Durante o evento, Felipe VI afirmou que "os reis católicos, a rainha Isabel com suas diretrizes, tinham uma vontade de proteção, mas a realidade é que isso não se aplicou como se desejaria, e houve muitos abusos". Ele ressaltou que é necessário conhecer a história, mesmo quando há episódios que "não podem nos deixar orgulhosos". Segundo o monarca, é preciso estudar esses fatos "em seu contexto correto, sem excesso de julgamento moral do presente, mas com análise objetiva e rigorosa, para delas tirar lições".
O México vinha exigindo há anos um pedido formal de desculpas da Coroa espanhola pelos abusos cometidos durante a conquista e a colonização. Em 2019, o então presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, enviou uma carta a Madri solicitando que o governo espanhol reconhecesse oficialmente os crimes e injustiças contra as populações indígenas. A atual presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, retomou a reivindicação, cobrando novamente desculpas formais, o que acabou esfriando ainda mais as relações bilaterais.
Analistas veem o gesto de Felipe VI como um passo simbólico para a reconciliação histórica, embora ele não tenha feito um pedido de desculpas oficial. Em outubro de 2025, na inauguração da mesma exposição em Madri, o ministro espanhol das Relações Exteriores, José Manuel Albares, já havia reconhecido a "dor e a injustiça" causadas aos povos originários da América, reforçando a necessidade de um olhar crítico sobre a história colonial espanhola.
Violência colonial
O tema da conquista da América é marcado por episódios de violência, mortes em conflitos, epidemias trazidas pelos europeus e profundas transformações sociais para os povos indígenas. Historiadores e especialistas em estudos latino-americanos ressaltam que, embora as leis da época tentassem limitar abusos, na prática houve exploração, escravização e expropriação de territórios e culturas, e que reconhecer esse passado é fundamental para a memória histórica.
Felipe VI destacou ainda que a compreensão do passado deve ser feita de forma rigorosa e contextualizada, sem cair no que historiadores chamam de "presentismo moral" — ou seja, julgar eventos históricos apenas pelos critérios e valores atuais. Ele afirmou que estudar a história com objetividade permite tirar lições importantes sobre direitos humanos e governança, evitando a repetição de "erros do passado".
Declaração inédita
A declaração de Felipe VI é a primeira sobre o tema desde o início da polêmica com o México. Após anos de tensões derivadas do passado colonial da Espanha, o governo do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, afirmou recentemente que a normalização das relações com o México é uma prioridade.
Especialistas diplomáticos destacam que o reconhecimento histórico feito pelo rei pode ajudar a criar um ambiente mais favorável para o diálogo bilateral, sem alterar a narrativa oficial espanhola de celebração da colonização, mas assumindo responsabilidades pelos abusos cometidos.
O episódio reflete também um movimento mais amplo na América Latina e na Espanha de revisitar criticamente o legado colonial, reconhecendo injustiças cometidas contra populações indígenas e afrodescendentes, e equilibrando memória histórica com políticas culturais e educativas voltadas à conscientização sobre direitos humanos.
Com agências