Linhas brancas riscam o céu azul de Abu Dhabi sobre as vilas cor de areia e os jardins bem cuidados da cidade.
Não são rastros deixados por aviões trazendo a próxima leva de turistas e trabalhadores estrangeiros para a capital dos Emirados Árabes Unidos (EAU). São mísseis balísticos lançados por um vizinho que está do outro lado do Golfo: o Irã.
Na tarde de domingo (1/3), o Ministério da Defesa dos Emirados informou que já havia "lidado" com 165 mísseis balísticos, dois mísseis de cruzeiro e 541 drones iranianos.
No Bahrein, um amigo que havia passado a noite em claro me avisou na manhã de domingo que o aeroporto do país estava sob ataque.
"Acordei com estrondos enormes e sirenes tocando", ele escreveu. "Acho que foram uns 20 estrondos e explosões. Pelo menos dois impactos."
Essas cenas não são comuns nesta região, mas desde o início do conflito na manhã de sábado (28/2), o Irã parece ter ampliado seus alvos, indo além de infraestruturas militares, como o quartel-general da 5ª Frota da Marinha dos EUA no Bahrein, para aeroportos e outras áreas civis.
Agora, hotéis de luxo e shoppings, prédios residenciais de vários andares e terminais de embarque de aeroportos de última geração estão sendo atingidos à medida que surgem brechas nas defesas aéreas dos Estados árabes no Golfo.
Esses lugares não foram construídos com a perspectiva de que um dia seriam atacados por drones e mísseis balísticos.
O Ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, negou que os países do entorno fossem alvo: "Não estamos atacando nossos vizinhos nos países do Golfo Pérsico, estamos mirando a presença dos EUA nesses países", disse ele à rede de televisão Al Jazeera.
"Os vizinhos devem direcionar suas queixas aos responsáveis por esta guerra", completou.
Parte dos danos à infraestrutura civil nos países do Golfo é acidental, resultante de destroços de mísseis interceptados.
Mas nem tudo. O número de ataques a aeroportos no Bahrein e nos Emirados Árabes Unidos aponta para algo mais do que coincidência.
O Irã sempre afirmou que, se fosse atacado, retaliaria contra qualquer país que considerasse cúmplice da ofensiva.
Os países do Golfo se esforçaram para sinalizar ao Irã que, aos seus olhos, não faziam parte do ataque lançado pelos Estados Unidos e por Israel.
Ainda assim, essencialmente acabaram punidos por serem parceiros militares de longa data de Washington.
Antes da Revolução Islâmica, nos tempos do xá, o Irã era conhecido como "a polícia do Golfo". Desde a revolução, o país sempre tentou convencer seus vizinhos de que deveria retomar esse papel, "assumindo a responsabilidade pela segurança" no que chama de Khaleej-e-Fars, o Golfo Pérsico (os árabes o chamam de Golfo Arábico).
Por anos os líderes iranianos tentaram, sem sucesso, persuadir os Estados árabes do Golfo a expulsarem a Marinha dos EUA da região e se voltarem ao antigo aliado para proteção.
Nesse contexto, para os governantes dos Estados do Golfo — monarquias conservadoras e dinásticas para quem o fervor revolucionário da República Islâmica é um anátema — uma linha foi cruzada no episódio atual.
É difícil imaginar como eles poderão restabelecer relações minimamente normais com a atual liderança iraniana, isso se ela sobreviver a esta guerra.
A Arábia Saudita e Omã, dois países que há muito abrigam forças militares americanas e ocidentais, escaparam por pouco dos impactos negativos em comparação com os outros quatro Estados árabes do Golfo.
Omã, que mantém boas relações com a república islâmica e mediava as negociações nucleares entre os EUA e o Irã, sofreu um ataque com drone no porto comercial de Duqm, na costa do Mar Arábico.
A capital saudita, Riad, parece ter sido alvo de um ataque no sábado, o que provocou uma declaração inflamada do governo local.
"O Reino da Arábia Saudita expressa sua rejeição e condenação nos termos mais fortes aos ataques iranianos flagrantes e covardes que visaram a região de Riad e a Província Oriental, os quais foram interceptados com sucesso. Esses ataques não podem ser justificados sob nenhum pretexto", dizia o comunicado.
Esta não é a primeira vez que o Irã ataca os vizinhos árabes no Golfo, direta ou indiretamente, mas a escala não tem precedentes.
Em 2019, uma milícia apoiada pelo Irã no Iraque lançou uma série de drones contra as instalações petroquímicas da Saudi Aramco em Abqaiq e Khurais, interrompendo temporariamente metade de sua capacidade diária de exportação.
Em junho passado, o Irã disparou mísseis balísticos contra a base aérea de al-Udaid, no Catar, mas o episódio foi visto como uma resposta performática à Operação Martelo da Meia-Noite dos Estados Unidos, que destruiu as instalações nucleares iranianas em Isfahan, Natanz e Fordo — Teerã emitiu um aviso prévio discreto ao governo do vizinho antes da ação.
O Bahrein, que é governado por uma monarquia sunita e tem uma grande população xiita, por vezes descontente, há muito acusa o Irã de financiar, treinar e armar insurgentes em seu país.
Nada disso, porém, se compara com a situação que os Estados árabes do Golfo estão vivenciando agora.
Como isso tudo vai acabar?
Para o presidente dos EUA, Donald Trump, para Israel, para muitos governos do Oriente Médio e, claro, para muitos iranianos, o melhor resultado neste momento seria um fim rápido do regime da República Islâmica do Irã, seguido por uma transição tranquila para a democracia e um mundo onde o país possa desfrutar de relações normais com o resto do mundo.
Isso, porém, está longe de ser algo certo.
Atualmente, EUA e Israel correm para tentar destruir a capacidade do Irã de continuar lançando mísseis e drones antes que eles possam dispará-los.
Para a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC), o dilema é se devem intensificar ataques a alvos importantes, como um navio de guerra americano, na tentativa de se sobrepor à defesa americana, ou segurar grande parte do arsenal na esperança de durarem mais que a paciência de Trump.
O Irã também sabe que, embora tenha um número finito de mísseis e drones, as defesas aéreas que ainda restam de seus adversários também são limitadas.
Se, ou quando, esses recursos se esgotarem antes que o Irã fique sem mísseis, drones ou lançadores, a situação daqueles que estão na região do Golfo Pérsico poderá se tornar ainda mais preocupante.
O equilíbrio de poder está fortemente a favor dos EUA e de Israel, que detêm duas das forças armadas mais poderosas e tecnologicamente avançadas do mundo.
Há duas unidades de ataque de porta-aviões dos EUA na região com mais de 200 aviões de guerra, enquanto o Irã, sob sanções abrangentes há anos, não possui uma força aérea significativa.
Tanto Israel quanto os EUA desfrutam de completa superioridade aérea.
Mas Teerã ainda tem alguns trunfos.
O regime, embora enfraquecido e impopular entre grande parte de sua população, só precisa sobreviver para se proclamar vencedor a longo prazo neste conflito.
A república islâmica, com seu culto ao martírio, pode suportar muito mais sofrimento do que os EUA, e quanto mais tempo o conflito durar, mais ansioso Trump estará para encontrar uma saída.
Os EUA e o Irã retornarão às negociações?
Se o regime iraniano entrar em colapso, isso não será necessário. Mas se sobreviver, e é bem possível que sobreviva, as três exigências de Washington para Teerã voltarão ao foco, a saber: uma contenção do suposto programa nuclear iraniano, incluindo o retorno das inspeções, o fim do programa de mísseis balísticos do Irã e o fim do apoio do Irã a milícias aliadas na região, como o Hezbollah, o Hamas e os Houthis.
Omã afirma que progressos reais foram feitos nas discussões em Genebra no mês passado sobre a questão nuclear.
Mas o Irã descartou discutir os outros dois pontos, levando Donald Trump a dizer que "não estava satisfeito com o rumo das negociações".
É possível que contatos por canais paralelos possam levar a um cessar-fogo, seguido pelo retorno ao diálogo.
Mas se as posições de negociação de ambos os lados não avançarem, a ação militar poderá ser retomada.
O conflito, portanto, ainda tem seu curso natural para seguir.