Na Cisjordânia ocupada, a aldeia de Qusra enfrenta um rígido bloqueio militar israelense que restringe a rotina e o abastecimento dos palestinos, que dependem de lentas autorizações oficiais para ações básicas. Ao mesmo tempo, o Exército de Israel é alvo de críticas de ONGs e ex-militares por não proteger a população civil e atuar em conivência com ataques de colonos na região, violando normas do direito internacional humanitário.
Frédérique Misslin, enviado especial da RFI a Qusra
Na Cisjordânia ocupada, o cerco a Qusra, ao sul de Nablus, continua. A área permanece totalmente bloqueada. Viver em uma zona militar fechada significa que o Exército israelense controla deslocamentos, acessos e abastecimento. A casa de Loai Ridi está cercada há duas semanas. O palestino explica que precisa fazer os militares aprovarem cada saída, cada visita, cada gesto cotidiano. Isso se chama "coordenação".
"Coordenação significa que eu tenho que ligar para as autoridades locais, para o prefeito de Qusra. Ele precisa ligar para a Autoridade Palestina. A Autoridade Palestina precisa ligar para o Exército israelense para obter a autorização de que eu preciso, por exemplo, para que alguém possa me trazer comida. E esse processo leva horas e horas, às vezes dias, até conseguir uma autorização. É completamente absurdo."
Isso vale para o abastecimento, mas também para a coleta de lixo. No pátio dos vizinhos, também cercados, os sacos verdes se acumulam. Youssef Hassan conta que o Exército requisitou sua casa no início dos ataques dos colonos e que os soldados foram embora depois de alguns dias, deixando para trás seus próprios resíduos. "O que você vê aqui são nossos restos, nosso lixo. E ali estão os resíduos que o Exército deixou. Esse lixo é do Exército", mostra ele.
No dia da visita da RFI, a passagem do caminhão de coleta havia sido "coordenada" pela prefeitura. O veículo esperou no posto de controle antes de entrar para recolher todo o lixo.
O papel do Exército israelense sob crítica
O Exército israelense está presente em Qusra, mas não age para proteger a população civil, como exige o direito internacional para uma potência ocupante. A postura dos militares é frequentemente criticada por ONGs israelenses, inclusive aquelas que têm ex‑soldados entre seus membros.
Doron Meinrath era coronel quando servia no Exército israelense. Hoje aposentado, atua no terreno com a ONG Looking Occupation in the Eyes ("Encarar a ocupação", em inglês). Na semana passada, ele foi preso perto da cidade palestina de Nablus, quando estava próximo a uma cisterna palestina que havia sido tomada por colonos.
Quando o Exército chegou, os colonos não foram incomodados, mas Doron Meinrath foi detido, julgado e proibido de entrar na área por dez dias.
O ativista comemora ter revertido a decisão após recorrer, mas faz uma avaliação sombria da situação: "Muitos soldados, muitos oficiais apoiam as ideias e as ações dos colonos. Eles são favoráveis à limpeza étnica", lamenta Meinrath, que percorre incansavelmente a Cisjordânia ocupada para denunciar a violência dos colonos. "Eles são o braço armado do governo, e o Exército os apoia", conclui o militante anti‑ocupação.