Por que Putin se importa com as eleições legislativas — mesmo com resultado previsível

Não há dúvidas quanto ao resultado desta votação, mas para o Kremlin ela ainda representa um momento importante.

18 set 2026 - 10h10
Resumo
Mesmo com o resultado previsível e dominado por aliados de Putin, a eleição parlamentar russa é crucial para o Kremlin demonstrar apoio popular à guerra na Ucrânia e promover veteranos na política. Sob forte controle estatal, vozes pacifistas e de oposição, como o partido Yabloko, foram excluídas ou perseguidas. Embora a população sofra com a inflação e os reflexos do conflito, o pleito serve para legitimar o poder vigente, sem qualquer perspectiva real de mudança no governo.
A eleição deste fim de semana deverá resultar em mais um parlamento extremamente leal a Vladimir Putin
A eleição deste fim de semana deverá resultar em mais um parlamento extremamente leal a Vladimir Putin
Foto: EPA / BBC News Brasil

O sistema de poder na Rússia é frequentemente referido como "democracia administrada" — onde o Kremlin é quem administra tudo. Isso significa enormes poderes para o presidente e poucas surpresas políticas.

A eleição deste fim de semana deverá resultar em mais um Parlamento dominado pelo partido no poder, Rússia Unida, e por uma câmara de deputados extremamente leais a Vladimir Putin.

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Críticos rejeitam a votação, alegando que ela não é nem livre nem justa.

Mas o Kremlin não se importa com o que dizem os críticos.

"Temos nosso próprio sistema político, nosso próprio processo político", explicou recentemente o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov.

Isso significa que não haverá surpresas para o Kremlin. Nenhuma reviravolta.

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Então, nenhuma notícia? Longe disso.

Para o Kremlin, a eleição de 450 deputados para a câmara baixa do Parlamento, a Duma, é importante. Esta é a primeira eleição parlamentar no país desde a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia.

O Kremlin usará isso para afirmar que a maioria dos russos apoia o presidente e a guerra, bem como para promover as carreiras políticas dos soldados que retornaram da Ucrânia: autoridades dizem que quase duzentos veteranos de guerra estão participando da eleição.

Esta eleição está sendo usada para promover as carreiras políticas de veteranos militares
Foto: BBC News Brasil

Quanto à campanha eleitoral, ela proporcionou uma visão da sociedade russa quatro anos e meio após o início da guerra.

Eu disse que não haveria surpresas. Mas aconteceram algumas.

"Boa noite e sejam bem-vindos aos discursos de campanha dos candidatos ao Distrito Eleitoral 158 da Duma", disse o apresentador da TV estatal.

O diretor do estúdio fez um corte para um plano geral, revelando seis púlpitos vazios.

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"Os candidatos não apareceram", admitiu o apresentador. "Então, é um adeus da minha parte."

Em outro debate televisivo (onde os políticos estavam presentes), um candidato apresentou seu discurso cantando uma música: "Partido Comunista, avante! Estamos com o povo, você sabe?"

Parecia mais um programa de auditório do que uma campanha eleitoral.

No entanto, uma propaganda eleitoral musical parece estranhamente apropriada. Na Duma anterior, todos pareciam seguir a mesma canção — cujo maestro era Putin.

Na sessão final do Parlamento, em julho, os deputados levantaram-se e aplaudiram enquanto o presidente da casa entoava repetidamente: "Rússia, Putin, Vitória! Rússia, Putin, Vitória!"

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Era um sinal claro do que se espera de deputados no Parlamento: apoio total ao presidente Putin e à guerra.

O líder do Partido Comunista, Gennady Zyuganov [centro], apoia a guerra na Ucrânia
Foto: BBC News Brasil

"Todos os partidos na Duma, sem exceção, votaram a favor de 170 leis para apoiar a operação militar especial", me disse o líder do Partido Comunista, Gennady Zyuganov, com orgulho.

"Nesse sentido, há 100% de concordância na Duma."

Nos arredores de Moscou, em uma fábrica de pães e biscoitos, eu me encontrei com Zyuganov em plena campanha eleitoral. Enquanto observava fileiras de pães de aparência idêntica passando rapidamente pela esteira, pensei no Parlamento russo. Não que todos os partidos na Duma sejam iguais: alguns são mais nacionalistas, outros — como o partido de Zyuganov — mais de esquerda.

Mas quando se trata de apoiar as iniciativas legislativas do Kremlin e a "operação militar especial" — como o Kremlin se refere à invasão militar da Ucrânia —, todos votam da mesma forma. Esses partidos "sistêmicos" são peças vitais na máquina política russa centrada no Kremlin.

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E se um partido não apoiar a guerra?

Um desses partidos — o Yabloko — defende um cessar-fogo na Ucrânia. Em julho, era o único partido pacifista na Rússia registrado para as eleições. Doze dias depois, porém, a Suprema Corte o retirou da cédula. Isso foi amplamente interpretado como um sinal da preocupação do Kremlin de que mensagens pacifistas pudessem repercutir positivamente entre os eleitores russos.

Apesar da exclusão do Yabloko da lista partidária, alguns de seus candidatos ainda estão concorrendo em eleições individuais por distrito eleitoral. Contudo, nas últimas semanas, um número crescente de candidatos do Yabloko tem sido detido pela polícia, processado por diversos crimes e impedido de participar das eleições.

"A polícia está cumprindo ordens políticas. Isso não é segredo", me disse Grigory Grishin, candidato do Yabloko.

"Dessa forma, as autoridades estão definindo os limites dentro dos quais acreditam que as eleições devem ocorrer."

"É sabido que a demanda pelo fim do derramamento de sangue neste conflito com a Ucrânia é muito popular. Na minha opinião, a maioria das pessoas na Rússia agora quer a paz e o Yabloko ajudou as pessoas a expressarem isso. É por isso que foi excluído das listas partidárias e por isso que candidatos individuais estão sendo impedidos de concorrer."

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Grigory Grishin afirma acreditar que a demanda pelo fim do derramamento de sangue no conflito com a Ucrânia é muito popular
Foto: BBC News Brasil

Por enquanto, Grigory continua concorrendo na eleição. Mas a polícia foi recentemente ao apartamento dele.

"Três policiais à paisana me pediram para acompanhá-los até a delegacia, o que eu fiz. A polícia disse que eu havia postado o que eles alegavam ser um símbolo extremista: a palavra 'Navalny' e que, ao fazer isso, eu havia propagandeado o extremismo por meio do meu canal no Telegram."

Alexei Navalny foi o líder da oposição mais proeminente da Rússia e crítico do Kremlin, tendo morrido na prisão em 2024. Ele havia sido condenado por vários crimes, incluindo extremismo.

As autoridades russas insistem que as eleições para a Duma são transparentes e justas. Os críticos da votação apontam para políticos da oposição que foram forçados ao exílio ou presos.

No ano passado, um dos líderes de um importante grupo independente de monitoramento eleitoral na Rússia foi condenado a cinco anos de prisão. Grigory Melkonyants foi considerado culpado sob a acusação de trabalhar com uma "organização indesejável". Seu grupo de monitoramento eleitoral, Golos, foi fechado.

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A oitenta quilômetros de Moscou, na cidade de Dmitrov, vejo poucos sinais de eleições.

No centro da cidade, há um memorial em homenagem aos "Heróis da operação militar especial" — moradores locais mortos em combate na Ucrânia.

A guerra é a principal preocupação das pessoas aqui.

O genro de Olga está lutando na "operação militar especial" da Rússia
Foto: BBC News Brasil

"Nós sentimos isso", diz Olga, cujo genro é soldado na "operação especial". "Por causa das pessoas que foram lutar e das famílias que ficaram para trás com filhos, maridos, filhos e netos. Mas essas eleições não podem influenciar o que vai acontecer."

"Eu gostaria que vivêssemos em um país pacífico, sem guerras", diz Polina, "para que você não precise se preocupar com a possibilidade de um drone cair na sua frente."

Os russos também têm outras preocupações. Os ataques de drones ucranianos contra refinarias de petróleo russas provocaram uma escassez generalizada de combustível, enquanto as pressões econômicas aumentam.

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"O que me preocupa", diz um barbeiro chamado Ivan, "é que não importa o quanto você ganhe, nunca é o suficiente. Os preços estão subindo mais rápido do que os salários. Eu converso com muita gente no meu trabalho. Sei o quanto eles estão passando por dificuldades."

As expectativas de que esta eleição trará grandes mudanças são baixas.

"As eleições ocidentais e as eleições na Rússia são coisas completamente diferentes", explica Grishin. "As eleições no Ocidente são uma forma de formar um governo, que é substituído posteriormente se os eleitores não estiverem satisfeitos."

"Na Rússia, as eleições nunca trazem mudanças de governo. Na melhor das hipóteses, são uma forma de influenciá-lo, de enviar um sinal. Mas o poder na Rússia nunca mudou por causa de uma eleição. É assim que a Rússia funciona."

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