O que carros de filmes futuristas revelam sobre nossos desejos e medos?

Em entrevista ao programa De Carona com JC, o escritor Ale Santos fala sobre como filmes e livros de ficção científica transformam os carros em símbolos de desejos, medos e possibilidades para o futuro da mobilidade

7 nov 2026 - 09h12
Resumo
Carros da ficção científica refletem o fascínio e o receio humanos diante do progresso tecnológico. Enquanto inovações como os veículos voadores aproximam a fantasia da realidade, o escritor Ale Santos defende cautela sobre a viabilidade e o impacto social dessas promessas. Em suas obras afrofuturistas, ele retrata automóveis com personalidade e reforça o valor da emoção de dirigir, mostrando que a ficção não apenas antecipa o futuro, mas molda nossa relação com as máquinas que criamos.

Uma das minhas memórias mais gostosas da infância envolve um carro falante. Aliás, falante é pouco. K.I.T.T. era, literalmente, uma supermáquina. O Pontiac Firebird TransAm 1982 exalava charme e tecnologia, o que nos ajudou a imaginar um futuro em que carros com tais qualidades fossem reais.

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Quando os carros deixam de ser apenas veículos

Te levar do ponto A ao ponto B é pouco. A ficção é extrapolativa. Um exemplo é o universo de Transformers, em que veículos se transformam em robôs, enquanto produções como Blade Runner apresentam cidades futuristas nas quais os carros também conquistam os céus.

Para Ale Santos, essa relação entre fascínio e receio diante das máquinas tem raízes antigas. Segundo ele, a literatura e os movimentos artísticos do início do século 20 já exploravam a ideia de que a tecnologia poderia representar tanto o progresso quanto uma ameaça à humanidade.

Quase um século depois, projetos de veículos elétricos de decolagem e pouso vertical, conhecidos como eVTOLs, começam a aproximar esse imaginário da realidade. Ainda assim, a distância entre apresentar um conceito futurista e desenvolver uma tecnologia capaz de funcionar em escala continua sendo um dos principais desafios.

Na avaliação de Ale, é importante olhar com cautela para as promessas tecnológicas. Ele faz uma comparação entre a atual corrida pela inteligência artificial e antigas narrativas de ficção científica que alternavam previsões de grandes avanços e cenários apocalípticos.

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O escritor também questiona a maneira como algumas empresas utilizam o imaginário futurista para promover suas inovações. Para ele, mais importante do que apresentar uma tecnologia impressionante é demonstrar como ela poderá ser utilizada e qual será seu impacto na sociedade.

Ao comentar os projetos de carros voadores, Ale destaca justamente a necessidade de avaliar a viabilidade dessas propostas, especialmente em grandes centros urbanos, que já enfrentam desafios relacionados à mobilidade e ao espaço aéreo.

O futuro também pode ter personalidade

A imaginação de Ale Santos sobre os automóveis não se limita às tecnologias que poderiam existir. Em seus livros, os veículos também são pensados como extensões da personalidade de seus personagens.

Em O Último Ancestral, obra que mistura afrofuturismo e cyberpunk, os carros são adaptados para cumprir diferentes funções em um cenário de guerra contra androides.

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O Último Ancestral ganha versão RPG e mostra 'carro do futuro'
O Último Ancestral ganha versão RPG e mostra 'carro do futuro'
Foto: Divulgação / Estadão

Mesmo em um futuro com máquinas avançadas e inteligência artificial, o escritor faz questão de preservar uma experiência que considera fundamental: a possibilidade de dirigir.

"Quem gosta de dirigir pra caramba, gosta de sentir o volante virar as rodas e tudo mais, não perdendo essa emoção que é você poder controlar uma máquina", conta.

Já em A Malta Indomável, Ale apresenta a tecnomancia, uma combinação de tecnologia e magia. Um dos veículos da história tem o espírito de uma onça, com características que remetem ao animal.

"Ela é como se fosse uma onça [...] que meio que se torna a alma desse carro e, por ter um espírito feroz, ela ronca, o motor dela ronca como uma onça, os faróis dela brilham como uma onça mística", descreve.

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A ficção científica não serve apenas para imaginar carros que ainda não existem. Ela também ajuda a discutir o que esperamos dessas máquinas e como queremos nos relacionar com elas. Como resume uma frase atribuída a Isaac Asimov e lembrada por Ale durante a entrevista: "A ficção científica de hoje é o fato científico de amanhã."

Ouça o 'De Carona com JC' no player abaixo:

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