Pela primeira vez, redes sociais superam TV no consumo de informação política e desafiam campanhas

A comunicação política vive um estágio de transição tecnológica. Embora a inflexão para as redes sociais seja uma tendência, a comunicação eleitoral ainda será desafiada a dialogar com o modelo híbrido, no qual o analógico e o digital fazem parte das preferências de um número ainda significativo de brasileiros.

21 jan 2026 - 14h13
Ilustração gerada por IA, via Envato Labs, CC BY
Ilustração gerada por IA, via Envato Labs, CC BY
Foto: The Conversation

A última pesquisa do instituto Quaest, divulgada em janeiro de 2026, trouxe um dado pouco observado nas análises que se seguiram ao levantamento. A menos que seja um erro estatístico, o instituto mostrou uma mudança nos hábitos de consumo de informação sobre política entre os brasileiros.

Em dezembro passado, 35% dos entrevistados afirmavam que se informavam pela TV, mesma proporção daqueles que utilizavam redes sociais. Agora, 39% dos brasileiros disseram que se informam pelas redes, percentual superior ao da TV, que registrou 34%.

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Em toda a série da Quaest iniciada em maio de 2024, a TV sempre liderou como meio preferencial de informação. Algumas vezes esses dois meios ficaram praticamente empatados na margem de erro, mas agora algo parece ter mudado. Com as próximas rodadas, poderemos verificar se foi apenas uma inflexão aleatória ou um novo padrão que está se consolidando no Brasil.

De todo modo, veja como esses hábitos de consumo de informação importam, em especial em um ano eleitoral com forças políticas também se adaptando às novas linguagens e meios de produção de conteúdo.

Quando perguntados se veem notícias mais positivas ou mais negativas sobre o governo Lula, a série iniciada em dezembro de 2024 mostra uma proporção maior de respostas de notícias "mais negativas" do que notícias "mais positivas".

Percepção ideológica

A percepção das notícias muda quando consideramos as preferências dos eleitores. Os "Lulistas" e a "Esquerda não lulista" apresentam proporções maiores de notícias positivas (de 62% a 54%) do que negativas.

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O ponto de virada ocorre entre os eleitores "Independentes", grupo que considera que as notícias são mais negativas do que positivas (45% x 19%). Essa percepção é ainda mais intensa entre eleitores da "Direita não bolsonarista" e "Bolsonaristas". Entre os "Bolsonaristas", 76% afirmam ver notícias mais negativas sobre o governo Lula.

O comportamento e a percepção desses dois grandes grupos são conhecidos na Ciência Política: eleitores tendem a "ver" o mundo segundo suas preferências e ideologia. Em um mundo de abundância informativa, esse comportamento fica ainda mais evidente.

Os meios digitais ampliaram a oferta de conteúdos e canais que estimulam o consumo hipersegmentado. Os eleitores buscam informações com as quais tendem a concordar, criando um círculo vicioso em que a posição política é reforçada, gerando um enrijecimento das preferências. O efeito disso é que há menos chances de um candidato mobilizar os eleitores para escolhas políticas diferentes.

Mapa do consumo da informação política

Ao reunir os eleitores que preferem a TV (tradicionais) e aqueles classificados como digitais (redes, sites e portais), podemos verificar que o campo à direita está mais bem posicionado na escala digital que a esquerda. Os "Lulistas" ocupam a posição no alto do eixo vertical, com uma maior preferência pela TV.

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No centro do gráfico, figuram os eleitores "Independentes", a "Esquerda não lulista" e os "Bolsonaristas", segmentos que oscilam entre hábitos de consumo levemente tradicionais e digitais.

Essa distribuição sugere que a comunicação política no Brasil vive um estágio de transição tecnológica. Embora a inflexão para as redes sociais seja uma tendência em consolidação, a comunicação eleitoral de 2026 ainda será desafiada a dialogar com o modelo híbrido, no qual o analógico e o digital fazem parte das preferências de um número ainda significativo de brasileiros.

Nesse cenário, a opção pela hipersegmentação digital não seria sinônimo de efeito garantido: se ela funciona entre grupos já posicionados, terá que considerar igualmente a multiplicidade de canais à disposição de uma parte expressiva de eleitores que são digitais (Independentes, Esquerda Não Lulista, Bolsonaristas), mas nem tanto. Que são, muitos deles, posicionados ideologicamente (Bolsonaristas e Esquerda Não Lulista), mas também com níveis menos consolidados de preferência ideológica (Independentes).

The Conversation
Foto: The Conversation

Fábio Vasconcellos não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

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Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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