Em 4 de julho de 2026, os Estados Unidos completam 250 anos de independência. Os preparativos para a grande comemoração seguem seu curso, com eventos previstos para acontecer em todo país, ao longo do ano. O calendário inclui celebrações em lugares simbólicos e turísticos - como o National Mall, em Washington, D.C.; e a Times Square, na cidade de Nova York - e atividades regionais, comunitárias, esportivas e culturais.
Essas festividades são promovidas pelo governo federal, em colaboração com a iniciativa de natureza público-privada "Freedom 250", e também por meio de parcerias entre os governos locais e estaduais, instituições culturais, entidades da sociedade civil e a organização "America 250".
Em datas como essa, relacionadas com o resgate e/ou reforço da identidade nacional, é fundamental distinguir temática, formato, objetivos e linguagem dos eventos e, do mesmo modo, por quais indivíduos e organizações eles foram decididos. Em seu conjunto, essas informações ajudam a delimitar agendas e interesses políticos nem sempre visíveis e a identificar os caminhos pelos quais se tenta atropelar a história com a moldagem das memórias.
Por que isso importa? Porque, como afirma o historiador francês Pierre Nora no ensaio de 1989 Between Memory and History: Les Lieux de Mémoire, diferentemente da história, que requer método, pluralidade de fontes e distanciamento crítico, a memória é seletiva, política, afetiva e pode ser manipulada e esquecida. Com o passado sendo intensamente recuperado no presente da atual administração de Donald Trump como promessa de futuro - sobretudo, para a manutenção da lealdade eleitoral e ideológica ao movimento MAGA -, observar as escolhas oficiais para a data ganha ainda mais relevância.
Após leitura da lista de atividades, percebe-se uma clara diferença na natureza dos eventos relacionados com a "Freedom 250" e com a "America 250", como veremos a seguir. Esses modos distintos de abordar e usar a efeméride no debate público nos ajudam a entender o uso político do passado, por parte do Estado, em momentos comemorativos.
Freedom 250 vs. America 250
A "Freedom 250" foi lançada em 2025 pelo presidente Donald Trump. Segundo informação institucional, é "a organização nacional e apartidária que lidera as comemorações". Trabalha com a Força-Tarefa 250, da Casa Branca - criada em 29 de janeiro pela Ordem Executiva 14189, intitulada "Comemorando o 250º aniversário da América" - e com demais agências do governo para "honrar a história de orgulho da nossa nação, valorizar as liberdades que Deus nos concedeu e construir a Era de Ouro das Oportunidades para os próximos 250 anos". Funciona como o braço de execução e financiamento de propostas dessa força-tarefa.
Até o momento, não há números públicos oficiais consolidados sobre o total arrecadado pela Freedom 250, gastos, doadores privados e potenciais conflitos de interesse. A falta de transparência no processo de captação e de destinação dos recursos tem sido alvo de duras críticas. Além disso, de acordo com ONGs, como Public Citizen e Public Employees for Environmental Responsibility, e veículos da imprensa americana, como o jornal The New York Times, as doações estariam sendo usadas como venda de acesso a Donald Trump, com risco potencial de desvio de fundos de contribuintes para agendas partidárias, não relacionadas com as celebrações da efeméride. Divididas em "pacotes de patrocínio", com diferentes valores e benefícios agregados, elas começam em US$ 500 mil e vão até US$ 10 milhões em diante. Maiores doações garantem os melhores lugares, nos melhores eventos, na presença do presidente.
Aqui, a ênfase está na celebração do "espírito americano", da grandeza e das conquistas do país. É um calendário que mobiliza fé e virilidade, prioriza grandiosos eventos públicos e jogos patrióticos, hiperbólicos espetáculos de natureza emocional e competitiva para exibição do orgulho nacional. Prevalece o olhar positivo e generoso de uma história linear e vitoriosa. Sem espaço para reflexões críticas e para o dissenso, não há palco para os grupos historicamente marginalizados e oprimidos, nem para denúncias sobre os custos sociais e humanos dessa trajetória.
Entre os eventos organizados por essa rede, trazemos alguns que acontecerão em Washington, D.C.: "Uma Nação Sob Deus: Encontro Nacional de Oração", em maio, no National Mall; "Luta do UFC na Casa Branca", em junho; "Fogos de artifício em homenagem à América", no 4 de Julho; e "Freedom 250 Grand Prix", da IndyCar Series, nas ruas da capital do país, em agosto.
De caráter formal, a criação da "America 250" foi bem diferente e tem resultado em uma abordagem narrativa mais diversa. Essa iniciativa bipartidária é liderada pela Comissão do Semiquincentenário dos Estados Unidos, instituída pelo Congresso em 2016, último ano do segundo mandato do democrata Barack Obama.
A "America 250" investe em atividades educacionais e culturais, com extensa participação de museus e eventos promotores de reflexão histórica; e em engajamento cívico e simbólico no sentido mais amplo, com participação comunitária institucionalizada e voluntariado, nem sempre com lugares físicos pré-determinados.
Entre os eventos patrocinados pela organização, estão a "America Waves", uma iniciativa prevista para acontecer ao longo do verão (inverno no Brasil) e que pede a cada americano que agite uma bandeira "patrioticamente", onde estiver; a "Cápsula do Tempo America 250", que prevê o enterro desse artefato projetado pelo arquiteto Norman Foster, sob o Washington Monument Plaza, em 2 de julho, com reabertura programada apenas para o Quincentenário, em 2276; e "A maior festa de rua da América", no 4 de Julho, que pretende estimular os americanos a celebrarem com a sua comunidade.
Uma palavra, uma ideia
Outro aspecto que não pode passar despercebido, pois nada tem de aleatório, é o próprio nome da organização criada por Trump. Porque não estamos falando de "Liberty 250", ou de "Democracy 250" - e isso faz toda a diferença. Ainda que, em português, "freedom" e "liberty" tenham o mesmo significado ("liberdade"), seus usos no idioma original não são intercambiáveis.
Normalmente associada ao direito individual sem mediação institucional (sobretudo, governos), à independência nacional e à ausência de interferência externa, "freedom" é um termo mais emocional e popular. Funciona bem (e assim tem sido amplamente usado pelo trumpismo) como slogan político para adornar a Doutrina MAGA.
O termo subentende ainda um descompromisso em relação a instituições, regras e procedimentos democráticos e uma "autoconcedida" autonomia em relação ao Estado, às elites, às liberdades dos demais. É uma liberdade "mais pessoal" e autorreferente, e não uma construção coletiva.
"Liberty" traz, por sua vez, um peso mais jurídico e constitucional, que remete ao Estado de direito, a garantias legais e a limites institucionais ao poder. Não precisa de muito esforço para perceber sua incongruência com o modus operandi da administração atual.
O mesmo vale para "Democracy", conceito político que não conversa com um governo que tenta controlar a narrativa histórica e não tem a preservação de direitos como agenda. Para além disso, é bom lembrar que, em sua fundação, os líderes da nova nação rejeitaram, deliberadamente, a democracia direta, então associada à instabilidade e à tirania da maioria. O que surge é uma república, com representação extremamente restrita (homens brancos proprietários) e inúmeros diques entre o povo e o poder, em um contexto de escravidão e de mulheres sem voto e sem voz.
Ao insistir em uma leitura seletiva e celebrar uma liberdade desprovida de conflito, o próprio nome "Freedom 250" antecipa e cristaliza a interpretação oficial do passado que o governo Trump 2.0 pretende consagrar.
Tatiana Teixeira não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.