Nova espécie de gato é identificada na Bolívia, a primeira em mais de um século

17 set 2026 - 15h13
(atualizado às 16h52)
Resumo
Cientistas identificaram uma nova espécie de felino selvagem na Bolívia, a primeira descrita em mais de um século. Chamado localmente de Tilcayo e batizado como Leopardus tilcayo, o animal habita a floresta de Yungas, pesa 1,4 kg e é menor que um gato doméstico. A descoberta ocorreu por meio de análises genéticas que revelaram cinco espécies distintas de gatos-tigre. Pouco conhecido, o felino já pode estar sob risco de extinção devido ao desmatamento e à perda contínua de seu habitat natural.

Um pequeno felino selvagem que habita a floresta nublada da Bolívia foi ‌identificado como uma espécie até então desconhecida, marcando a primeira vez em mais de um século que uma nova espécie viva de felino é formalmente nomeada e descrita.

O felino, chamado de Tilcayo pelas comunidades locais, faz parte de um grupo conhecido como gatos-tigre, encontrado em grande parte da América do Sul. Ele foi encontrado na exuberante floresta de Yungas, na Bolívia, região montanhosa onde as florestas costumam estar cobertas por nuvens e cercadas por alta umidade, segundo os pesquisadores. Ele mede cerca de 46 ⁠cm de comprimento e pesa cerca 1,4 kg, o que o torna menor do que o gato doméstico médio.

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Os pesquisadores utilizaram ‌dados genéticos para confirmar que o gato é uma nova espécie e deram a ele o nome científico Leopardus tilcayo, mantendo seu nome local.

"Sua pelagem é marrom-clara... com rosetas de formato irregular por todo o corpo", disse Paola Nogales-Ascarrunz, exploradora da ‌National Geographic e uma das autoras do estudo que descreve a espécie recém-identificada ‌publicado nesta quinta-feira na revista Current Biology.

Ainda se sabe pouco sobre a biologia e o estilo de vida do ⁠felino. Restos de pequenos roedores em amostras de fezes sugerem que eles possam fazer parte de sua dieta, enquanto evidências de câmeras de armadilha indicam que ele poderia ser mais ativo à noite, disse Nogales-Ascarrunz.

Os gatos-tigre são as chamadas espécies crípticas, o que significa que não podem ser facilmente distinguidos apenas pela aparência, disse o biólogo evolucionista e coautor principal do estudo Jonas Lescroart, da Universidade de Antuérpia, na Bélgica.

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Os gatos-tigre eram anteriormente considerados uma única espécie, mas estudos genéticos realizados há décadas sugeriram ‌a existência de várias espécies.

Referindo-se à nova espécie, Lescroart disse: "Nossas informações, neste momento, limitam-se aos dois indivíduos vivos que examinamos e a ‌um pequeno número de registros de câmeras ⁠de vigilância."

Um dos felinos vivos é ⁠um macho de 10 anos que agora vive no Santuário de Vida Selvagem Senda Verde, após ter sido criado por uma família local ⁠em sua casa.

UM ANIMAL DIFERENTE

A observação do gato boliviano despertou interesse porque "suas ‌características não correspondiam às descrições, a maioria ‌delas baseada em gatos brasileiros", disse Nogales-Ascarrunz. "Isso nos fez questionar: que tipo de gato-tigre temos, na verdade, na Bolívia?"

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A equipe analisou o DNA coletado de 38 gatos em vários países da América do Sul, incluindo oito espécimes de museu. O estudo constatou que os gatos-tigre são, na verdade, cinco espécies geneticamente distintas.

"Nunca esperávamos que esse gato-tigre boliviano fosse uma ⁠espécie separada, e ninguém jamais havia proposto que ele fosse um animal diferente, uma subespécie ou algo do tipo", disse Lescroart.

A análise genética sugeriu que a linhagem de Tilcayo se separou dos outros gatos-tigre há cerca de 1,4 milhão de anos.

"Quanto mais diferenças houver no DNA, maior será o tempo que estimamos que essas linhagens tenham estado fisicamente separadas", disse Lescroart, acrescentando que tal intervalo é geralmente considerado uma divisão no nível de espécie ‌entre os felinos.

A equipe de pesquisa também descreveu uma nova subespécie de gato-tigre nos Yungas, no Peru, batizando-a de Leopardus tigrinus antisuyo em homenagem a Antisuyu, a região do antigo Império Inca que incluía a área onde ela habita.

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A Lista ⁠Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), que acompanha o status das espécies, atualmente trata os gatos-tigre como duas espécies "vulneráveis" com populações em declínio.

Os pesquisadores compartilharam suas descobertas com a IUCN, cuja próxima revisão avaliará as cinco linhagens separadamente. Isso poderia fornecer um panorama mais preciso do risco, disse Lescroart, e espécies como o Tilcayo poderiam, potencialmente, ser consideradas ameaçadas de extinção quando avaliadas individualmente.

A necessidade de uma avaliação mais clara é particularmente premente nos Yungas, um dos ecossistemas mais ameaçados da região.

As florestas de montanha enfrentam pressão crescente devido ao desmatamento, à expansão agrícola, aos incêndios causados pelo homem e à mineração, disse Nogales-Ascarrunz. Restaurar fragmentos florestais danificados por incêndios, proteger a floresta nativa remanescente e manter as conexões entre os habitats são prioridades urgentes, acrescentou.

"Mostrar ao público em geral que, mesmo em um grupo emblemático como o dos felinos... ainda há novas espécies a serem descobertas pode transmitir uma mensagem importante", disse Eduardo Eizirik, biólogo evolucionista da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, no Brasil, e autor sênior do estudo.

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"Existem muitas espécies ainda não descobertas no mundo, e elas correm o risco de desaparecer antes mesmo de serem descobertas."

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