Papa cobra ação global e condena burocracia que dificulta combate à fome

Leão XIV fez discurso na sede do Programa Mundial de Alimentos da ONU em Roma

22 jun 2026 - 08h40

O papa Leão XIV lamentou que o mundo viva um cenário em que "os conflitos são mais facilmente alimentados do que a nutrição das pessoas" e criticou o fato de que iniciativas de ajuda sejam prejudicadas por decisões políticas "complexas e incompreensíveis".

    A contundente defesa da cooperação internacional e do combate à fome foi feita nesta segunda-feira (22), durante visita do pontífice à sede do Programa Alimentar Mundial (PAM) da ONU, em Roma, na Itália.

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    Em seu discurso, Leão XIV afirmou que projetos de ajuda humanitária e desenvolvimento são frequentemente prejudicados por entraves políticos e burocráticos, enquanto o financiamento de armamentos continua encontrando menos obstáculos.

    Citando palavras de seu antecessor, o falecido papa Francisco, o líder da Igreja Católica destacou que barreiras burocráticas, interesses ideológicos e restrições comerciais acabam dificultando a chegada da assistência aos mais vulneráveis.

    Além disso, observou que "o acesso a bens essenciais, incluindo alimentos, é muitas vezes influenciado por considerações econômicas ou estratégicas".

    "Como resultado, aqueles que não geram valor quantificável correm o risco de se tornarem invisíveis. Esta dinâmica dupla cria um sério desafio ético: a pessoa humana já não é constantemente colocada no centro da ação internacional", afirmou.

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    Leão XIV atribuiu parte desse cenário à "crise do multilateralismo", que levou os Estados a direcionarem cada vez mais recursos para segurança nacional, crescimento econômico e estabilidade interna, em detrimento da cooperação internacional.

    Segundo ele, há um paradoxo global: embora a humanidade tenha alcançado uma capacidade produtiva sem precedentes, milhões de pessoas continuam vivendo em condições extremas de pobreza e exclusão.

    Para o pontífice, instituições criadas para promover o bem comum global e garantir um futuro compartilhado entre os povos perderam força diante de uma ordem internacional cada vez mais fragmentada.

    Nesse contexto, destacou a transição "do multilateralismo para uma multipolaridade desordenada e conflituosa, marcada por um sentimento generalizado de desconfiança".

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    Durante a fala, o Papa também denunciou o que chamou de "burocratização progressiva da solidariedade" e de "mercantilização silenciosa da vida humana". Para ele, questões humanitárias vêm sendo relegadas a segundo plano nas agendas internacionais, enquanto o acesso a bens essenciais é frequentemente condicionado por interesses econômicos ou estratégicos.

    O Santo Padre defendeu que alimentação, água e cuidados de saúde não podem ser tratados como mercadorias. "É importante resistir à mercantilização das necessidades humanas básicas. A alimentação, a água e a saúde não podem ser subordinadas a considerações de mercado ou a interesses geopolíticos", declarou.

    O pontífice ressaltou que o acesso à alimentação adequada é um direito humano fundamental e afirmou que a segurança alimentar deve ocupar posição central na agenda da segurança global.

    Segundo ele, combater a fome não apenas reduz o sofrimento humano, mas também contribui para enfrentar as causas profundas da instabilidade e dos conflitos.

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    Em seu pronunciamento, Leão XIV fez um apelo aos governos e à comunidade internacional para que renovem os esforços de combate à fome, ampliem os recursos destinados à assistência humanitária e eliminem obstáculos burocráticos que dificultam a chegada da ajuda às populações necessitadas.

    "Um renovado compromisso com a cooperação multilateral é essencial. Num mundo cada vez mais fragmentado e multipolar, nenhum Estado pode enfrentar sozinho os desafios globais", afirmou.

    Por fim, o pontífice norte-americano pediu maior participação da sociedade civil e das organizações religiosas na luta contra a insegurança alimentar.

    "A paz duradoura e o desenvolvimento humano integral e sustentável são possíveis somente através da participação de todos, fomentada por um autêntico diálogo internacional e cooperação orientada para o bem comum. Tal abordagem requer uma firme vontade política capaz de transcender as perspectivas de curto prazo e investir em bens públicos globais", concluiu.

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    A visita ocorre em um momento delicado para o Programa Mundial de Alimentos. A agência da ONU atravessa uma fase de liderança interina após a renúncia de Cindy McCain por motivos de saúde.

    Além disso, enfrenta dificuldades financeiras decorrentes da redução das contribuições dos Estados Unidos, seu principal doador. A ajuda norte-americana caiu mais de 50% entre 2024 e 2025, totalizando cerca de US$ 2 bilhões. .

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