Eleições 2026: pesquisa com grupos de WhatsApp indica os motivos do eleitor para trocar de candidato

As respostas revelam que, por baixo de uma leitura apressada da polarização, ainda existe um conjunto de limites morais e institucionais que orienta a escolha eleitoral dos brasileiros.

22 jun 2026 - 07h41

As intenções de voto mudam ao longo da campanha. Escândalos, debates, crises e acontecimentos inesperados podem alterar rapidamente as preferências do eleitorado. Saber o que atrai votos é importante, mas identificar o que leva um eleitor a abandonar um candidato pode ser ainda mais revelador. Mais estáveis do que as razões para votar são, muitas vezes, as razões para deixar de votar.

Foi para capturar essa dimensão que realizamos uma pesquisa qualitativa a partir de uma pergunta deliberadamente invertida: "o que faria você desistir imediatamente de votar em um candidato?". O levantamento foi conduzido em 8 de junho pelo Monitor do Debate Público, projeto do Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública (LEMEP) do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP-UERJ), em seis grupos focais contínuos realizados no Whatsapp.

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As respostas revelam que, por baixo de uma leitura apressada da polarização, ainda existe um conjunto de limites morais e institucionais que orienta a escolha eleitoral dos brasileiros. A corrupção aparece em todos os grupos analisados, mas com formulações diferentes.

Grupos que retratam a sociedade

Grupos focais são uma técnica de pesquisa qualitativa baseada na discussão estruturada entre participantes selecionados segundo perfis específicos. No Monitor do Debate Público, esses grupos são contínuos: os mesmos participantes permanecem no estudo ao longo do tempo, permitindo acompanhar a evolução de suas opiniões.

Nesta rodada com foco nas eleições de 2026, 50 participantes foram distribuídos em seis segmentos definidos por perfil de voto, avaliação do governo e posicionamento ideológico. Os participantes responderam quando lhes fosse mais conveniente.

Ativo desde 2022, este ano o projeto foi redesenhado com a substituição do antigo grupo de eleitores flutuantes por dois grupos de indecisos, que ainda não definiram seu voto para 2026. Os Indecisos Conservadores votaram em Bolsonaro ou em branco/nulo em 2022 e se posicionam mais à direita na escala ideológica. Os Indecisos Progressistas votaram em Lula ou em branco/nulo e se posicionam mais à esquerda.

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Os resultados são de natureza qualitativa e buscam compreender como os participantes pensam e justificam suas posições. Não devem ser lidos como estatisticamente representativos da população brasileira.

PERFIL DOS GRUPOS FOCAIS

Corrupção como tema central

A preocupação com a corrupção aparece de forma recorrente nos seis grupos como um importante parâmetro de avaliação dos candidatos. Porém, sua formulação, peso e significado variam entre os diferentes segmentos.

A mentira — frequentemente associada à divulgação de fake news — também foi citada com intensidade. O aspecto em que os grupos se dividem é a definição do que constitui um limite inegociável.

Em 2026, portanto, a capacidade de mobilização desse tema dependerá menos da denúncia em si e mais da forma como ela dialoga com as crenças e prioridades de cada grupo de eleitores.

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O que leva cada grupo a rejeitar um candidato

A análise das respostas mostra que, para os Bolsonaristas Convictos, o limite em relação ao tema da corrupção é ideológico. Uma participante resume essa posição ao afirmar que "não votar no PT é uma questão de segurança nacional, de ver o quanto a criminalidade aumenta a cada dia, os impostos, taxas sobre taxas, além de uma corrupção velada que não cessa" (Bolsonarista Convicta, 47 anos, administradora, BA).

A rejeição ao PT funciona como um critério autônomo, desconectado de qualquer avaliação específica da conduta do candidato. As propostas e o perfil pessoal de um hipotético candidato petista são percebidos como irrelevantes. Para esse grupo, a corrupção funciona mais como um elemento retórico do que como um definidor do comportamento eleitoral.

Diferentemente dos Convictos, os Bolsonaristas Moderados exigem provas e investigação: "O que me faria desistir de votar em um candidato seria um escândalo de corrupção que envolvesse desvio de verbas públicas ou rombo nos cofres públicos em benefício particular" (Bolsonarista Moderado, 72 anos, pensionista, RJ). Casos comprovados de corrupção e desvio de verbas públicas aparecem como critérios declarados de rejeição.

Vale destacar que esse padrão de comportamento já foi identificado em outras análises do Monitor do Debate Público. É frequente, nesse perfil, um apreço pela investigação e pela apuração dos fatos. Trata-se de uma característica semelhante à dos Lulodescontentes.

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Há, contudo, um traço específico que distingue os Lulodescontentes: a disponibilidade para mudar de voto. A chegada de um candidato mais preparado e comprometido com os problemas reais da população é explicitamente citada como uma razão suficiente para uma mudança de posição:

"Eu deixaria de votar em um candidato se aparecessem provas concretas de corrupção ou de uso do cargo para benefício próprio. Também mudaria meu voto caso surgisse alguém mais preparado e comprometido com os problemas reais da população, sem ficar preso às disputas políticas de sempre" (Lulodescontente, 52 anos, técnica administrativa, MG).

Para os Indecisos Progressistas, a tolerância acaba quando um candidato afronta pautas relacionadas aos direitos das minorias. Nesse grupo, o nome de Bolsonaro aparece diretamente — algo que não ocorre em nenhum outro grupo, nem mesmo entre os Lulistas.

"Um candidato que desrespeite as mulheres, que esteja envolvido em escândalos, que seja a favor do porte de armas, que seja homofóbico e vise beneficiar somente os grandes empresários, sem priorizar as minorias, esse com certeza me faria desistir de votar nele" (Indecisa Progressista, 29 anos, empreendedora, RJ).

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O Indeciso Conservador é o segmento que reúne a maior diversidade de motivos de rejeição. Esses eleitores avaliam os candidatos por um conjunto de critérios combinados — conduta, coerência, alianças e plano de governo. São mais atentos ao comportamento público, ao discurso e às posturas dos candidatos do que às filiações partidárias, mas essa é uma hipótese que merece confirmação em análises subsequentes.

"Para mim, o comportamento do candidato de um modo geral, falas problemáticas, falta de um plano de governo e envolvimento em escândalo me fazem cancelar qualquer possibilidade de voto" (Indecisa Conservadora, 30 anos, maquiadora, RJ).

Um motivo que apareceu nesse grupo e que também pode ser interpretado como relacionado ao tema da corrupção foi o forte apreço pela separação entre religião e política. Mesmo entre participantes que fazem referências positivas à religião, a defesa da laicidade da esfera pública aparece de forma recorrente:

"Candidato que faz promessa absurda, que a gente sabe que não será feita. Ou que não defenda as coisas que acredito. Ou até que use religião de palanque. Não voto em candidato padre ou pastor se ele usar isso para se promover, porque acredito que tem que ser separado" (Indecisa Conservadora, 24 anos, estudante, RN).

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Quanto ao segmento Lulista, nota-se uma avaliação longitudinal, na qual a trajetória acumulada do candidato pesa mais do que acontecimentos específicos. Eles olham para o conjunto da obra. Erros pontuais, incoerências e alianças incômodas são processados dentro de um julgamento mais abrangente. Desse modo, a corrupção entra em um conjunto mais amplo de aspectos considerados na avaliação:

"O que me faria mudar de posição seria uma comprovação inequívoca de corrupção, autoritarismo ou abandono das pautas que motivaram meu apoio, como a defesa da democracia, dos direitos sociais e da redução das desigualdades. Fora isso, continuo avaliando o conjunto da trajetória e das realizações" (Lulista, 54 anos, psicólogo, CE).

The Conversation
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Foto: The Conversation

A autora coordena projetos de pesquisa qualitativa nas áreas de campanhas eleitorais, impacto social e estudos de mercado. É sócia da empresa Phronesis e pesquisador do Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública (LEMEP) do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP-UERJ),

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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