A ausência de líderes de pesquisas em debates na TV é uma tática histórica no Brasil para evitar riscos à imagem, já que a exposição traz pouco ganho e alto potencial de perda aos favoritos. Embora legal e estratégica para as campanhas, essa prática é criticada por especialistas, pois enfraquece a democracia ao privar o eleitor do confronto direto de ideias, especialmente na era digital, em que os eventos viraram fontes de cortes virais para alimentar bolhas nas redes sociais.
Ao se ausentarem de evento na Band, Lula e Flávio repetem estratégia recorrente nas eleições brasileiras. Para especialistas, ação visa reduzir riscos à imagem, mas esvazia papel democrático dos confrontos.Em 2006, no auge de um escândalo que levou à prisão integrantes do Partido dos Trabalhadores (PT) por tentativa de compra de um dossiê falso, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva faltou ao debate promovido pela Rede Globo na véspera do primeiro turno. A emissora leu no ar a carta em que o petista justificou a ausência, alegando que o encontro viraria uma arena de agressões. A cadeira reservada ao candidato permaneceu no cenário, e os concorrentes foram autorizados a dirigir a ela as perguntas que fariam ao então presidente.
À época, em artigo sobre o tema, o pesquisador de mídia Antônio Fausto Neto argumentou que a recusa de Lula era, ela mesma, uma mensagem. A cadeira vazia virou o principal assunto da campanha, e a cobertura reforçou o enquadramento no apelido de "fujão", dado pelo então candidato da oposição e hoje vice de Lula, Geraldo Alckmin (PSB).
Neste domingo (23/08), o episódio se repetiu quando os líderes nas pesquisas, Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL), decidiram não comparecer a um debate organizado pela Band. A decisão veio depois de a emissora já ter realizado o sorteio das posições com os assessores das campanhas. Em julho, o petista já havia dito que não participaria de debates apenas para "ouvir bobagem".
Para o cientista político Rodrigo Prando, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, ao evitar um debate o candidato aposta que o efeito negativo da ausência é menor do que o da exposição. "Quem lidera as pesquisas acaba agindo de modo preventivo. Todo minuto de exposição é um risco assimétrico para aquele que vai ao debate. Pode errar, mas dificilmente ganha proporcionalmente ao que já tem", afirma.
Advogada e membro fundadora da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (Abradep), Gabriela Rollemberg também vê que a ausência responde a um cálculo de gestão de riscos. Mas "sob a perspectiva estritamente jurídica e tática, a participação em debates não é uma obrigação legal para os postulantes, o que faz com que a estratégia de contenção de danos frequentemente prevaleça", afirma.
Estratégia recorrente dos favoritos
É o que a história mostra desde os primeiros debates televisionados. Mesmo antes do efeito das redes sociais nas campanhas, tornou-se quase lugar-comum o favorito evitar o confronto.
Em 1989, por exemplo, Fernando Collor de Mello (ex-PRN), líder nas pesquisas, e Ulysses Guimarães (PMDB), faltaram ao primeiro debate televisionado do país.
No pleito seguinte, em 1994, Lula também faltou ao primeiro encontro televisivo quando liderava as pesquisas por pequena margem. Depois da virada provocada pelo Plano Real, Fernando Henrique Cardoso cresceu nas intenções de voto e passou a ser ele a recusar os convites. As emissoras cancelaram os encontros restantes, e FHC venceu no primeiro turno. Quatro anos depois, candidato à reeleição, o tucano venceu sem dividir a tela com nenhum concorrente.
Em 2010, foi a vez de Dilma Rousseff (PT) evitar diversos confrontos televisivos. Já a eleição seguinte gerou ausências por divergências sobre o formato, com o cancelamento de três debates, ainda que o modelo tenha ganhado fôlego no segundo turno. Líderes nas pesquisas, Dilma e Aécio Neves (PSDB) protagonizaram confrontos intensos.
O pleito que levou Jair Bolsonaro ao Planalto, em 2018, foi o ponto de inflexão. Esfaqueado em setembro, ele deixou de comparecer aos debates finais do primeiro turno e recusou todos os convites para confrontar Fernando Haddad (PT) no segundo. Foi a primeira vez, desde a redemocratização, em que não houve debates nessa fase.
Em 2022, o roteiro se repetiu dos dois lados. Emissoras cancelaram debates ou realizaram sabatinas individuais após desistências dos dois principais candidatos, Lula e Bolsonaro.
"O Collor em 1989, o Fernando Henrique em 1998, o Lula em 2006, o Bolsonaro em 2018, todos esses líderes, ao evitar o debate no primeiro turno, acabam tentando se resguardar, tentando se proteger", diz Rodrigo Prando. Segundo ele, o custo político da ausência tende a ser menor para esses candidatos. Enquanto para os desconhecidos a exposição é quase obrigatória, para incumbentes e líderes de pesquisa o ônus é maior.
"Existe um custo da imagem de fujão, de covarde? Sim, ele existe, mas tende a ser absorvido, especialmente quando o eleitor já decidiu o voto e essas pessoas estão na frente", argumenta.
O cálculo da ausência
Para o desafiante, o debate é a única chance de falar diretamente ao eleitorado do adversário; para o mandatário, o mesmo palco converte cada resposta em prestação de contas, dizem especialistas.
A ausência passa a ser calculada. Lula, como incumbente e principal candidato do campo progressista neste ano, tende a ser alvo preferencial dos ataques dos adversários. Ao decidir não ir ao debate, transfere o risco da exposição a Flávio, que poderia ser atacado pelos concorrentes à direita como polarizador e herdeiro do bolsonarismo.
Para Jamil Assis, diretor institucional do Instituto Sivis, organização que promove a cultura democrática, um bom desempenho do líder nas pesquisas dificilmente amplia a vantagem, enquanto um único erro pode comprometer a campanha.
"O ponto que costuma passar batido é que uma estratégia racional para o candidato pode representar uma perda para a democracia. [...] Quem lidera não disputa apenas uma vantagem nas urnas; disputa a legitimidade para governar depois delas, e essa não se conquista fugindo da exposição pública", avalia.
Gabriela Rollemberg, da Abradep, indica risco no movimento. "Para a sociedade e as instituições, a ausência dos principais nomes e a assimetria na definição dos participantes são invariavelmente ruins, pois privam o cidadão do direito de comparar propostas e perfis em condições de equidade."
Debates na era das redes sociais
Outro ingrediente do caso atual é o crescimento das redes sociais como ferramenta eleitoral. Pesquisadores concordam que os debates são momentos únicos por permitirem o confronto direto e, por isso, uma fonte de informação distinta de todas as outras. Mas sua função mudou, ganhando uma segunda vida após perder o monopólio dessa arena.
"O debate transmitido via radiodifusão deixou de ser um evento isolado para se tornar o principal fornecedor de insumos para a disputa digital", lembra Rollemberg.
Os momentos televisivos passam a acontecer duas vezes: ao vivo e fragmentados nas redes. A inversão de lógica leva candidatos a pensar mais no recorte de 30 segundos que vai viralizar do que no argumento de dois minutos ou na apresentação de um plano de governo, argumenta Prando.
Assis também avalia que as redes não substituem o debate, mas mudam seu sentido. "As plataformas fragmentam o eleitor em bolhas: cada pessoa recebe uma versão editada da campanha, sob medida para o que já pensa. O debate televisivo é um dos últimos espaços verdadeiramente comuns que restam, o momento em que o país inteiro assiste à mesma coisa, ao mesmo tempo, sob as mesmas regras e diante das mesmas perguntas", diz.
Mudança do cálculo político
O novo cenário muda o cálculo político. Não à toa, as últimas eleições viram crescer outsiders que ganham forte projeção nesses encontros e dobram a aposta no tom agressivo. Foi assim em 2022, com o padre Kelmon (PTB); em 2024, com Pablo Marçal na disputa pela Prefeitura de São Paulo, atuação que lhe rendeu uma cadeirada ao vivo de José Luiz Datena; e agora, em 2026, com Renan Santos, do Missão, assumindo a figura de acusador de Lula e Flávio.
"Ainda que o debate possa não mudar o voto diretamente, ele acaba pautando o noticiário nos dias seguintes. Ele fornece, especialmente nos dias que correm, os cortes, memes, bordões, gafes e respostas mais agressivas que circulam além dos noticiários, nas redes sociais", diz Prando.
Não à toa, segundo a Folha de S.Paulo, a campanha de Lula teria se irritado com o convite feito a candidatos com baixa intenção de voto, como Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo), embora este último também não tenha comparecido. Flávio, por sua vez, condicionou a presença à de Lula.
Analistas das campanhas avaliam, porém, que a ausência pode pesar mais para o senador, mais desconhecido do eleitorado e que ainda precisa alcançar o presidente nas pesquisas.
"É verdade que, numa sociedade tão polarizada, dificilmente um debate transfere votos de um campo para o outro. Mas julgar o debate só pela conversão de votos é enxergá-lo pela lógica estreita da campanha", diz Jamil Assis. "Num ambiente digital que fragmenta o eleitor e entrega a cada um uma versão editada da disputa, o debate se torna uma das raras oportunidades que um candidato tem de falar diretamente também para quem jamais lhe dará o voto; não para convertê-lo, mas para convencê-lo de que seu projeto não existe apenas para a própria base."
O modelo brasileiro e as comparações internacionais
O formato brasileiro é herdeiro direto dos debates que ganharam notoriedade após o encontro entre John Kennedy e Richard Nixon na TV americana, em 1960. O Brasil importou a estética do confronto frente a frente em estúdio, com blocos cronometrados, mas não a arquitetura institucional.
Nos Estados Unidos, a participação possui datas e locais fixos previamente organizados, em vez de distribuídos por dezenas de compromissos negociados caso a caso. Não há obrigação legal, mas se instituiu como norma social.
Para os brasileiros, onde também não há obrigação de comparecer, a ausência é mais barata porque o número de competidores é maior. O roteiro de Collor em 1989 e de Lula em 2006 foi justamente o de deixar o confronto para o segundo turno, quando ele é inevitavelmente bilateral.
Mais perto, a Argentina tornou-se o contraponto institucional ao caso brasileiro. O país obriga a participação em debates presidenciais, depois de décadas em que os encontros eram sistematicamente esvaziados. A aprovação da lei no tema veio em 2015, após enorme pressão da sociedade civil.
Debate e democracia
Em nota divulgada antes do debate, a Rede Pacto pela Democracia, que reúne 17 organizações signatárias, como o Sivis, defendeu os encontros televisivos.
"Em um cenário político cada vez mais fragmentado, os debates televisionados são espaços excepcionais de encontro entre posições distintas e, por isso, carregam um importante simbolismo: a reunião de projetos e ideologias diferentes em um mesmo espaço reafirma a possibilidade de convivência democrática e de respeito à divergência", diz o texto.
Para Jamil Assis, do Sivis, a ausência dos principais candidatos esvazia a função essencial do debate, que é a comparação. "A cultura democrática se sustenta justamente nesses espaços de confronto aberto de ideias. Quando eles se esvaziam, a eleição continua elegendo, mas deixa de convencer. E um país profundamente dividido precisa das duas coisas."
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