Analistas consideram que grupo xiita libanês, que é apoiado pelo Irã, sai fortalecido com o acordo preliminar de paz. Combates no sul do Líbano prosseguem mesmo com Hezbollah e Israel se comprometendo com cessar-fogo.Uma "grande vitória" e um "ponto central para o Líbano": foi assim que o líder do grupo xiita libanês Hezbollah, Naim Kassem, descreveu o memorando de entendimento que interrompeu os combates entre Irã e Estados Unidos.
Kassem também agradeceu ao Irã por "vincular a arena libanesa" ao acordo e "forçar Israel a parar sua agressão".
O Hezbollah foi fundado em 1982, com apoio do Irã, e um de seus principais objetivos na época era pôr fim à ocupação israelense do sul do Líbano. O grupo possui um braço militar e outro político e conta com o apoio de grande parte da comunidade muçulmana xiita do Líbano.
Ele desempenha um papel importante na sociedade e na política libanesa e é frequentemente descrito como um "Estado dentro do Estado" e continua se opondo a Israel.
A assinatura do acordo, na quarta-feira (17/06), por EUA e Irã não interrompeu os combates entre o Hezbollah e as forças armadas de Israel no sul do Líbano, apesar de, nesta sexta-feira, ambas as partes terem se comprometido com um cessar-fogo.
Os 60 dias de negociações entre os EUA e o Irã, durante os quais detalhes serão definidos, deveriam ter começado já nesta sexta-feira na Suíça, mas foram adiados devido à oposição iraniana aos combates no Líbano.
Mesmo com esse início conturbado, analistas dizem que o acordo em discussão favorece os iranianos.
Quão "grande" é a vitória para o Hezbollah?
"Esse memorando de entendimento praticamente dá ao Irã tudo o que queria e a Trump tudo o que ele tinha [antes de atacar o Irã, junto com Israel, em fevereiro]", afirma James M. Dorsey, especialista na região da Escola de Estudos Internacionais Rajaratnam, em Singapura. "E certamente, pelo menos no início, parece uma vitória para o Hezbollah." Mas ainda não está claro se realmente será assim, diz.
O primeiro parágrafo do memorando afirma que os EUA, o Irã e seus aliados declararão um fim "imediato e permanente" das operações militares em "todas as frentes", incluindo o Líbano.
O acordo também afirma que os dois signatários garantirão "a integridade territorial e a soberania" do Líbano.
Israel atualmente ocupa cerca de 600 quilômetros quadrados no sul do Líbano e chama isso de uma "zona de segurança" necessária para proteger os cidadãos do norte de Israel contra os disparos de foguetes do Hezbollah. Críticos de Israel afirmam que se trata de uma invasão e ocupação.
"Os iranianos, na prática, disseram que isso significa duas coisas: fim das ações militares e retirada israelense do Líbano. Portanto, o teste decisivo da posição iraniana será se Israel será ou não forçado a cumprir essas condições, e se Trump dirá a Israel: 'Você não tem escolha'", avalia Dorsey.
Se Israel se retirar, isso seria um ganho para o Hezbollah. Muitas comunidades xiitas do Líbano vivem no sul, e mais de 1 milhão de pessoas foram deslocadas pelas tropas israelenses, que também demoliram vilarejos inteiros na região.
Mais dinheiro para o Hezbollah
O memorando entre EUA e Irã também menciona bilhões em financiamento para a reconstrução do Irã, além do descongelamento de fundos iranianos e da permissão para que o país continue vendendo petróleo.
Diplomatas na região disseram à agência de notícias Reuters que o Irã indicou que enviará mais dinheiro ao Hezbollah assim que seus fundos forem liberados.
"Se a receita do petróleo iraniano for retomada sem restrições sobre para onde ela irá, a pressão externa que deveria dificultar o financiamento do Hezbollah diminui", escreveu o comentarista libanês Karim Chebaklo, que também é membro do conselho da autoridade portuária de Beirute, num artigo nesta semana.
O governo libanês vem tentando conter o Hezbollah e desarmá-lo para pôr fim aos bombardeios israelenses. O braço militar do grupo é visto como quem levou o Líbano ao atual conflito após disparar foguetes contra Israel no início de março, depois da morte do então líder supremo iraniano, Ali Khamenei, por Israel.
Mas, como Chebaklo aponta, as dificuldades financeiras do Irã eram uma das maneiras de o governo libanês pressionar o Hezbollah. Se o Irã tiver mais recursos e enviar mais dinheiro ao Hezbollah, isso adia ainda mais a questão do desarmamento do grupo, argumenta.
Israel não é signatário
Nenhuma das duas partes envolvidas nos combates no Líbano (Israel e Hezbollah) nem o governo libanês são signatários do acordo.
Para o governo libanês, o acordo faz parecer que o patrocinador do Hezbollah, o Irã, está ditando a política externa do Líbano.
No início deste ano, o governo libanês iniciou negociações diretas com Israel sobre um acordo para desarmar o Hezbollah, o que poderia facilitar a paz e uma retirada israelense. Foi o primeiro contato direto entre os dois países em mais de 30 anos. O Hezbollah se opõe fortemente a esse tipo de negociação.
Para o governo israelense, o acordo desta semana retira o que ele vê como uma oportunidade de continuar enfraquecendo o Hezbollah.
Logo após os detalhes do memorando se tornarem públicos, vários políticos israelenses disseram que suas tropas não deixariam o Líbano, apesar da crescente pressão dos EUA, principal aliado militar de Israel.
Autoridades israelenses também disseram que o país estava envolvido em negociações tensas com os EUA para permanecer no território libanês.
Cessar-fogo ou não?
"O Irã insiste que o Líbano faz parte do acordo e vimos duas vezes nas últimas semanas que, quando o Irã se posicionou em defesa do Líbano, Trump reagiu agindo contra Israel", observa Dorsey. "E o fato é que Israel não foi consultado nem participou das negociações. Tudo isso faz com que Netanyahu seja o perdedor nessa situação - dependendo de como isso se desenrolar politicamente, é claro, o que ainda está indefinido."
Mais tarde, na sexta-feira, veio a notícia de que Hezbollah e Israel haviam concordado com um cessar-fogo. No entanto, pouco depois do anúncio, novos ataques aéreos israelenses no sul do Líbano foram relatados, e um porta-voz militar afirmou que as forças israelenses mantinham "plena liberdade operacional" no Líbano.
Mesmo com as pesadas perdas de combatentes, equipamentos e até apoio político, o Hezbollah "ainda pode sair fortalecido desta guerra", avalia o jornalista Anthony Samrani, editor-chefe do jornal libanês L'Orient-Le Jour.
"Imagine um cenário em que os EUA forçam Israel a se retirar do sul como parte de um acordo final com o Irã. O Hezbollah então afirmaria que 'libertou' a região e administraria sua reconstrução conforme seus próprios interesses."
Mas o cenário mais provável, diz, "é um duplo fardo para o Líbano: uma ocupação israelense e um Hezbollah desafiador. O sul continuaria sendo um território de guerra e sofrimento e, se Beirute e Tel Aviv eventualmente chegarem a um acordo, a principal questão voltar a ser a disputa de poder entre o Estado [libanês] e a milícia [Hezbollah]."