"É como se um vilão estivesse salvando você de outro."
É assim que Gabriel (nome fictício) descreve o que sente em relação aos acontecimentos dos últimos dias no seu país, a Venezuela.
Gabriel é migrante* (deixou a Venezuela), latino e faz parte da comunidade LGBTQIA+. Ele afirma que representa "tudo o que Donald Trump é contra".
Por isso, ele critica as políticas do presidente dos Estados Unidos. Mas também é forte opositor de Nicolás Maduro.
"O chavismo fez com que eu precisasse emigrar da Venezuela da noite para o dia, com US$ 250 [cerca de R$ 1,3 mil] no bolso", ele conta. "Precisei começar do zero em outro país e fiquei impossibilitado de ver minha família por 10 anos."
Gabriel conta que, agora, se sente em um limbo.
"Parece que as pessoas não conseguem compreender como é possível ficar contra as duas posições", segundo ele. "É difícil fazer com que elas entendam este ponto intermediário."
"No meu círculo próximo, nos encontramos nessa batalha interna. Sem dúvida, fico alegre ao ver Maduro algemado. Mas, por outro lado, preciso agradecer a Trump por isso?"
Na narrativa do mundo atual, que parece fazer com que tudo seja branco ou preto, Gabriel e as demais pessoas entrevistadas para esta reportagem fazem parte desta ampla variedade de tons de cinza que compõem a Venezuela.
São as pessoas que, mesmo sendo opositoras de Maduro e do chavismo, também são contrários a Donald Trump e às ações tomadas pelo governo americano nos últimos dias.
Todos os entrevistados conversaram com a BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) em condição de anonimato.
'Os gringos nos invadiram'
"Acordei com os bombardeios", conta Ana, da sua casa na capital venezuelana, Caracas. "Estou perto do Forte Tiuna [um dos pontos atacados] e pensei: 'Caramba, os gringos nos invadiram!'"
"Isso é trágico, muito doloroso. Quando vejo as fotos dos destroços, me sinto mal."
"No primeiro dia da invasão, acabei chorando de ansiedade", relembra ela. "É muito forte."
Pela educação que recebeu, Ana é de esquerda e contrária a tudo o que relembre o intervencionismo americano.
"A América Latina tem um histórico terrível toda vez que os Estados Unidos têm algum capricho ou acreditam que algum presidente não deveria governar, como no caso do ex-presidente do Chile, Salvador Allende [1908-1973], por exemplo", relembra ela.
"Por isso, cada vez que ouvia a ideia de que Trump poderia invadir a Venezuela, eu tentava explicar que isso seria contraproducente para nós", conta Ana.
"Um político pedir a invasão é o contrário da política, pois significa que você é incapaz de conseguir alguma coisa."
Neste particular, Ana critica a líder da oposição venezuelana, María Corina Machado, por dizer que "sozinhos, não podemos sair do chavismo" e por ter invocado o TIAR [Tratado Interamericano de Assistência Recíproca] para intervir no país. "O que ela queria era que retirassem Maduro para que ela passasse a governar."
Um olhar treinado para os tons de cinza da Venezuela talvez pudesse dizer que Ana é chavista, mas ela é árdua opositora do regime.
"Nunca aprovei os chavistas", ela conta. "Sempre fiquei com um pé atrás por Hugo Chávez [1954-2013] ser militar. E, depois, ele se tornou mais autoritário e conseguiu manipular o sistema para ficar no poder."
"Nós brincávamos que não havia nada pior do que Chávez. E ficamos com Maduro — zero carisma e brutalidade total."
"A repressão foi a marca característica do seu governo, ao lado da crise econômica, que explodiu com ele e foi terrível", lamenta Ana.
O posicionamento de Ana fez com que ela fosse atacada inúmeras vezes.
Nos últimos dias, se intensificaram os ataques a todos os que saem da linha considerada dentro de uma "postura chavista" ou de uma "postura opositora" na Venezuela.
Gabriel afirma que foi assustadora a quantidade de comentários e ataques, sem falar na exacerbação da xenofobia, observada principalmente nas redes sociais.
Sem comemorações
Atualmente, ser venezuelano é vivenciar muitas emoções de cada vez.
E, embora as imagens de venezuelanos comemorando a foto de Maduro "com algemas" tenham dado a volta ao mundo, pessoas como Gabriel nem mesmo pensam em comemorar.
Para ele, "é muito complexo. O que tanto sonhávamos está acontecendo, mas nos sentimos um pouco culpados."
"Além disso, somos cautelosos nas redes sociais, pois a primeira leitura que fazem é 'aqui está o venezuelano comemorando o imperialismo'."
O mesmo se passa com Laura. Como Gabriel, ela também precisou emigrar do país.
Laura também não comemorou o ocorrido na madrugada de 3 de janeiro. Ela vive pesarosa com o intervencionismo, "tanto este de Trump quanto a clara intervenção da Rússia e da China no meu país".
"Por isso, estou confusa com tudo o que está acontecendo e sinto uma espécie de alívio, um resquício de esperança por ver este homem e sua esposa frente à justiça. Sentimos uma porção de coisas ao mesmo tempo."
Em cada setor da vida de Laura, ela tenta "servir de ponte" entre duas posições que parecem intransponíveis, para que "a narrativa da Venezuela seja construída de forma complexa", não apenas em uma dicotomia entre branco e preto.
"Me chamam de 'morna'", ela conta. "E isso vem da parte radical da esquerda e da parte radical pró-Trump."
"Não é que eu queira ficar bem com todo mundo, mas sim falar de realidades complexas. E isso não diminui minha integridade moral e ética, pelo contrário."
Laura reconhece que é difícil "manter a equanimidade, pois a experiência da ditadura está incorporada no corpo, na própria carne, no que nos coube ver e viver".
Mas, como venezuelana, ela também viveu "na polarização e como ela foi capitalizada pelo poder e pelas forças políticas para fortalecer um ódio que, a longo prazo, nos prejudicará a todos".
A Venezuela através de dois prismas
Tanto Gabriel quanto Laura reconhecem que foi frustrante observar que, nestes últimos dias, as pessoas tentaram simplificar a questão venezuelana segundo o prisma ideológico de cada um.
"O êxodo migratório, os protestos de 2016 e 2017, as eleições roubadas de 2024, a problemática dos presos políticos nos últimos anos, sentir que, em diversas ocasiões, levantamos a voz, pedimos que nos ajudassem a divulgar, a se juntar à causa...", relembra Gabriel.
"Nos últimos dias, senti que, apesar de tudo o que denunciamos tantas vezes na Venezuela, parecia que ninguém havia ouvido, lido nem visto."
Laura insiste no seu sentimento mais profundo: a solidão do venezuelano.
"Ninguém pode dizer que não tentamos de tudo", segundo ela. "A opinião pública e a esquerda internacional nos mantiveram abandonados por anos."
"Fomos abandonados pelo próprio Estado, para quem não fomos prioridade, nem para os Estados Unidos. É desolador."
Gabriel destaca que os ataques e a incompreensão não chegam apenas pelas redes sociais. Elas também são trazidas pelos seus conhecidos e colegas de trabalho.
"Parece que os últimos dias se resumiram a 'os venezuelanos estão comemorando a invasão norte-americana porque simplesmente odeiam o chavismo'. E a questão é mais complexa do que isso."
Ana faz um balanço de toda a situação.
"O que a invasão nos trouxer? Valeu a pena?", questiona ela. "Todas as vidas perdidas, tudo o que foi destruído. O que se conseguiu de bom?"
"Levaram Maduro e Cilia Flores. Eu os detesto. Mas, segundo os tratados internacionais, nenhum país tem o direito de se meter em outro para sequestrar um presidente."
"Agora, seremos o feudo neocolonial dos Estados Unidos, com Delcy Rodríguez mandando, mas de forma neoliberal", segundo Ana.
Laura destaca que, muitas vezes, no debate sobre a situação venezuelana, "perdemos de vista que, na Venezuela, a prioridade é a vida, que há pessoas sofrendo e que há coisas que são simples para muitos, mas difíceis de se obter, como ter luz, água ou falar por telefone na rua".
"Esquecemos que estamos falando de pessoas", conclui ela.
* Os nomes de todos os entrevistados são fictícios, para proteger sua identidade. Pelo mesmo motivo, a reportagem não especifica o local onde se encontram os dois entrevistados que deixaram a Venezuela.