O que se sabe sobre os laços de Toffoli com o caso Master

12 fev 2026 - 09h05
(atualizado às 11h44)

Celular de dono do banco teria mensagens citando ministro, que é relator do caso no STF. Relatório da PF aprofunda questionamentos sobre a sua conduta.O ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), é citado em conversas no celular do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, de acordo com relatório da Polícia Federal (PF). Liquidado pelo Banco Central no ano passado, o Master é investigado pela suposta emissão de R$ 12 bilhões em títulos falsos, no que o governo federal afirma que pode ser " a maior fraude bancária" da história do Brasil.

Ministro Dias Toffoli é relator do caso Master do Supremo Tribunal Federal, que corre em segredo de Justiça sob sua determinação
Ministro Dias Toffoli é relator do caso Master do Supremo Tribunal Federal, que corre em segredo de Justiça sob sua determinação
Foto: DW / Deutsche Welle

O caso corre no STF, em vez de na Justiça comum, por decisão de Toffoli. O juiz argumentou que estão envolvidas autoridades que se beneficiam de foro privilegiado, razão pela qual também decretou o segredo de Justiça.

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A PF apreendeu o celular de Vorcaro na Operação Compliance Zero, e a menção a Toffoli tende a aprofundar os questionamentos sobre as suas supostas relações com o Banco Master. Na quarta-feira (11/02), o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, entregou ao ministro Edson Fachin, atual presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), o relatório sobre dados do celular do banqueiro.

De acordo com o jornal Folha de S.Paulo, as mensagens fariam menção ao pagamento pela compra de um resort, do qual uma empresa de Toffoli era sócia. Haveria também mensagens de Vorcaro para Toffoli. Segundo uma fonte ouvida pelo jornal, os dois estariam marcando um encontro.

A PF estaria investigando o repasse de dinheiro a Toffoli por uma empresa chamada Maridt, que vendera em 2021 a sua participação no resort Tayayá, localizado no Paraná, para um fundo ligado ao Banco Master.

Em resposta, o gabinete de Toffoli negou nesta quinta-feira (12/02) que ele tenha qualquer relação pessoal ou financeira com Vorcaro. Além disso, afirmou que o ministro é sócio da Maridt, bem como seus irmãos, sendo parentes responsáveis pela administração da empresa. Uma primeira nota já havia chamado de "ilações" as menções ao seu nome pela PF.

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Questionamentos crescentes

A imprensa já revelara a venda da participação no Tayayá pela família de Toffoli a um cunhado de Vorcaro por cerca de R$ 6,6 milhões. Depois disso, o juiz continuou a frequentar semanalmente o complexo turístico, onde é proprietário de uma casa.

Os questionamentos sobre a atuação do ministro começaram poucos dias antes de ele assumir a investigação do caso, depois que Toffoli esteve no mesmo avião privado que um dos advogados do Banco Master.

As críticas se intensificaram após a tomada de decisões incomuns, como o envio de provas ao STF, e não aos órgãos de investigação, e uma acareação marcada antes da coleta de depoimentos. Em nota, a Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal disse que a condução judicial do caso é "atípica" e afronta as prerrogativas conferidas à corporação.

Uma eventual suspeição de Toffoli exigiria a sua saída da relatoria do caso Master no STF. Segundo a jornalista Andréia Sadi, da Globonews, o assunto já ventilaria no tribunal, com outros ministros considerando inviável a permanência de Toffoli no posto de relator.

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Esses fatos acabaram deixando em segundo plano outro vínculo indireto com o caso envolvendo um ministro do STF: a existência de um contrato entre o Master e a advogada Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes, para prestação de serviços jurídicos, por R$ 3,6 milhões mensais. A informação foi divulgada pelo jornal O Globo e não contestada pelos envolvidos.

Outro ex-membro do STF que prestou serviço para o banco Master é Ricardo Lewandowski. O contrato com o escritório da família do ex-ministro vigorou do início de 2023 a agosto de 2025, período em que ele atuou como ministro da Justiça de Lula.

Lewandowski diz que se desligou do contrato ao assumir o Ministério da Justiça, mas a mulher e o filho do ministro seguiram atuando em favor do banco de Vorcaro.

Cronologia do caso Master e Toffoli

17/11/25: Vorcaro, Luiz Antonio Bull, então diretor de compliance do Master, e outras três pessoas são presas pela Polícia Federal na primeira fase da Operação Compliance Zero.

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18/11/25: Banco Central decreta a liquidação extrajudicial do Banco Master.

28/11/25: Defesa de Vorcaro recorre para que o inquérito tramite no STF, sob o argumento de que havia uma menção ao deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA), que tem foro privilegiado. Caso cai sob a relatoria de Dias Toffoli.

29/11/25: Toffoli viaja num jatinho do empresário e ex-senador Luiz Oswaldo Pastore, no qual também estava o advogado Augusto Arruda Botelho, que defende Bull, para assistir à final da Libertadores entre Palmeiras e Flamengo em Lima, no Peru. No mesmo dia, Vorcaro e Bull são soltos por liminar do Tribunal Regional Federal da 1ª Região.

02/12/25: Toffoli decreta um alto grau de sigilo sobre o caso do Banco Master em análise no STF.

03/12/25: Toffoli determina que todas as diligências da Operação Compliance Zero relacionadas ao Banco Master sejam remetidas a ele.

24/12/25: Toffoli marca uma acareação entre Vorcaro, Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, que havia manifestado interesse em comprar o Banco Master, e o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino Santos. Decisão provoca estranhamento no meio jurídico e no BC, já que acareações costumam ser propostas após a coleta de depoimentos, o que ainda não havia ocorrido, e por envolver um diretor do BC. Após a autarquia reclamar que Santos poderia ser colocado numa "armadilha processual", Toffoli dispensa o diretor da acareação.

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14/01/26: PF deflagra segunda fase da Operação Compliance Zero, prende Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, e realiza buscas contra o empresário Nelson Tanure. Toffoli determina que todas as provas colhidas sejam lacradas e enviadas ao STF, algo incomum em operações do tipo. Após pedido da Procuradoria-Geral da República, ministro autoriza que as provas sejam encaminhadas ao Ministério Público.

16/01/26: Jornal O Estado de S. Paulo publica reportagem afirmando que Zettel era o único dono dos fundos de investimento que compraram em 2021 parte da participação de dois irmãos e de um primo de Toffoli no resort Tayayá, no Paraná. Os fundos eram vinculados à gestora Reag, também liquidada pelo Banco Central.

22/01/26: Após a intensificação das críticas à relatoria de Toffoli, Fachin interrompe suas férias e divulga uma nota oficial em defesa da atuação do STF, da Polícia Federal e do Ministério Público no caso.

11/02/26: A Polícia Federal entrega um relatório sobre dados obtidos no celular de Volcaro a Fachin, com mensagens citando Toffoli.

12/02/26: Toffoli nega que tenha qualquer relação pessoal ou financeira com Vorcaro e admite que é sócio da Maridt, mas afirma que a parentes são responsáveis pela administração da empresa.

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Como funcionava o Banco Master?

O Banco Master é uma instituição financeira que também atuava como corretora de investimentos. Ele ficou conhecido nos últimos anos por adotar uma política agressiva para captar recursos, oferecendo rendimentos de até 140% do Certificado de Depósito Bancário (CDI) para quem compra papéis da instituição financeira. Essa era uma promessa de ganhos superiores às taxas médias para bancos pequenos - em torno de 110% a 120% do CDI.

Segundo os investigadores, o banco passou a assumir riscos excessivos para sustentar este modelo e a intensa demanda de 1,6 milhão de clientes acumulados no período, enquanto a liquidez real (dinheiro imediatamente disponível para ressarcir os investidores) se deteriorava.

Os primeiros sinais de problemas de caixa do Master surgiram entre 2023 e 2024, quando o banco passou a buscar alternativas para preservar a saúde de seus balancetes. Nesse período, o conglomerado teria movimentado valores bilionários por meio de triangulações. Na prática, financiava a si mesmo, fazendo o dinheiro circular por diversos fundos de investimento antes de retornar ao próprio banco, afirma o Banco Central.

O escândalo estourou em setembro de 2025, quando a compra do Master pelo Banco Regional de Brasília foi barrada pelo Banco Central, apesar da aprovação prévia do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), o órgão anticartel brasileiro, e da Câmara do Distrito Federal.

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Na ocasião, a autoridade monetária alegou falta de documentos que comprovassem a "viabilidade econômica" da operação. Em despacho sigiloso obtido pela imprensa, o BC justificou a decisão diante de riscos elevados e inconsistências nos ativos do Master, incompatíveis com o perfil do BRB. A operação formaria um conglomerado de cerca de R$ 100 bilhões em ativos.

Quando teve sua operação encerrada pelo Banco Central, o Banco Master, com R$ 80 bilhões em ativos, tinha apenas R$ 4 milhões em caixa. O valor é drasticamente inferior ao necessário para a liquidez de um conglomerado de médio porte.

A baixa liquidez, ou seja, a incapacidade de pagar seus credores, foi justamente a justificativa dada pelo BC para determinar a liquidação do banco controlado por Vorcaro. Investigações da autarquia e da PF sugerem que o conglomerado teria fraudado títulos e supervalorizado ativos para simular a capacidade de honrar seus compromissos.

ht/cn (Lusa, ots)

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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