O empresário russo-americano Konstantin Sokolov assumiu o comando de um fundo de US$ 200 milhões do Departamento de Estado dos EUA para financiar infraestrutura no Cáucaso e na Ásia Central. O foco é viabilizar a "Rota Trump", corredor comercial desenhado para contornar a Rússia e o Irã. Aliado de Donald Trump, Sokolov expande sua presença em telecomunicações e mineração na Armênia, assumindo ativos ligados a empresas russas, o que desperta forte debate político no país.
Empresário chefia fundo de US$ 200 milhões do Departamento de Estado dos EUA para projetos de infraestrutura na região. Meta é contornar rotas comerciais que dependam da Rússia e do Irã.Há pouco tempo, o empresário russo-americano Konstantin Sokolov, de 52 anos, era praticamente desconhecido no Cáucaso do Sul - ou Transcaucásia, que engloba os países Geórgia, Armênia e Azerbaijão.
Nos últimos meses, porém, o interesse pela trajetória de Sokolov cresceu significativamente. Em meados de julho, o empresário, que emigrou da Rússia para os Estados Unidos aos 21 anos e fundou em Chicago a firma de investimentos IJS Investments, foi nomeado para chefiar um novo fundo de investimentos do Departamento de Estado dos Estados Unidos.
O fundo, registrado nos EUA como Trans-Caspian Enterprise Fund (TRIPP+), dispõe de um capital inicial superior a 200 milhões de dólares (cerca de R$ 1 bilhão). Seu objetivo é investir nos países do Cáucaso do Sul e da Ásia Central e contribuir para o financiamento do grande projeto de infraestrutura TRIPP, também conhecido como "Rota Trump".
A "Rota Trump" é um corredor de transporte destinado a ligar o Azerbaijão ao seu enclave autônomo de Nakhchivan através do território armênio. O ambicioso projeto faz parte do acordo de paz assinado por Baku e Erevan sob mediação americana em agosto de 2025. No início de junho, EUA e Armênia assinaram um acordo-quadro de cooperação para o projeto.
Segundo especialistas, a construção da "Rota Trump" se encaixa na estratégia de Washington de criar um corredor comercial entre a Europa e essa região que contorne as rotas existentes através da Rússia ou do Irã.
Aquisição de ativos russos na Armênia
Muito antes de ser nomeado diretor do TRIPP+, Konstantin Sokolov já havia entrado no mercado armênio. Em 2024, ele assumiu o controle da Viva Armenia, a maior operadora de telecomunicações do país. Apesar da posterior nacionalização parcial estratégica da empresa, ele continuou expandindo seus negócios. Recentemente, empresas ligadas a Sokolov também adquiriram a subsidiária armênia do grupo russo Rostelecom, do mesmo ramo.
Outra operação ainda mais importante, realizada de forma discreta, foi a compra da jazida de cobre e molibdênio de Teghut. A mina, que possui as segundas maiores reservas da Armênia, com cerca de 450 milhões de toneladas de minério, havia passado para o controle do banco estatal russo VTB devido a enormes dívidas. Atualmente, o VTB está sujeito a sanções ocidentais.
Segundo o serviço armênio da Radio Free Europe/Radio Liberty, o negócio foi realizado por meio de uma empresa intermediária. "Sokolov queria evitar um acordo direto com o banco russo", explica Mkrtich Karapetyan, jornalista da Radio Liberty que acompanha o fluxo de capital estrangeiro para a Armênia.
Apoiadores e críticos do projeto TRIPP+
Enquanto o governo armênio e seus apoiadores veem com bons olhos a entrada de capital ocidental em projetos de infraestrutura, a oposição enxerga riscos significativos.
O principal crítico é Mesrop Manukyan, deputado da aliança oposicionista "Armênia", que atacou duramente Sokolov no Parlamento. Para ele, é preocupante que um investidor americano tenha conseguido adquirir, em poucos anos, participações importantes nos setores financeiro, de mineração e de telecomunicações do país.
Seu bloco político, que defende laços estreitos entre a Armênia e a Rússia, se opõe ao projeto TRIPP+. A aliança considera a "Rota Trump" um "corredor extraterritorial" disfarçado e a "maior ameaça" à segurança da Armênia.
Apoiador de Trump
Apesar de suas amplas atividades empresariais, Sokolov continua sendo uma figura pouco conhecida pelo público armênio. Não existem fotos oficiais dele e, durante viagens de negócios, ele geralmente evita conceder entrevistas à imprensa local.
Sua visita mais recente a Erevan ocorreu no início de agosto. Na ocasião, reuniu-se com o primeiro-ministro Nikol Pashinyan e com o chanceler Ararat Mirzoyan. Ele estava acompanhado de Aryeh Lightstone, principal assessor do enviado especial dos EUA para missões de paz, Steve Witkoff.
Nos meios de comunicação ocidentais, porém, Sokolov é bem mais conhecido. Além de seus projetos empresariais nos Estados Unidos e na Suíça, ele se destaca por seu engajamento político.
O empresário é um importante financiador do Partido Republicano nos EUA e apoiador do presidente Donald Trump, tendo doado em um ano cerca de 11 milhões de dólares ao movimento trumpista Maga.
Acerto entre Moscou e Washington?
Para Benyamin Poghosyan, do think tank armênio APRI, existem principalmente duas razões para a nomeação de Sokolov à frente do TRIPP+. A primeira é política: a escolha de um americano de origem russa poderia ser "um gesto sutil de Washington para reduzir as críticas intensas de Moscou ao projeto".
A segunda razão seria pragmática. "Talvez a Rússia nem tenha relação com isso. Sokolov pode simplesmente ter sido escolhido porque compreende profundamente o ambiente de negócios do antigo espaço soviético e conhece bem a Armênia e o funcionamento de seu aparelho estatal", afirma o especialista.
O volume dos investimentos e as origens russas do empresário alimentam especulações na Armênia. Nas redes sociais, especula-se que a escolha de Sokolov, nascido em São Petersburgo, se deveria a um acordo secreto entre Moscou e Washington. Defensores dessa tese apontam para a facilidade com que empresas americanas assumiram ativos anteriormente controlados por grupos russos afetados pelas sanções ocidentais.
Outros rejeitam essa interpretação, destacando que Sokolov criticou publicamente o governo russo e a guerra contra a Ucrânia. Para esse segundo grupo, os recursos disponibilizados pelo Departamento de Estado dos EUA para o fundo, com vigência até 2036, seriam uma demonstração das ambições estratégicas de longo prazo de Washington na região.
Durante visita a Erevan, Aryeh Lightstone declarou ao canal armênio CivilNet que os mais de 200 milhões de dólares previstos representam apenas o valor mínimo dos investimentos pretendidos.
Também Aram Sargsyan, líder do Partido Republicano da Armênia e aliado do primeiro-ministro Nikol Pashinyan, rejeita a ideia de que a nomeação de Sokolov seja fruto de um acordo com Moscou. Ele destaca a trajetória do empresário e vê sua experiência como uma oportunidade, não como motivo de preocupação.
"Sokolov possui contatos empresariais importantes, compreende perfeitamente a mentalidade russa, fala o idioma e sabe como lidar com as estruturas relevantes da Rússia", afirmou o político.
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