Por que projeto bolsonarista de política externa ameaça enfraquecer a soberania nacional

Apesar dos discursos nacionalista, os governos de ultradireita que agora são a imensa maioria na América do Sul, Central e Caribe entregaram-se à política intervencionista dos EUA, através da adesão ao chamado "Escudo das Américas". O Brasil ainda resiste, mas vai aderir também caso Flávio Bolsonaro seja eleito

21 out 2026 - 09h45
(atualizado às 10h25)
Resumo
O artigo analisa como o projeto bolsonarista enfraquece a soberania brasileira ao substituir a tradicional autonomia externa por uma submissão ideológica aos EUA. Essa postura compromete áreas vitais: na energia, com a venda de refinarias estratégicas da Petrobras; na defesa, com o sucateamento de projetos de dissuasão e foco no combate interno; e na diplomacia, ao romper o pragmatismo histórico e priorizar alianças com a extrema-direita trumpista em detrimento dos reais interesses nacionais.

Uma das características centrais da extrema-direita mundial é seu nacionalismo ufanista. No campo da geopolítica, isso se traduz em uma defesa do poder nacional. Industrialização, autonomia frente aos demais países e controle estatal de setores estratégicos são parte dos programas políticos dos principais agrupamentos da direita radical.

Na América Latina, porém, há um fenômeno peculiar. A extrema-direita da região mantém um discurso nacionalista, mas na prática se submete à agenda dos Estados Unidos de Donald Trump. Vejamos o caso brasileiro.

Publicidade

Jair Bolsonaro já bateu continência para a bandeira americana. Em 2025, seu filho Eduardo comemorou a tarifa de 50% imposta por Donald Trump às exportações brasileiras. Meses depois, Flávio, candidato à Presidência, perguntou ao secretário de Guerra dos Estados Unidos se ele não gostaria de passar uns meses ajudando a combater o tráfico na Baía de Guanabara.

A partir da noção de poder nacional, cara para a disciplina das Relações Internacionais, este artigo procura analisar o nacionalismo do projeto bolsonarista.

Mas o que é o poder nacional?

Na definição do intelectual francês Raymond Aron, poder nacional é a capacidade de um país de impor sua vontade. Para um país como o Brasil, é sobretudo a de não ter a vontade alheia imposta à sua. Ele envolve poder militar, geografia e recursos naturais estratégicos.

Contudo, possuir esses bens não basta. O teórico das relações internacionais Hans Morgenthau lembrava que o Congo, então colônia belga, tinha urânio de alto teor e nenhuma indústria capaz de transformá-lo em poder. Foi de lá que saiu boa parte do urânio da bomba atômica americana. O minério era congolês, mas o poder, não.

Nessa perspectiva analisaremos três áreas centrais do poder brasileiro: geopolítica do petróleo, defesa nacional e política externa. Comecemos pelo petróleo, um dos exemplos mais claros de potencial que só se converte em poder a partir de um projeto nacionalista.

Publicidade

A erosão da Petrobras sob Bolsonaro

"Petróleo é 10% economia e 90% política", afirmou o historiador Daniel Yergin. É um fator determinante do poder militar e da influência internacional dos países que o possuem, mas também pode ser uma fonte de vulnerabilidade para os que dele dependem.

Mas será que possuir o recurso é uma garantia de poder? Em 2006, o governo Lula anunciou a autossuficiência em petróleo, mas o país ainda importava parte do diesel que consumia. Isso porque campo de refino brasileiro não possui capacidade de suprir nossa demanda por combustíveis.

Seguindo a tradição nacional-desenvolvimentista da Petrobras, ampliar o refino era o caminho para alcançar a segurança energética, na medida em que o país deixaria de ser dependente da importação de combustíveis.

Contudo, sob o governo Dilma, em virtude da Operação Lava Jato abriu-se um período de crise na empresa. Para recuperar a Petrobras, abandonou-se a expansão do parque de refino e vendeu-se parte de seus ativos. A estratégia era focar na exploração e produção do petróleo, de forma a aumentar os lucros da empresa. Esse programa de desinvestimentos, sob Jair, foi aprofundado.

Publicidade

A Petrobras, então, se comprometeu a vender oito refinarias. A da Bahia, segunda maior do país, passou ao braço de investimentos do fundo soberano de Abu Dhabi, numa venda cuja avaliação, segundo a CGU, ficou abaixo do valor de mercado.

Após a privatização, os preços subiram. As refinarias vendidas passaram a cobrar mais caro que a Petrobras, e a Bahia, que estava entre os estados com o diesel mais barato, chegou a ter o mais caro do país.

Os combustíveis seguiram o preço de paridade internacional (PPI), adotado ainda sob Temer. A medida seguiu até o final do governo Bolsonaro. Em 2022, a Petrobras foi a segunda maior pagadora de dividendos do mundo, enquanto a inflação atingia o bolso do brasileiro com a alta internacional do petróleo. A partir da venda da BR Distribuidora, dona de cerca de 27% do mercado, a Petrobras perdeu também um instrumento para influenciar o preço na bomba.

Assim, o bolsonarismo aprofundou a transferência de ativos estratégicos da Petrobras, reduzindo os instrumentos de que o Estado dispunha para coordenar etapas importantes da cadeia de combustíveis. O petróleo continuou brasileiro, mas o controle sobre ele e seu preço, cada vez menos.

Publicidade

O bolsonarismo e a defesa nacional

Na defesa nacional, os governos do PT lançaram programas capazes de fortalecer o poder de dissuasão brasileiro. A Estratégia Nacional de Defesa, de 2008; o Prosub, que prevê um submarino de propulsão nuclear para proteger as águas do pré-sal; os caças Gripen e o cargueiro KC-390 foram alguns dos programas. O subfinanciamento atravessou governos (sob Lula 3, o submarino foi adiado para 2038), mas havia uma proposta concisa para a defesa.

O governo Bolsonaro, o que mais prestigiou os militares, não converteu esses louros em capacidade militar. No primeiro ano de governo, a verba prevista para reaparelhar as Forças Armadas era a menor da década, enquanto os gastos com salários e aposentadorias de militares batiam recorde.

Em 2022, a encomenda do KC-390 caiu de 28 para 19 aviões. No quarto dia de governo, Bolsonaro disse temer que a Embraer, "patrimônio nosso", fosse repassada "para o outro lado". No décimo, porém, liberou a venda de seu principal negócio à Boeing.

O dano maior foi à própria instituição. A condução da pandemia, com um general da ativa no Ministério da Saúde, desgastou a imagem dos militares. Mais tarde, a trama golpista levou parte da cúpula das Forças Armadas ao banco dos réus.

Publicidade

Como consequência, em 2023, a confiança nas Forças Armadas caiu ao menor nível da série histórica. Nenhum adversário externo fez tanto contra a imagem dos militares brasileiros quanto o governo que mais os exaltou.

O plano de Flávio, por sua vez, desloca a missão da defesa, concentrando os esforços militares no crime organizado com tropas permanentes em fronteiras, portos e aeroportos. Lula também pôs militares em portos e aeroportos, mas numa GLO temporária, em 2023.

A Estratégia de 2008 preparava as Forças Armadas para negar o mar a uma potência estrangeira — ameaça cada vez mais factível —, enquanto o bolsonarismo as prepara para um inimigo interno. Como mostrou o convite ao secretário de Guerra estadunidense, Flavio chama os Estados Unidos para ajudar em sua estratégia.

Outra questionável posição do candidato do PL é com relação ao Escudo das Américas. Lançado por Trump , a iniciativa reúne mais de uma dezena de governos latino-americanos dispostos a coordenar ações militares contra cartéis de drogas. Em setembro, a coalizão incluiu o PCC e o Comando Vermelho entre seus alvos, que Washington já classificara como organizações terroristas após uma visita de Flávio à Casa Branca.

Publicidade

O Brasil ficou de fora, mas Flávio Bolsonaro defende a adesão do país. A proposta, porém, é vista com apreensão nos quartéis. Em 2019, a mera hipótese de instalação de uma base militar americana no Brasil provocou desconforto no Alto Comando do Exército e levou Bolsonaro a recuar.

Em outro episódio que revelou sua postura submissa ao Estados Unidos, Jair disse que permitiria uma base militar dos EUA na tríplice fronteira se voltasse ao poder. Trata-se de definir em que condições o Brasil aceita a atuação de uma potência estrangeira em seu entorno estratégico, um dilema que vai além da segurança pública.

Essa série de posicionamentos do bolsonarismo em relação à defesa nacional rendeu críticas até mesmo de militares que participaram do governo de Bolsonaro. O experiente General Santos Cruz afirmou que em caso de vitória de Flávio "vai ser vergonhoso um presidente nosso ter uma foto de pé em posição de subalterno ao presidente dos Estados Unidos" e que a estreita relação entre a família Bolsonaro e o governo Trump é uma "traição à pátria" e configura um "ataque à soberania nacional".

Política externa: da autonomia estratégica ao alinhamento ideológico

Na política externa, o bolsonarismo rompeu com uma tradição autonomista, que vai da política externa independente de João Goulart ao pragmatismo responsável do governo militar de Geisel. Ela parte da ideia de que uma potência média amplia sua margem de decisão quando não se prende a um único polo de poder.

Publicidade

Essa tradição rendeu ao Brasil Itaipu, a fiscalização nuclear mútua com a Argentina, que hoje ampara o Prosub, e as 200 milhas reivindicadas em 1970, onde está o pré-sal. Possibilitou até vitórias contra Washington, quando contencioso do algodão terminou com US$ 805 milhões pagos pelos EUA ao Brasil. Essa diversificação de parceiros virou seguro contra ameaças comerciais, pois mesmo sob o tarifaço de 2025, o país bateu recorde de exportações.

Jair trocou essa tradição pelo alinhamento ideológico a Trump. Abriu mão do tratamento especial na OMC em troca do apoio americano à entrada na OCDE, abandou integração regional via Unasul e viu seu chanceler aceitar que o Brasil fosse um pária internacional.

Indo além do alinhamento, em 2025 Eduardo articulou nos Estados Unidos tarifas e sanções contra o próprio país, para tentar livrar o pai da prisão, e acabou condenado pelo STF por coação. Por sua vez, Flávio promete uma diplomacia pragmática, sem ideologia, mas chamou de "libertação" a captura de Maduro por tropas americanas.

A ação fere o princípio de não intervenção, que a Constituição brasileira defende. Ao aplaudir a operação, o candidato legitima um precedente que pode um dia ser usado contra o próprio país.

Publicidade

Um "nacionalismo" contra o inimigo interno

Mas por que um movimento que se diz patriótico age no sentido de enfraquecer o poder nacional? O nacionalismo bolsonarista parece privilegiar a definição da nação contra inimigos internos, como o PT, o STF e as ONGs. Nesse sentido, a política externa e a defesa são subordinadas a uma aliança ideológica com a extrema-direita internacional, em vez de servirem aos interesses brasileiros.

Essa perspectiva guarda semelhanças com a visão de parte dos militares de 1964 que Jair diz admirar, mas abandona um componente central do projeto de Brasil potência: a ambição de construir capacidades próprias para ampliar a autonomia do país. Por isso, contra esse inimigo interno, Trump é visto como aliado. Por consequência, as instituições que sustentam o poder nacional tornam-se barreiras para o projeto trumpista-bolsonarista.

Em um cenário internacional onde as potências acirram a competição por recursos, o poder nacional é a capacidade e a autonomia de dizer não e escolher o próprio destino. O projeto de Flávio, porém, se dispõe a dizer sim de antemão e, com isso, abre mão de barganhar.

Getúlio Vargas, por exemplo, fez o contrário. Se utilizando da rivalidade entre Washington e Berlim obteve dos americanos o financiamento da siderúrgica de Volta Redonda, que transformou minério em aço. Sem essa postura autonomista, o país "gigante pela própria natureza" pode desperdiçar a chance de converter seu potencial em poder nacional.

Publicidade

Assim, analisando as políticas do bolsonarismo para as áreas centrais do poder brasileiro, fica claro que a continência à bandeira americana foi, mais que uma gafe, o símbolo de um programa político. O movimento que se veste de verde e amarelo é o mesmo que mina as bases do poder nacional brasileiro.

Por isso, no dia 25 de outubro, o eleitor responderá uma questão fundamental: o destino do Brasil será decidido pelos brasileiros ou estará subordinado a uma potência estrangeira?

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Daniel Büttner não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se