Neste último domingo, dia 21 de junho, os Hemisférios do mundo trocaram de estações. E tudo indica ue o inverno que se inicia no Sul e o verão que começa no Norte serão inesquecíveis, por conta do Super El Niño se forma nas águas do Pacífico. E, como professor de pós-graduação em Sociologia, acredito que discutir o El Niño a partir das Ciências Sociais é muito pertinente, porque suas influências e efeitos não decorrem apenas de alterações climáticas. Ela são oriundas também da forma como a sociedade brasileira produz e distribui recursos, solidariedade, danos ambientais, desigualdades e injustiças.
O mesmo fenômeno que provocou as enchentes históricas no Rio Grande do Sul em 2024, deslocando milhares de pessoas e causando prejuízos bilionários, também contribuiu para secas severas na Amazônia em 2023 e 2024, dificultando ou inviabilizando a navegação fluvial, o abastecimento de comunidades ribeirinhas e o acesso a serviços básicos.
Esses efeitos não podem ser explicados apenas pela climatologia, pois estão relacionados à ocupação de áreas ecologicamente sensíveis, à insuficiência de infraestrutura urbana adequada, ao desmatamento de biomas estratégicos para a regulação do ciclo hidrológico e às desigualdades sociais que determinam quem possui recursos para se proteger e quem permanece mais exposto às mudanças climáticas.
Fenômenos climáticos também são eventos sociais
Assim, a proposta nesse artigo é iniciar uma conversa de como, pela sociologia, é possível compreender que enchentes, secas e ondas de calor não são apenas eventos naturais, mas processos sociais e de relação da sociedade com a natureza que produzem efeitos sociais.
Analisar a possibilidade concreta de que ocorra um fenômeno climático, que devido as suas proporções, está sendo denominado de Super El Niño, significa discutir porque determinados grupos sociais, regiões e comunidades sofrem impactos muito maiores do que outros e como decisões econômicas e políticas tomadas ao longo de décadas tornam os eventos climáticos extremos na atualidade em crises sociais de grande impacto.
Cabe considerar, que o El Niño é um fenômeno climático associado ao aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, resultado do enfraquecimento dos ventos alísios e de alterações na circulação atmosférica conhecida como Célula de Walker.
Embora tenha origem no Pacífico, seus efeitos se propagam por grande parte do planeta, alterando padrões de temperatura, precipitação e circulação dos ventos em diferentes continentes. No Brasil, o El Niño costuma provocar aumento das chuvas e do risco de enchentes na Região Sul, enquanto favorece secas no Norte e em partes do Nordeste, além de intensificar ondas de calor em diversas áreas do país. De acordo com a pesquisadora Luciana Gatti, em entrevista recente, quando esse aquecimento ultrapassa 2°C da média histórica do oceano, o fenômeno passa a ser denominado como "Super El Niño", pois é uma versão muito mais intensa e rara do evento, capaz de amplificar significativamente seus efeitos sociais, econômicos e ambientais.
Assim, o El Niño de 2026 não deve ser tratado como um evento cíclico estatisticamente mapeável, mas como uma alteração climática severa catalisada pelo aquecimento global antropogênico. A atual "rampa de aquecimento" caracterizada pela velocidade sem precedentes na elevação das temperaturas do Oceano Pacífico indica alterações térmicas entre 2,5°C e 4,0°C.
Para a alta gestão, o dado mais crítico transcende a média global: enquanto o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) projeta um aumento médio global de 2,8°C, a inércia térmica e a menor capacidade térmica continental resultam em um aquecimento real no Brasil de 3,5°C a 4,0°C.
Em um contexto de aquecimento global provocado pelas atividades humanas, os efeitos do Super El Niño tornam-se ainda mais preocupantes, pois ocorrem em um planeta já mais quente, aumentando a sua frequência e a sua intensidade com enchentes, secas, incêndios florestais, crises hídricas, perdas agrícolas e problemas de saúde pública.
Racionalidade econômica não reconhece os limites biofísicos do planeta
Outro pesquisador, George Monbiot, em artigo recente, critica o que denomina uma racionalidade econômica incapaz de reconhecer os limites biofísicos da Terra por tratar cenários de aquecimento global em termos de perdas econômicas graduais, desconsiderando a possibilidade de pontos de inflexão climática, como a savanização da Amazônia ou alterações na Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC).
Em síntese, o Super El Niño traz à tona o que a sociologia ambiental a partir da ecologia política vêm argumentando há décadas: os eventos climáticos extremos não podem ser analisados separadamente dos modelos de desenvolvimento social e econômico e das escolhas políticas dos governos de diversos países, sobretudo os do norte global, que aprofundam a crise climática e a desigualdade no planeta.
As vertentes críticas da sociologia ambiental discutem que desastres climáticos não podem ser compreendidos como eventos naturais ao acaso, pois seus efeitos são profundamente condicionados pelas estruturas sociais, econômicas e políticas que organizam os territórios.
Como argumenta Ulrich Beck, os riscos ambientais na atualidade são produzidos pela própria modernização fabricada pela ação humana ao longo dos últimos séculos.
Injustiça ambiental
Contudo, autores da ecologia política, como Enrique Leff, Vandana Shiva e Rob Nixon, mostram que os impactos ambientais não atingem todos os grupos da mesma forma, mas tendem a recair desproporcionalmente sobre populações historicamente marginalizadas.
O conceito de justiça ambiental, formulado por Robert Bullard, evidencia que comunidades pobres e populações negras costumam estar mais expostas a enchentes, secas, contaminações, desastres e outros riscos ambientais, ao mesmo tempo em que possuem menor acesso aos recursos necessários para proteção e adaptação.
No caso brasileiro, quando um Super El Niño provoca enchentes no Sul, secas na Amazônia ou crises hídricas no Semiárido, isso não é sinal apenas da intensidade das mudanças climáticas, mas também consequência de décadas de urbanização desigual, concentração fundiária, desmatamento, ausência de planejamento territorial e exclusão social.
Sob essa perspectiva, os eventos climáticos extremos tendem a tornar mais evidentes as contradições do modelo de desenvolvimento social e econômico brasileiro, tornando visíveis inclusive o chamado racismo ambiental, que ocorre quando determinados grupos sociais são sistematicamente mais expostos aos riscos climáticos e menos atendidos pelas políticas públicas de prevenção, mitigação, reconstrução e adaptação a desastres socioambientais.
Se o Super El Niño é um espelho do Brasil, o que ele reflete não é apenas a força da natureza, mas decisões sociais, econômicas e políticas que se relacionam com nossas desigualdades e que também podem construir nossa capacidade de superá-las.
Sérgio Botton Barcellos não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.