Quem venceu o debate da Band entre Flávio e Lula? Especialistas avaliam desempenho dos candidatos

Analistas destacam preparo do senador para o formato e desempenho do presidente em saúde, mas apontam pouco espaço para propostas

19 out 2026 - 05h00
(atualizado às 13h02)

O primeiro debate entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na eleição presidencial não teve um vencedor incontestável, na avaliação de especialistas ouvidos pelo Terra. Enquanto o candidato do PL demonstrou mais tranquilidade e preparo para o formato do encontro deste domingo, 18, na Band, o presidente teve melhor desempenho em temas como saúde e mostrou experiência nos embates diretos. Os analistas, porém, apontam que a troca de acusações tomou espaço que poderia ter sido dedicado à discussão de propostas.

O doutor em Marketing e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) João Ricardo Matta avaliou que Flávio Bolsonaro demonstrou mais tranquilidade durante o debate, mas que Lula levou vantagem nos embates diretos, por sua experiência em disputas eleitorais.

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“Os dois mantiveram a ética, mantiveram o equilíbrio. Flávio se mostrou mais calmo, mais tranquilo. Em alguns momentos eu senti o Lula até um pouco nervoso demais, impactado com as provocações. Mas na hora do embate frente a frente, é muito difícil alguém ser melhor que o Lula, porque ele tem muita experiência, está muito acostumado”, analisa Matta.

Na avaliação do especialista, o senador demonstrou amadurecimento e se preparou para conversar com eleitores que ainda não definiram o voto. “As partes das falas dele sem confronto, foram, a meu ver, superiores às de Lula”, afirmou. O professor ponderou, porém, que Lula tem mais experiência em debates eleitorais e consegue recorrer "à ironia e à leveza" nos confrontos diretos.

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O cientista político Bhreno Vieira, doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), também considerou que Flávio estava mais confortável com o formato. Isso não significa, contudo, que tenha conquistado novos votos. “Me parece que Flávio não conseguiu, de certa forma, converter votos. Lula também acho que não.”

Para Mayra Goulart, professora de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Flávio foi mais agressivo e conseguiu impor a agenda da segurança pública, mas também evitou responder diretamente a muitas perguntas. Lula, por sua vez, apresentou propostas e resultados de sua gestão, embora tenha tido dificuldade para reagir à agressividade do adversário.

"Flávio foi mais agressivo, mas também mais evasivo: não respondeu diretamente a vários pontos levantados por Lula e preferiu retornar aos temas em que se sente mais confortável. Quando questionado sobre o modelo econômico de Milei, por exemplo, deixou respostas importantes sem aprofundamento", aponta Mayra.

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Vieira afirma que a desenvoltura de Flávio é justificada por um treinamento específico para o encontro, mas avalia que a estratégia dele de elevar o tom prejudicou a discussão de propostas.

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“Flávio saiu com a estratégia de simplesmente tumultuar todo o debate, com um tom mais agressivo, tendo em vista principalmente o treinamento com Pablo Marçal. De certa forma, ele tumultuou o debate para evitar que os indecisos tivessem preferência por Lula. Enquanto isso, Lula caiu nessa em vários momentos, entrando em embates que, de certa forma, foram um pouco desnecessários. No final, o que deveria ter sido debatido passou longe do principal objetivo da noite”, diz Vieira

Mayra também aponta que a estratégia de Flávio apostou no medo e na indignação, com referências à violência cotidiana, às chamadas saidinhas de presos e ao narcoterrorismo. No entanto, ela afirma que houve um desempenho mais firme de Lula na saúde, especialmente ao abordar a condução da pandemia de covid-19 e a experiência necessária para administrar o Sistema Único de Saúde (SUS).

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Segundo ela, o presidente conseguiu deslocar a discussão para a capacidade administrativa dos candidatos e destacar a importância da experiência em gestão pública. Mayra também ressaltou a importância de Lula abordar a ampliação da licença-maternidade.

"O tema da licença-maternidade foi um dos momentos mais relevantes. Lula conseguiu trazer uma questão concreta: a posição de Flávio contrária à ampliação da licença das mulheres por mais dois meses. Trata-se de um assunto capaz de afetar diretamente a vida de muitas eleitoras -- inclusive mulheres que não são necessariamente politizadas, mas que compreendem imediatamente a importância do tema. Por sua concretude e transversalidade, a licença-maternidade pode interessar especialmente à eleitora indecisa, muito mais do que acusações abstratas sobre corrupção ou ideologia. Flávio, no entanto, não respondeu ao ponto e desviou para outras acusações", analisa Mayra.

A professora avaliou, contudo, que Lula não conseguiu explicar de forma suficiente o desconforto da população com a situação econômica. O presidente falou sobre concentração de riqueza e a necessidade de colocar dinheiro nas mãos das pessoas, além de mencionar investimentos na indústria, crédito, economia verde e qualificação profissional. Flávio, por sua vez, insistiu em temas como inflação, preço dos alimentos, dívida e gastos públicos, mas apresentou soluções tecnológicas sem esclarecer como elas enfrentariam problemas estruturais do País, para a especialista.

Outro ponto em que Lula teve um acerto, na opinião de Mayra, foi ao questionar Flávio sobre sua relação com o presidente argentino Javier Milei e se ele pretende adotar medidas semelhantes às do governo vizinho. A professora considera que o tema merecia uma resposta mais clara do candidato do PL.

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"A relação de Flávio com o presidente argentino é concreta: Milei esteve no lançamento de sua candidatura, foi um dos poucos políticos a comparecer e Flávio falou diversas vezes sobre seu “tesouraço”. Perguntar se ele pretende adotar esse modelo é diferente de fazer associações genéricas entre Lula e governos como os da Nicarágua ou do Irã, que não tiveram qualquer impacto durante os 3 mandatos do presidente. No caso de Milei, existe uma referência política direta e assumida, que merecia uma resposta mais clara."

Mayra também destacou o confronto sobre a abertura dos sigilos bancário e telefônico. Para ela, ao desafiar o adversário a abrir os próprios dados, incluindo os de familiares, Lula conseguiu transferir a pressão para o adversário. “Foi um momento em que Lula conseguiu transferir a pressão para o adversário, mostrando que, quando confrontado com uma questão concreta, Flávio frequentemente substitui a resposta por uma nova acusação”, avaliou a professora.

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Debate teve excesso de acusações e poucas propostas

Apesar das diferenças sobre o desempenho dos candidatos, os especialistas apontaram que os ataques dominaram o encontro. Para Mayra, a agressividade e a dificuldade de aprofundar as discussões expuseram limitações do formato dos debates eleitorais.

“Quando os candidatos partem de realidades completamente diferentes, muitas vezes as respostas deixam de ter a função de esclarecer e passam apenas a reforçar convicções já existentes”, afirma a cientista política.

Vieira também avaliou que o eleitor saiu prejudicado pela falta de discussão aprofundada sobre políticas públicas. “Na verdade hoje quem saiu perdendo, de certa forma, foi o eleitor. E principalmente o eleitor indeciso”, disse. O cientista político afirmou que os candidatos tiveram momentos de desenvoltura, mas considerou que a discussão ficou distante do objetivo de apresentar propostas. 

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Lula e Flávio Bolsonaro durante debate da Band
Lula e Flávio Bolsonaro durante debate da Band
Foto: BRUNO MOTTA/ENQUADRAR / Estadão

Matta, por sua vez, considerou que o debate dificilmente terá relevância suficiente para mudar o cenário eleitoral. Ele também chamou atenção para a circulação de cortes nas redes sociais durante o encontro, que podem reforçar a percepção de vitória de um dos lados entre pessoas que não assistiram à transmissão completa. “Para dar a percepção de que, para quem não assistiu, possa ter sido muito melhor de um lado do que para o outro”, argumenta o professor, ao comentar a estratégia de publicação de trechos nas redes.

No julgamento de Mayra, Flávio foi ligeiramente melhor nas considerações finais, ao insistir na ideia de mudança e reforçar os temas de segurança e dinheiro no bolso. Lula apostou na defesa da democracia, nas mobilizações populares e em críticas às privatizações.

Fonte: Portal Terra
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