Sami Boukhelifa, enviado especial da RFI a Teerã
Ali Khamenei foi morto há 126 dias, 28 de fevereiro. O funeral foi viabilizado pelo cessar-fogo com Washington, plenamente em vigor desde 17 de junho.
Os três dias de velório na capital iraniana começam no sábado (4) e culminarão na segunda-feira (6) com a presença esperada de até 20 milhões de pessoas, quase um quarto da população do país, segundo as autoridades iranianas.
Os iranianos já devem começar a formar filas nesta noite, aguardando a abertura dos portões do complexo às 6h de sábado. Um grande parque na capital foi transformado em um acampamento improvisado para a ocasião, com mais de 400 barracas do Crescente Vermelho Iraniano enfileiradas.
Ao lado do caixão de Ali Khamenei, estão expostos os caixões de seus familiares que também foram mortos no primeiro dia da guerra, incluindo uma de suas filhas, um genro, uma nora e uma neta de três anos.
As homenagens públicas já ocorrem e o luto está por toda parte. Cânticos religiosos ecoaram até tarde da noite na quinta-feira (2). Retratos do líder estão em todas as esquinas, assim como faixas desafiando os inimigos do país: "Exigimos vingança!"
Centenas de pequenas concentrações se espalham pela capital. Homens e mulheres agitam as bandeiras do Irã e da Guarda Revolucionária, pilar militar e político da República Islâmica. Bandeiras verde-amarelas do grupo libanês Hezbollah também se misturam à multidão.
Teerã assemelha-se a uma fortaleza, com forte presença de segurança e uma vasta área interditada para veículos. O aeroporto da capital está parcialmente fechado nesta sexta-feira e será totalmente fechado na segunda-feira, dia declarado feriado nacional.
Cortejo pelos principais locais xiitas
Após Teerã, as cerimônias continuarão em Qom, importante cidade sagrada xiita. Em seguida, seguirão para o Iraque, com paradas em Najaf e Karbala, dois locais fundamentais da espiritualidade xiita. Por fim, o cortejo seguirá para Mashhad, cidade natal de Ali Khamenei, no leste do Irã, onde ele será sepultado em 9 de julho.
O corpo será enterrado nas proximidades do Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.
O período de luto nacional também homenageia as vítimas dos bombardeios israelenses e americanos. Teerã exibe as cicatrizes da guerra: escombros espalhados, prédios destruídos e retratos de crianças mortas durante os ataques aéreos.
O funeral tem, ainda, um significado político, após meses de guerra contra os Estados Unidos e Israel. A cerimônia visa consolidar a transição de poder e demonstrar que o regime permanece de pé, apesar da perda de seu líder máximo e dos ataques que atingiram o coração da cúpula de poder.
Aaprições públicas de líderes
Entretanto, permanece a incerteza sobre a possível primeira aparição pública de Mojtaba Khamenei, filho e sucessor de Ali Khamenei, cotado para assumir como líder supremo do país. O governo alega que ele está administrando os assuntos do Estado, o que poderá ser evocado para justificar a sua ausência nas homenagens.
Nesta sexta, o chefe da Guarda Revolucionária, Ahmad Vahidi, fez sua primeira aparição pública, diante do caixão de Khamenei, conforme mostraram imagens transmitidas pela imprensa estatal iraniana.
O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, também prestou homenagens diante dos restos mortais, ao lado de autoridades do governo, incluindo o influente Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento e chefe da equipe de negociação do Irã com os Estados Unidos.
A presença de líderes e representantes de cerca de 30 países, a maioria vizinhos, é esperada, incluindo o ex-presidente russo Dimitri Medvedev e o primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, que chegou com uma grande delegação ao país. A China é representada por um alto funcionário do Parlamento, He Wei.
Nenhum líder europeu foi convidado. "Todos os que comparecem ao funeral colocaram-se do lado certo da história", enfatizou nesta semana o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, denunciando o apoio ocidental a Israel e aos Estados Unidos em suas duas guerras contra a República Islâmica, em junho de 2025 e em fevereiro deste ano.
Com AFP