PFAS: entenda por que cientistas investigam os riscos neurológicos dos 'poluentes eternos'

As PFAS são substâncias químicas sintéticas conhecidas como "produtos químicos eternos". Elas permanecem por longos períodos no meio ambiente e no organismo humano, e seus potenciais efeitos à saúde incluem câncer, problemas de fertilidade e níveis elevados de colesterol. Por isso, uma equipe internacional de cientistas investigou os impactos neurológicos de uma PFAS específica.

31 ago 2026 - 15h58
Resumo
Cientistas investigam os efeitos neurológicos do 7:3 FTCA, um tipo de PFAS ("poluente eterno") comum no meio ambiente. Testes em camundongos e aves revelaram inflamação cerebral e alterações comportamentais graves após a exposição ao composto. A descoberta acende o alerta para a saúde humana, levando pesquisadores a analisar possíveis ligações entre a ingestão desses poluentes, presentes até na água da torneira, e o avanço de doenças neurodegenerativas, como a esclerose múltipla.

Juliette Pietraszewski, da RFI

Imagem de arquivo. Cartaz com os dizeres "Banir PFAS" em protesto realizado em março de 2026 diante da Comissão Europeia.
Imagem de arquivo. Cartaz com os dizeres "Banir PFAS" em protesto realizado em março de 2026 diante da Comissão Europeia.
Foto: AFP - NICOLAS TUCAT / RFI

A substância que tem despertado a atenção dos pesquisadores é o 7:3 FTCA. Recentemente, cientistas de diferentes países conduziram um estudo para esclarecer os efeitos neurológicos, até então pouco documentados, dessa nova geração de "produtos químicos eternos" (forever chemicals), grupo ao qual o composto pertence.

Publicidade

O 7:3 FTCA tem sido detectado com frequência crescente no meio ambiente e está presente em determinados produtos industriais de uso cotidiano, como limpadores de para-brisa automotivo.

Para conduzir a pesquisa, os cientistas analisaram os efeitos da substância em camundongos e aves. O trabalho combinou duas abordagens complementares: uma baseada na observação da vida selvagem, especialmente de gaivotas, e outra realizada em laboratório com roedores.

Estudos anteriores já haviam identificado vestígios de poluentes em diversas espécies de aves. Um projeto conhecido como "Toxic Bird" revelou a presença de um composto da família PFAS que nunca havia sido detectado na fauna silvestre. Desde então, constatou-se que o 7:3 FTCA está cada vez mais presente em ovos de aves. Diante desse cenário, os pesquisadores buscaram compreender os possíveis efeitos do poluente sobre o sistema nervoso desses animais e suas potenciais implicações para a saúde humana.

Reações inflamatórias e preocupações

Os cientistas observaram uma resposta inflamatória em áreas específicas do cérebro de camundongos após a exposição diária ao 7:3 FTCA durante três semanas, em níveis considerados representativos da exposição ambiental.

Publicidade

Essa exposição não ocorreu sem consequências, explica Jérôme Badaut, diretor de pesquisa do Centro Nacional da Pesquisa Científica da França (CNRS).

"Observamos alterações comportamentais. À primeira vista, isso pode parecer positivo, pois os camundongos se tornam mais sociáveis e menos medrosos. No entanto, em um contexto ecológico, eles passam a ser presas fáceis. Em essência, há uma mudança no comportamento natural do animal", afirmou.

Os pesquisadores também identificaram reações inflamatórias semelhantes em ovos de gaivotas, o que reforça a relação entre a presença do PFAS e os efeitos observados.

A equipe agora busca compreender os possíveis riscos para os seres humanos. "Esse produto de degradação pode afetar o sistema nervoso humano. Trata-se de um estudo preliminar, mas atualmente colaboramos com outros pesquisadores para verificar se existe alguma relação entre diferentes tipos de PFAS encontrados, por exemplo, na água da torneira, e o desenvolvimento de doenças neurodegenerativas, como a esclerose múltipla", disse Badaut.

Para o cientista, é fundamental aprofundar as pesquisas sobre as PFAS, especialmente porque o número de pessoas afetadas por doenças neurodegenerativas associadas a distúrbios motores continua crescendo, sobretudo na Europa.

Publicidade
A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se