Restos do Vapor Mundaú, embarcação do século XIX, atraem a atenção de turistas e praticantes de esportes náuticos na praia de Pajuçara, em Maceió, onde ficam visíveis durante a maré baixa. Registros divergem se o navio foi abandonado para reparos ou se buscou abrigo após uma tempestade em 1889. Além de ponto de visitação, a estrutura preserva a memória do transporte marítimo no litoral de Alagoas, fundamental para a economia e comunicação da época.
Os restos de um navio do século XIX permanecem escondidos sob o mar em uma das praias mais conhecidas de Maceió, em Alagoas. Mais de 130 anos depois de sua chegada à capital alagoana, partes da embarcação começam a aparecer entre os arrecifes da Pajuçara quando a maré baixa. Conhecido como Vapor Mundaú, o navio está associado a uma história que remonta a 1889.
A estrutura desperta a curiosidade de moradores e turistas, principalmente daqueles que praticam atividades náuticas na região. A remadora Márcia Ribeiro conhece de perto os vestígios da embarcação. Desde 2019, ela organiza passeios de canoa e prancha pelo litoral de Maceió, levando alunos e visitantes para conhecer o local.
Segundo Márcia, as melhores condições para observar os restos do navio acontecem quando a maré chega a 0,3 metro ou menos. Nos períodos de maior recuo do mar, a água fica tão rasa que é possível permanecer em pé próximo à estrutura.
"A gente consegue sentir os ferros, o desenho, quando pisa ou quando mergulha próximo", contou ao site g1.
Nos passeios de canoa, a proposta é observar a embarcação de uma distância segura. Já com as pranchas, os visitantes conseguem chegar mais perto dos vestígios.
Para a remadora, a experiência tem um encanto especial por revelar parte da história da cidade em um ponto tão próximo da faixa litorânea.
"É uma energia bem diferente. Todo mundo que a gente consegue levar lá acha bem legal, até porque a gente ainda não tem tanto acesso a naufrágios aqui na nossa cidade. E tem um mundo tão perto, ali tão próximo", afirmou.
De longe, entretanto, nem sempre é fácil identificar que os vestígios pertencem a um navio. Segundo Márcia, a estrutura pode ser confundida com uma formação de corais.
"Parece uma bancada de coral, mas quando você vai se aproximando consegue visualizar o contorno perfeito da embarcação."
O que aconteceu com o Vapor Mundaú?
O Vapor Mundaú já era uma embarcação antiga quando chegou a Maceió, em 1889. De acordo com a historiadora Luana Teixeira, doutora em História pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e mestre em Preservação do Patrimônio Cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o navio apresentava diversos problemas estruturais.
Na que seria sua última viagem, a embarcação chegou à capital alagoana e foi conduzida até a região da Pajuçara para passar por reparos. No entanto, não há uma confirmação exata sobre o que aconteceu depois.
"Não se sabe ao certo o que houve, mas tudo indica que chegaram à conclusão que já não valia a pena e praticamente o abandonaram onde estava", explicou a historiadora.
Por esse motivo, embora seja comum a utilização da expressão naufrágio do Mundaú, a história pode não corresponder exatamente à imagem tradicional de uma embarcação que afundou durante uma viagem.
Navios a vapor tinham papel importante no transporte
No século XIX, as embarcações a vapor desempenhavam uma função fundamental no transporte de passageiros e mercadorias pelo Brasil. Naquele período, a malha ferroviária ainda era limitada, e as viagens entre cidades litorâneas aconteciam principalmente pelo mar.
"Já havia ferrovias, mas eram poucas as linhas e a comunicação entre as cidades costeiras dava-se principalmente pelo mar", explicou Luana.
Os navios movidos a vapor também ofereciam maior regularidade nas viagens em comparação com as embarcações à vela, que dependiam mais diretamente das condições dos ventos.
Para a historiadora, os vestígios do Mundaú representam um registro importante da relação histórica entre Maceió e o transporte marítimo.
"Maceió nasce de seu porto na virada do século XVIII para o XIX e, ao longo do século XIX, ele foi muito dinâmico, recebendo navios de todo o Brasil e do exterior", destacou.
O antigo Porto de Jaraguá concentrava parte significativa dessa movimentação, recebendo embarcações, passageiros e mercadorias. Mais de um século depois, os restos do Vapor Mundaú permanecem como testemunho desse período.
Pesquisador encontra registros da última viagem
O biólogo, mergulhador e pesquisador Maurício Carvalho, que estuda naufrágios há mais de 40 anos, também investiga a história da embarcação. Ele é responsável pela criação do Sistema de Informações de Naufrágios (SINAU), banco de dados que reúne registros de embarcações naufragadas no Brasil.
Foi por meio desse acervo que Carvalho encontrou documentos históricos relacionados ao Vapor Mundaú, que pertencia à Companhia Pernambucana de Navegação a Vapor.
Os registros apresentam detalhes diferentes da versão de que o navio teria sido levado à Pajuçara apenas para reparos e posteriormente abandonado. Segundo a documentação localizada pelo pesquisador, a embarcação saiu do Recife transportando passageiros e mercadorias e precisou buscar abrigo em Maceió devido a uma tempestade.
As pessoas que estavam a bordo conseguiram sobreviver, enquanto grande parte da carga também foi recuperada.
Carvalho encontrou ainda recortes de jornais antigos relacionados ao navio e à companhia responsável pela embarcação. Para ele, esses documentos ajudam a confirmar que os restos encontrados atualmente na Pajuçara pertencem ao mesmo vapor registrado nos arquivos históricos.
O SINAU também reúne informações sobre outros dois naufrágios na região da praia, indicando a importância daquela área para a circulação de embarcações no passado.
Por que o nome do navio aparece escrito de formas diferentes?
Outro detalhe identificado nos registros históricos é a variação na grafia do nome da embarcação. Em documentos e jornais antigos, o navio aparece como "Mandahú" e "Mundahú", além da denominação atualmente conhecida: Vapor Mundaú.
Segundo a museóloga e escritora Carmen Lúcia Dantas, ex-diretora do Museu Théo Brandão, essas diferenças são comuns em palavras de origem indígena, cuja escrita passou por modificações ao longo do tempo.
"Estes vocábulos indígenas sofrem grafias diferentes, ao longo da História, dependendo do historiador, se quer ser mais purista com relação à pronúncia indígena, ou se aportuguesa a palavra, como é o caso de Mundaú", explicou.
Além de despertar a curiosidade de quem visita a Pajuçara, os vestígios do Vapor Mundaú ajudam a preservar a memória da navegação no litoral alagoano e de um período em que o transporte marítimo era essencial para a economia e a comunicação entre as cidades brasileiras.