Por que a presidente do Peru, Dina Boluarte, foi afastada do cargo em meio a onda de violência no país

O Peru vive uma uma onda de violência causada por gangues que praticam extorsão — com destaque para um recente ataque a uma banda durante um show.

10 out 2025 - 05h26
(atualizado às 13h36)
A destituição de Dina Boluarte foi aprovada por unanimidade, com 118 votos a favor, nenhum contra e nenhuma abstenção
A destituição de Dina Boluarte foi aprovada por unanimidade, com 118 votos a favor, nenhum contra e nenhuma abstenção
Foto: AFP via Getty Images / BBC News Brasil

O Congresso do Peru aprovou a destituição de Dina Boluarte do cargo de presidente da República na madrugada desta sexta-feira (10/10)

Os parlamentares haviam convocado a chefe de Estado para apresentar sua defesa antes da votação, mas Boluarte se recusou, ao considerar o processo "inconstitucional".

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"É simplesmente uma violação de qualquer procedimento. Não vamos validá-lo!", disse Juan Carlos Portugal, um dos advogados da presidente.

Após esperar 20 minutos pela presidente e constatar sua ausência, os parlamentares decidiram votar, argumentando que, após um dia de debates, não havia mais o que discutir. A destituição foi aprovada por unanimidade, com 118 votos a favor, nenhum contra e nenhuma abstenção.

O Peru vive uma uma onda de violência causada por gangues que praticam extorsão — com destaque para um recente ataque a uma banda durante um show.

O chefe do Congresso, José Jerí, assumiu o cargo por sucessão constitucional, após a rejeição de uma moção de censura contra a mesa diretiva que presidia.

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"Devemos declarar guerra ao crime. Os inimigos são as quadrilhas nas ruas", disse logo após vestir a faixa presidencial, prometendo liderar um governo de reconciliação.

Jerí comandará o país até as próximas eleições, previstas para abril de 2026. A posse do novo presidente está marcada para 28 de julho do mesmo ano.

José Jerí toma posse como novo presidente do Peru, por sucessão constitucional
Foto: Reuters / BBC News Brasil

Destituição relâmpago

Parlamentares de várias bancadas apresentaram quatro moções de vacância por "incapacidade moral permanente" da presidente Dina Boluarte. Todas foram aprovadas por ampla maioria com o apoio de partidos de direita e do fujimorismo, que a havia apoiado anteriormente.

O processo de destituição começou na manhã de quinta-feira (09/10), por iniciativa da bancada do Renovação Popular (Renovación Popular), liderada pelo prefeito de Lima, o ultraconservador Rafael López Aliaga, conhecido como Porky.

As moções de vacância foram apresentadas em meio a uma crise de violência e criminalidade no país andino, um dia depois de um atentado contra a popular banda de cúmbia Agua Marina, durante um show em um recinto militar no distrito de Chorrillos, em Lima.

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Quatro integrantes do grupo foram baleados no tórax e na perna.

Diversas forças políticas vinham cobrando do governo uma resposta à "impunidade" com que atuam as quadrilhas de extorsão no país.

Propostas anteriores de vacância haviam sido rejeitadas graças ao apoio de partidos conservadores e alguns aliados de esquerda. Desta vez, porém, o afastamento de Boluarte contou com o respaldo de siglas influentes, como o Força Popular (Fuerza Popular), da ex-candidata presidencial Keiko Fujimori, e o Renovação Popular (Renovación Popular), de López Aliaga, atual prefeito de Lima.

Ambos são apontados como possíveis candidatos às eleições de 2026 e líderes nas pesquisas.

"A extorsão e a criminalidade cresceram, mas ela [a presidente] continua vivendo em uma fantasia. Essa presidente merece ser destituída, merece ser punida", disse a deputada conservadora Norma Yarrow, durante o debate que antecedeu a votação da destituição.

Boluarte assumiu o cargo em 7 de dezembro de 2022, após a destituição e prisão de Pedro Castillo, acusado de tentativa de golpe de Estado.

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Desde 2018, o Peru já teve seis presidentes, todos afastados ou renunciantes. Três ex-mandatários estão presos por corrupção ou abuso de poder.

Ataque que agravou a crise

O ataque ao grupo musical Agua Marina ocorreu na noite de quarta-feira (08/10), durante um show com várias bandas e artistas no Círculo Militar de Chorrillos, em Lima.

Quando os integrantes da banda estavam no palco, uma rajada de tiros interrompeu a apresentação.

Segundo relataram testemunhas à imprensa peruana, muitos espectadores confundiram inicialmente o barulho dos disparos com o de um curto-circuito.

Vídeos publicados nas redes sociais mostram o momento em que um dos músicos, ferido, é socorrido no palco, enquanto o grupo deixa o local em meio à confusão. O público se jogou no chão e aguardou para deixar o recinto.

De acordo com o general Felipe Monroy, da Polícia Nacional do Peru, as primeiras investigações indicam que o ataque foi cometido por dois homens em uma motocicleta, que atiraram em movimento do lado de fora do local.

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A polícia recolheu 27 cápsulas, aparentemente de pistola 9 mm Parabellum.

O médico Ricardo Villarán, do Hospital Nacional Guillermo Almenara, informou que César More e Wilson Ruiz, integrantes do grupo, estão internados, mas em condição estável e sem risco de morte.

O Hospital de Emergências Casimiro Ulloa divulgou nota dizendo ter atendido um homem de 50 anos com ferimento leve por arma de fogo, já liberado.

O grupo musical Agua Marina foi alvo de um atentado
Foto: Radio Agua Marina / BBC News Brasil

A polícia informou que reforçou a segurança das famílias dos integrantes do grupo musical atacado e ativou uma operação especial em Lima, chamada Plano Cerco, para localizar os autores do ataque.

Embora a investigação esteja pendente para confirmar os motivos do ataque, tudo indica que o grupo está sendo alvo de gangues criminosas de extorsão que proliferaram no Peru nos últimos anos.

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Pesquisas mostram que o crime se tornou uma das principais preocupações dos cidadãos peruanos, e a extorsão de empresas e negócios se tornou um dos tópicos de conversa mais comuns.

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