As negociações entre Washington e Teerã ocorrem em Doha com mediação do Catar e do Paquistão e são conduzidas por equipes técnicas, sem participação direta dos enviados americanos Steve Witkoff e Jared Kushner. O objetivo é detalhar a implementação do memorando de entendimento assinado em junho.
O acordo prevê um cessar-fogo de 60 dias para a guerra iniciada em 28 de fevereiro após os bombardeios conjuntos de Estados Unidos e Israel contra instalações iranianas, a reabertura do Estreito de Ormuz, a negociação de um acordo definitivo sobre o programa nuclear iraniano e mecanismos para encerrar os conflitos paralelos na região, especialmente no Líbano.
Apesar de divergências sobre o formato das conversas — Washington fala em avanços, enquanto Teerã insiste que não há negociações diretas entre os dois países —, ambos mantêm as discussões por meio dos mediadores do Catar.
O presidente americano, Donald Trump, afirmou que a desnuclearização do Irã "está avançando bem" e disse que as reuniões em Doha foram "muito boas", apesar de lembrar que os Estados Unidos "atingiram o Irã com muita força" durante a guerra.
Do lado iraniano, o porta-voz da chancelaria, Esmaeil Baqaei, confirmou a presença de uma delegação liderada pelo vice-ministro Kazem Gharibabadi, mas reiterou que não estão previstos contatos diretos com representantes americanos.
Israel endurece posição
Enquanto as negociações prosseguem, Israel adotou um discurso mais duro sobre sua presença militar na região.
O ministro da Defesa, Israel Katz, afirmou que as Forças de Defesa de Israel permanecerão "por tempo indeterminado" nas chamadas "zonas de segurança" estabelecidas no sul do Líbano, em partes da Síria e na Faixa de Gaza.
Segundo ele, essas posições são necessárias para proteger a população israelense contra grupos jihadistas.
A declaração contrasta com o espírito do memorando negociado entre Estados Unidos e Irã, que prevê justamente uma redução gradual das tensões em todas as frentes da guerra.
No Líbano, um acordo-quadro firmado na semana passada nos Estados Unidos busca estabelecer uma "paz duradoura" entre Israel e o país vizinho. No entanto, Israel continua realizando bombardeios contra posições do Hezbollah, alegando atingir infraestrutura militar do grupo apoiado pelo Irã.
O entendimento prevê que as tropas israelenses permaneçam no sul do Líbano até que o Hezbollah entregue seu arsenal — uma exigência rejeitada pelo movimento xiita e que o governo libanês, pressionado por Washington, tem dificuldade para implementar.
Na Faixa de Gaza, também não há perspectiva de retirada israelense.
No fim de maio, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu determinou que o Exército ampliasse seu controle para cerca de 70% do território palestino, devastado desde o ataque do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023 e pela ofensiva militar israelense que se seguiu.
Assim, mesmo com a diminuição dos confrontos nos últimos dias, Gaza permanece sob forte ocupação militar.
Trégua ainda enfrenta obstáculos
Os primeiros dias após a assinatura do memorando foram marcados por novos episódios de violência.
O Irã atacou um navio comercial que, segundo Teerã, havia desrespeitado a rota autorizada no Estreito de Ormuz. Em resposta, o Comando Central dos Estados Unidos informou ter bombardeado dez alvos militares iranianos.
Na sequência, o Irã lançou ataques contra bases americanas no Kuwait e no Bahrein, que condenaram a ação.
Desde então, porém, os confrontos diminuíram significativamente, permitindo a retomada das negociações.
Segundo especialistas, o principal desafio agora será transformar o cessar-fogo em um acordo permanente.
Além da questão nuclear iraniana, permanecem sem solução a presença militar israelense em Gaza, no sul do Líbano e em partes da Síria, o futuro do Hezbollah, a segurança da navegação no Estreito de Ormuz e o papel regional do Irã.
Analistas afirmam que o processo ainda sofre com a falta de transparência e com mensagens contraditórias emitidas por Washington e Teerã. Apesar disso, o simples fato de as partes manterem o diálogo após semanas de confrontos é visto como um sinal positivo para evitar uma nova escalada militar no Oriente Médio.