A pandemia de Covid-19 e os alertas sobre ameaças virais como Ebola, Nipah e Hantavírus reforçam uma preocupação global e recorrente: como saberemos quando uma nova doença começará a se espalhar? No Brasil, onde surtos de doenças como dengue, chikungunya e outras infecções são frequentes, essa capacidade pode ser decisiva para reduzir impactos sobre a população e os serviços de saúde.
Em um estudo recente, avaliamos o desempenho do Sistema de Antecipação de Surtos com Potencial Pandêmico (ÆSOP), atualmente em implementação pelo Ministério da Saúde. O sistema utiliza dados da Atenção Primária à Saúde (APS) do Sistema Único de Saúde e de vendas de medicamentos isentos de prescrição (MIP), como descongestionantes nasais, para identificar sinais precoces de surtos.
O acrônimo ÆSOP remete à ideia de antecipação e vigilância (em inglês, Early Alert System for Outbreaks with Pandemic Potential).
A Atenção Primária é a principal porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS). Desenvolvida sobretudo nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs), reúne ações de promoção da saúde, prevenção de doenças, diagnóstico, tratamento e acompanhamento contínuo da população. Seu principal modelo de organização é a Estratégia Saúde da Família (ESF), na qual equipes multiprofissionais acompanham as famílias de um território definido.
O sistema testado foi desenvolvido por pesquisadores da Fiocruz Bahia e do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (COPPE/UFRJ).
Os resultados do estudo mostraram que as fontes de dados utilizadas pelo sistema testado foram capazes de antecipar aumentos de hospitalizações por doenças respiratórias em até três semanas em cerca de 60% dos episódios analisados.
Observamos também que os dados permitem identificar a elevação de casos leves, muitas vezes antes que seu impacto seja visível nos hospitais. O estudo foi publicado recentemente na revista npj Digital Public Health, do grupo Nature.
Sintomas comuns que podem confundir
Mapear os primeiros sinais de transmissão de uma doença é um dos grandes desafios da saúde pública. Seja diante de um vírus já conhecido ou de um agente infeccioso emergente, ganhar alguns dias de vantagem - ou semanas - pode fazer muita diferença para organizar a assistência, direcionar investigações epidemiológicas e reduzir o impacto de um surto sobre a população.
Essa não é, no entanto, uma missão simples. O reconhecimento de um novo agente infeccioso depende muito da capacidade da rede de vigilância e da infraestrutura local de saúde pública. Mais uma dificuldade é que surtos raramente começam de forma evidente.
Nos seus primeiros momentos, uma doença emergente costuma se parecer com outras já conhecidas. Os sintomas iniciais, como febre, tosse, dor no corpo ou mal-estar, por exemplo, são comuns a diversas infecções.
Foi o que ocorreu durante surtos de Ebola em países da África Ocidental, vírus responsável por uma taxa média de letalidade de 25% a 90%. Um estudo estimou que, caso 60% dos infectados recebessem diagnóstico em até um dia após o surgimento dos sintomas, em contraste com a média de cinco dias, o índice de contaminação viral despencaria de 80% para quase zero.
Situação semelhante ocorreu com o Zikavírus no Brasil e com o SARS-CoV-2 na China. Em ambos os casos, o vírus circulou por algum tempo antes de ser oficialmente identificado.
## Capacidade real de antecipação
A capacidade de detectar casos leves antes que o aumento da transmissão se reflita nas hospitalizações é o principal diferencial da abordagem que utiliza o sistema ÆSOP. Em nosso estudo, constatamos que as fontes de dados usadas têm capacidade real de antecipar aumentos de internações por doenças respiratórias no Brasil.
Os dados de vendas de medicamentos isentos de prescrição emitiram sinais de alerta antes do aumento das hospitalizações em cerca de 57% dos 746 episódios analisados.
Esses alertas surgiram entre uma e três semanas antes da elevação dos casos graves. Os dados da APS apresentaram desempenho semelhante, antecipando aproximadamente 60% dos aumentos observados. Em outras palavras, ambas as fontes conseguiram identificar uma parcela importante dos surtos antes que seu impacto fosse sentido em hospitais.
Na prática, antecipar um surto em até três semanas, como o estudo aponta ser possível, fornece um tempo valioso para direcionar investigações epidemiológicas, ampliar a coleta de amostras e preparar a rede assistencial. Isso inclui o planejamento de leitos, equipes e insumos, reduzindo o risco de colapso do sistema de saúde.
Esse fôlego adicional é decisivo para interromper cadeias de transmissão, orientar medidas de contenção imediatas e reforçar campanhas de vacinação e comunicação em saúde. Por tudo isso, cresce o interesse em estratégias capazes de detectar surtos antes mesmo da confirmação laboratorial dos casos. Entre elas, destaca-se a vigilância sindrômica.
O fio da meada
A vigilância sindrômica é uma estratégia utilizada por autoridades de saúde para identificar precocemente possíveis surtos por meio do monitoramento de padrões de sintomas, como síndromes febris, respiratórias, diarreicas e arboviroses.
Diferentemente dos sistemas baseados apenas na confirmação laboratorial, essa abordagem prioriza a rapidez e a sensibilidade na identificação de sinais iniciais de circulação de doenças.
Esses sinais podem ser captados em diferentes fontes de informação. Um aumento repentino na procura por atendimento devido a febre e tosse em unidades básicas de saúde, por exemplo, pode indicar o início de um surto respiratório. O sistema ÆSOP integra dados da Atenção Primária à Saúde (APS), registrados no Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica (SISAB), e informações sobre vendas de medicamentos isentos de prescrição (MIP) adquiridos da IQVIA, uma multinacional especializada em dados, tecnologia e pesquisa para o setor de saúde.
## Um país, múltiplos cenários
O desempenho do ÆSOP não foi uniforme em todo o país, com diferenças inter-regionais que refletem desigualdades na organização dos serviços de saúde, no acesso à assistência e nos padrões de consumo de medicamentos.
Em cerca de três quartos do território brasileiro, pelo menos uma das fontes apresentou boa performance, demonstrando que em um país continental e heterogêneo como o Brasil diferentes sistemas de vigilância precisam atuar de forma complementar.
Outro resultado relevante foi a identificação de períodos em que houve aumento simultâneo de atendimentos na APS e de vendas de MIP sem crescimento correspondente das hospitalizações. Esses episódios sugerem a ocorrência de surtos de casos leves.
À primeira vista, isso poderia parecer menos importante. No entanto, detectar casos leves pode ser fundamental. Esses casos provocam impacto no sistema de saúde, na economia local e podem representar a apresentação inicial de doenças potencialmente graves, como no caso da Zika.
Por essa razão, a vigilância sindrômica não deve ser vista apenas como uma ferramenta para prever internações. Seu principal valor está na capacidade de revelar mudanças precoces na saúde da população, inclusive quando ainda não geraram casos graves.
Como nos preparar melhor para os próximos surtos
Novos surtos continuarão surgindo. A questão central é quão rapidamente conseguiremos identificá-los. Dados da APS e de vendas de MIP oferecem uma oportunidade de enxergar sinais que frequentemente permanecem invisíveis para os sistemas tradicionais de monitoramento.
Nesse contexto, o sistema ÆSOP encontra-se em fase de implementação pelo Ministério da Saúde nos municípios brasileiros. Isso oferece a possibilidade de que, pela primeira vez, intervenções possam ser desencadeadas antes que os surtos se tornem visíveis para os sistemas convencionais de vigilância.
Quando combinadas com informações climáticas, ambientais, socioeconômicas e de mobilidade humana, essas fontes podem fortalecer sistemas de alerta precoce capazes de fornecer tempo precioso para a organização dos serviços de saúde, a realização de investigações epidemiológicas e a adoção de medidas de controle.
Em um mundo cada vez mais conectado, ganhar algumas semanas pode fazer toda a diferença entre conter um surto local ou enfrentar uma crise de grandes proporções.
A autora é pesquisadora associada do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde, Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)
Manoel Barral-Netto é presidente da Academia de Ciências da Bahia (ACB)
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