alterações hormonais e biomecânicas aumentam a vulnerabilidade à doença.

O avanço da idade também contribui para a degeneração das articulações e para a redução da capacidade de reparo dos tecidos. Além disso, estudos indicam que pessoas mais altas apresentam maior risco de desenvolver osteoartrite de joelho.

Publicidade

Muito além do desgaste: o papel da genética

Apesar de todos esses fatores conhecidos, a osteoartrite de joelho não tem uma única causa. Sua origem é multifatorial e ainda não totalmente compreendida.

O que se sabe é que a genética tem um peso importante nessa história: estima-se que cerca de 39% do risco de desenvolver a doença esteja relacionado à herança genética. Em casos mais graves, esse percentual pode ultrapassar 50% e chegar a até 80% entre mulheres com mais de 50 anos.

Quando falamos em doenças, é comum imaginar causas únicas e bem definidas. Mas a maioria das doenças crônicas não funciona assim. Poucas são determinadas por um único gene "defeituoso".

O que a ciência tem mostrado é que pequenas variações no DNA — chamadas polimorfismos genéticos — ajudam a explicar por que algumas pessoas adoecem mais cedo, apresentam quadros mais graves ou respondem de forma diferente aos tratamentos.

Publicidade

Ao relacionar essas variações genéticas com dados clínicos e populacionais, os pesquisadores conseguem identificar padrões invisíveis a olho nu, revelando como genética, ambiente e estilo de vida se entrelaçam na origem de muitas doenças.

Esse tipo de investigação amplia nossa compreensão dos mecanismos biológicos do adoecimento e abre caminho para uma medicina personalizada.

Genes envolvidos na osteoartrite de joelho

Estudos de associação genômica ampla, conhecidos como GWAS, já identificaram mais de 80 loci associados à osteoartrite de joelho. Locus (plural loci) é, de forma simples, um "endereço" no DNA — uma posição específica no genoma que pode variar entre os indivíduos e influenciar o risco de desenvolvimento de doenças.

Entre esses loci, um dos mais estudados é o gene GDF5 (growth differentiation factor 5), que desempenha um papel fundamental no desenvolvimento, na manutenção e no reparo das articulações sinoviais.

Diversos estudos já demonstraram que uma variação específica desse gene, chamada GDF5 rs143384, está associada não apenas à osteoartrite de joelho, mas também a outras doenças musculoesqueléticas.

Publicidade

O que encontramos em pacientes brasileiros

Diante disso, nós — cientistas e médicos de instituições como a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a Universidade Federal Fluminense e o Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO) — decidimos investigar mais a fundo o papel desse gene em pacientes brasileiros. O resultado foi um estudo recentemente publicado na revista científica Genes.

Realizamos um estudo observacional transversal ao longo de três anos, com a participação de 224 pacientes com osteoartrite de joelho atendidos no INTO, no Rio de Janeiro. Os voluntários foram avaliados clinicamente e classificados de acordo com a gravidade da doença.

Para a análise genética, coletamos células da mucosa oral por meio de um swab, o que permitiu extrair o DNA e identificar o polimorfismo do gene GDF5 utilizando a técnica de PCR.

O que os dados revelaram

A idade mediana dos participantes foi de 64 anos, com variação entre 44 e 84 anos. A maioria era do sexo feminino. Mais da metade apresentava estatura inferior a 1,60 metro, e cerca de dois terços eram obesos ou tinham obesidade mórbida.

Publicidade

Observamos que pacientes com mais de 70 anos apresentavam formas mais avançadas da osteoartrite. Também identificamos que a frequência da variante genética A do polimorfismo GDF5 rs143384 aumentava conforme a gravidade da doença.

Entre as mulheres, esse achado foi ainda mais marcante. A presença dos genótipos GA ou AA esteve associada a maior gravidade da osteoartrite de joelho. Além disso, mulheres portadoras dessas variantes genéticas apresentaram, em média, menor estatura do que aquelas com o genótipo GG.

Por que esses achados importam?

Nossos resultados mostram que a genética pode ajudar a explicar porque a osteoartrite de joelho se manifesta de forma mais grave em algumas pessoas — especialmente em mulheres. A associação entre o polimorfismo GDF5 rs143384, maior gravidade da doença e menor estatura sugere que essa variante contribui para a variabilidade clínica da osteoartrite.

Compreender essas diferenças é essencial para avançar rumo a uma abordagem mais personalizada da doença. No futuro, informações genéticas poderão ajudar a refinar diagnósticos, orientar estratégias de prevenção e até influenciar decisões terapêuticas. Mais do que entender por que o joelho dói, a genética nos ajuda a compreender por que ele dói mais em algumas pessoas do que em outras.

Publicidade

A pesquisa que embasa este artigo foi financiada pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). E a publicação deste artigo contou com o apoio da Coordenação de Pessoal de Nível Superior (Capes).

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Eduardo Branco de Sousa recebe financiamento da Faperj.

Jamila Alessandra Perini recebe financiamento da FAPERJ, CNPq e UERJ (Prociência e InovUERJ).

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se