Na história das Copas, um roteiro que se repete de paixões, nacionalismos e negócios

Aspectos políticos e interesses comerciais jamais deixaram de permear ou mesmo de determinar a dinâmica dos torneios mundiais de futebol

22 jun 2026 - 07h41

A cada quatro anos, olhos, pensamentos e paixões do Brasil e de boa parte do mundo convergem para o mesmo ponto: a Copa do Mundo de futebol, que atrai mais interesse do que qualquer outro evento esportivo. Este ano não é diferente, mesmo com a seleção brasileira chegando ao torneio sem o costumeiro favoritismo, embora conte em seu plantel com atletas das principais ligas de futebol do mundo.

Em 2026, além de colocarem à prova este ano suas condições de superatletas frente às condições atmosféricas desfavoráveis da crise climática da história, os jogadores da Seleção Brasileira e seus colegas de outras equipes eternizam nas batalhas campais da Copa uma história antiga de colonialismo.

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O historiador Eric Hobsbawm escreveu certa vez que, onde houve expansão imperial britânica, há modalidades esportivas. E o futebol moderno, inventado nas Ilhas da Grã Bretanha, é e sempre foi a joia da coroa.

Mas é assim também com o atletismo, o rúgbi e o hóquei na África, Ásia e Oceania. O futebol particularmente está muito conectado aos locais onde as indústrias inglesas, ferrovias à frente, se instalaram. Era o lazer dos trabalhadores com a bola. Em seguida, vieram os clubes organizados, que passaram a promover o espetáculo.

Esse fenômeno ganhou os quatro cantos do mundo, e não tardou para que a popularização do futebol ganhasse um momento de celebração mais efetivo, em 1930, com a primeira Copa do Mundo, disputada no Uruguai e vencida pela seleção local.

Se naqueles anos o esporte como um todo ainda era bastante amador, o futebol já se colocava à frente como negócio, mas ainda carregava fortemente a expressão dos nacionalismos. E, muitas vezes, como palco de disputas políticas. Em 1938, na França, a vitória dos italianos foi celebrada em Roma como triunfo do fascismo no país governado por Benito Mussolini.

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Nacionalismo, guerras e Copa do Mundo

Aspectos políticos jamais deixaram de permear ou mesmo de determinar a dinâmica dos Mundiais de futebol. A Alemanha, por exemplo, viveu as vicissitudes do nacionalismo no pós-guerra, depois que esse ganhara forma racista e bélica nos anos do nacional-socialismo. Mesmo com os triunfos de 1954 e 1974, vestir a camisa e cantar o hino alemão eram práticas malvistas, já que remetiam aos anos sob Hitler.

Passada a Guerra Fria e alcançada a unificação do país, os alemães se permitiram identificar-se uns com os outros e com a nação, como aconteceu a partir do verão europeu de 2006, quando sediaram mais uma edição do evento.

Mas os nacionalismos não param por aí. Depois da guerra dos anos 1990. Sérvia e Croácia têm boas equipes e possuem hoje colaboração diplomática estáveis, ainda que não sem tensões históricas que ficaram um tanto congeladas nos tempos que atletas de ambas nações atuavam pela Iugoslávia.

Irã e Estados Unidos se confrontaram em 1998, na França, com relações rompidas, o mesmo acontecendo com o célebre encontro entre Inglaterra e Argentina, em 1986, no México, quando o fantasma da Guerra das Malvinas (1982) assombrava os platenses. A vitória comandada por Maradona até hoje é cultivada como revanche simbólica do massacre nas ilhas do Atlântico Sul.

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Ao sediar a Copa de 1978, a Argentina vivia sob ditadura militar, assim como em 2022 a realização do torneio no Qatar desconsiderou os muitos problemas com direitos humanos naquele país, o que incluía condições de trabalho degradantes e perseguições às mulheres.

A exclusão de países das competições, como acontece agora com a Rússia, é arbitrariamente seletiva. Ao mesmo tempo, nada se cogitou em relação ao Brasil em 2022, apesar das centenas de milhares de mortes, por negligência governamental, durante a pandemia de Covid-19.

Interesses comerciais nas Copas

Combinam-se com os nacionalismos, que podem conter muita xenofobia e racismo, os interesses comerciais que, desde sempre, estão presentes nos eventos esportivos, em especial nas Copas do Mundo.

Pelé, em 1970, retarda ligeiramente o começo de uma partida porque tem que amarrar as chuteiras, e o mundo observa de que marca são elas. No Mundial seguinte, ele aparece não mais como atleta, mas como garoto-propaganda.

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Em 1978, a edição argentina inaugura o uso massivo de tecnologias de comunicação. Na década seguinte, há a demarcação da presença definitiva dos patrocínios nos uniformes, mesmo que disfarçadamente. O próprio Brasil colocou um ramo de café no símbolo da CBF, aludindo ao produto nacional.

Os interesses financeiros nunca tiveram dificuldade em combinar-se com práticas pouco ou nada democráticas.

FIFA ignora tratamento dado pelos anfitriões a convidados

Se há algo com o qual a FIFA pouco ou nada se importa é como as populações dos países-sede são tratadas, tampouco com que maneira os anfitriões recebem seus convidados ou se comportam fora de suas fronteiras.

Eis que os EUA agem da pior maneira possível, sem que, no entanto, haja qualquer tipo de limite em favor do interesse esportivo.

O principal árbitro da Confederação Africana, o somali Omar Abdulkadir Artan, teve seu ingresso no país barrado pelas autoridades locais. E a equipe iraniana sofre todo tipo de retaliação e constrangimento.

Não deixa de ser bizarro, aliás, que enquanto os EUA bombardeiam o Irã, em uma guerra cujo único interesse é a expansão do domínio comercial e energético da nação mais belicosa do mundo, dispute-se em seu território um torneio de futebol em que ambos participem.

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Longe de representar a superação das guerras em nome do congraçamento e amizade entre os povos, a situação é só mais um sinal da indiferença frente ao sofrimento de povos inteiros. Além disso, uma vez mais se confirma que o esporte é um grande negócio que não pode ser interrompido.

The show must go on, como já se disse. E a nós resta consumi-lo. Que se possa encontrar algum momento de verdade e positiva identificação nessa inverdade produzida como espetáculo.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Alexandre Fernandez Vaz recebe financiamento do CNPq e da FAPESC.

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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