Piratas somalis ressurgem após guerra no Irã desviar navios

11 mai 2026 - 16h26

Ao menos três navios foram sequestrados na costa da Somália nas últimas semanas. Fechamento do Estreito de Ormuz tem levado embarcações a usarem outras rotas marítimas - aumentando o risco de serem vítimas de piratas.Já são dois meses de tensão para o transporte marítimo global, com o Estreito de Ormuz praticamente fechado e a ameaça de ataques a embarcações no Mar Vermelho. Agora, uma terceira crise está se formando: o ressurgimento da pirataria somali.

Polícia somali patrulha costa do país, que registrou casos recentes de sequestro de navios
Polícia somali patrulha costa do país, que registrou casos recentes de sequestro de navios
Foto: DW / Deutsche Welle

Mesmo antes das mais recentes escaladas entre Estados Unidos, Israel e Irã, cerca de metade dos navios com destino à Europa a partir da Ásia e do Golfo Pérsico já vinha evitando o Mar Vermelho e o Canal de Suez, devido a ataques anteriores de rebeldes houthis do Iêmen, aliados do Irã.

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Diante da ameaça de ataques na região do estreito de Bab el-Mandeb, a passagem entre o Mar Vermelho e o Golfo de Áden, grandes empresas de navegação optaram por um longo desvio ao redor do sul da África.

Esse desvio acrescenta de duas a três semanas e milhares de milhas náuticas à viagem, levando os navios a passar bem perto da costa da Somália, onde piratas praticaram uma onda de sequestros ao longo de vários anos, que atingiu seu pico em 2011. Desde então, incidentes esporádicos vêm sendo registrados.

Pirataria faz um retorno preocupante

Esse trecho do mar agora assiste ao retorno da pirataria com força total, com três navios sequestrados ao longo da Somália e do vizinho Iêmen apenas nas últimas três semanas. Até 8 de maio de 2026, os petroleiros Honour 25 e Eureka e o cargueiro Sward permaneciam sob o controle de piratas.

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Especialistas acreditam que grupos do crime organizado na Somália estão se aproveitando da guerra no Irã para sequestrar navios, enquanto as patrulhas navais internacionais, inicialmente mobilizadas em 2008 para combater a pirataria, estão sobrecarregadas pelos acontecimentos atuais em Ormuz e no Mar Vermelho.

Segundo Tim Walker, pesquisador sênior de ameaças transnacionais e crime organizado do Instituto de Estudos de Segurança da África do Sul, os piratas agora percebem menos fatores de dissuasão ao longo dos 3.300 quilômetros de litoral da Somália, o mais extenso de toda a África continental.

"Alguns grupos, organizados por líderes da pirataria, agora buscam apreender embarcações e mantê-las sequestradas, junto com suas tripulações, às vezes exigindo resgates elevados para a libertação em segurança", afirma Walker.

Piratas bem financiados usam veleiros

Segundo a Lloyd's List Intelligence, empresa de dados marítimos, existem ao menos dois grupos de piratas ativos, com base principalmente em Puntland, uma região semiautônoma no nordeste da Somália. Eles parecem contar com muitos recursos financeiros.

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Os piratas apreenderam grandes embarcações tradicionais conhecidas como dhows, uma espécie de veleiro usado para pesca e comércio local, que são reaproveitadas como navios-mãe. Isso permite ampliar o alcance das operações e permanecer no mar por semanas, usando essas embarcações como plataformas de lançamento para atacar navios comerciais.

"Alguns dos sequestros mais recentes envolveram grandes dhows, que exigem equipamentos de navegação, armas e material para abordagem", conta Troels Burchall Henningsen, professor assistente do Instituto de Estudos de Estratégia e Guerra da Dinamarca. "É uma operação de grande porte, que exige investimento."

"Há muito mais navios na região, e alguns não estão adotando as melhores medidas de segurança", acrescenta Walker, ao descrever como um petroleiro que seguia para Mogadíscio foi sequestrado perto da costa somali, onde estava mais vulnerável.

Aumento dos custos do transporte marítimo

Com os conflitos no Oriente Médio já pressionando os valores do seguro marítimo, acrescentando cerca de 1 milhão de dólares em custos de combustível por viagem e fazendo as tarifas de frete dispararem, líderes do setor alertam que um grande ressurgimento da pirataria pode aumentar ainda mais os custos e causar novas perturbações no comércio global.

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No auge da crise da pirataria anterior, em 2011, os prejuízos econômicos causados pelos sequestros foram estimados em cerca de 7 bilhões de dólares por ano, segundo a Fundação Sasakawa para a Paz, um think tank japonês.

Esse valor incluía custos com operações militares, rotas alternativas, aumento da velocidade de navegação, que consome mais combustível, equipamentos adicionais de segurança e guardas armados a bordo.

Apenas uma parcela mínima do custo total, cerca de 160 milhões de dólares, foi paga em resgates, calculou o think tank.

Corte de recursos para a Somália

Embora a guerra envolvendo o Irã tenha criado uma distração útil para os piratas, uma mudança na política de Washington em relação ao Leste da África também pode ter contribuído para o ressurgimento da pirataria.

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Durante anos, os Estados Unidos financiaram projetos de desenvolvimento na Somália, especialmente em comunidades costeiras, para reduzir a pobreza e impedir que jovens se juntassem a grupos de piratas.

Sob o atual governo de Donald Trump, no entanto, quase toda a ajuda ao desenvolvimento não relacionada à segurança foi suspensa. Washington passou a priorizar operações diretas de contraterrorismo contra o grupo islamista armado al-Shabab.

"Quando esses recursos são reduzidos, a rede de inteligência e as patrulhas marítimas deixam de ter a mesma capacidade operacional", lamentou Burchall Henningsen.

Organizações marítimas, por sua vez, aconselharam empresas de navegação a evitar águas territoriais somalis, incluindo portos. O emprego de uma segurança armada a bordo também é considerado altamente eficaz contra ataques de piratas. "Nunca houve um sequestro bem-sucedido de um navio [ao longo da Somália] com guardas armados a bordo", acrescentou Burchall Henningsen.

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