Silêncio. Aos poucos, estabelecimentos reabrem e tentam voltar para a normalidade. Esse clima é motivado pelo medo e pela incerteza do que acontecerá daqui para frente. É assim que tem estado as ruas em Caracas, capital da Venezuela, na primeira semana após o ataque do governo dos Estados Unidos ao país para captura do então líder, Nicolás Maduro. O relato é de Gabriela Mesones Rojo, venezuelana que atua como jornalista independente no país.
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A interrupção do mandato de Maduro foi comemorada por muitos dos venezuelanos que moram no exterior. “Suas celebrações têm sido barulhenta. No entanto, aqui na Venezuela, quase não houve comemoração. Isso não significa necessariamente que as pessoas desaprovem [a captura de Maduro]. Significa que as pessoas estão com medo. Há muita incerteza sobre o que vai acontecer”.
Nos últimos dias, confirmou-se que Delcy Rodríguez seguirá como presidente interina da Venezuela. O mandato inicial será de 90 dias. Integrante do núcleo duro do chavismo, ela ocupava o posto de vice-presidente desde junho de 2018. Em paralelo, Donald Trump rejeitou a possibilidade de novas eleições na Venezuela nos próximos 30 dias. O que se sabe é que o plano anunciado dos EUA para a Venezuela inclui três fases: estabilização, recuperação e transição.
Para os venezuelanos, as perguntas são muitas: “Como será o governo de Rodríguez? Como será a repressão? O que acontecerá com os presos políticos? Essas perguntas têm feito com que as pessoas permaneçam em segurança, fiquem em casa e sejam o mais silenciosas possível”, aponta Gabriela.
Segundo ela, a Venezuela enfrenta uma das maiores ondas de repressão de sua história moderna desde as últimas eleições presidenciais, em 2024. Em eleição questionada por sua integridade, Maduro foi reeleito com 51% dos votos.
“O medo, o silêncio e a ausência de grandes manifestações, celebrações ou protestos políticos nas ruas são, na verdade, bem comuns durante o último ano”, explica.
‘Além de esquerda e direita’
A discussão tem sido grande em torno da legitimidade do ato do governo de Donald Trump, de como tudo se enquadra no direito internacional e como essa movimentação abre precedentes perigosos para outras possíveis interferências em outros países da América Latina pelo 'bem querer' dos EUA.
Enquanto a mídia internacional foca nisso, a jornalista diz achar que está sendo veiculado pouco contexto sobre a situação política e social da Venezuela nos últimos anos.
“Há apenas um breve lembrete. Estamos em uma emergência humanitária desde 2014. Nas eleições de 2024, Maduro se autoproclamou presidente sem apresentar qualquer prova de ter vencido a eleição. Houve uma enorme repressão. Mais de 400 meios de comunicação fecharam nos últimos 20 anos. Temos a maior crise de refugiados da região. Quase 8 milhões de pessoas deixaram o país, o que representa um pouco mais de 20% da população. O contexto venezuelano é complexo. É cheio de nuances”, aponta.
Além disso, ela critica a perspectiva ideológica em torno da situação venezuelana. “Não acredito necessariamente que seja uma situação de esquerda versus direita, especialmente quando se trata de analisar a situação na Venezuela, considerando Maduro como um líder de esquerda e Maria Corina como uma líder de direita. Não acho que os venezuelanos vejam ou abordem a situação dessa forma”, explica.
María Corina Machado ganhou o Nobel da Paz em 2025 e é a oposição de Maduro. Mesmo sem o apoio de Trump para assumir a liderança da Venezuela, ela declarou em entrevista à Fox News que planeja retornar a Caracas. "Vamos trazer o Estado de direito, vamos abrir os mercados e garantir segurança para os investimentos estrangeiros", acrescentou.
O que Gabriela espera, agora, é uma transição democrática, mas reconhece que não será uma tarefa fácil. Para ela, a situação não se resume apenas em remover Maduro do poder, pois ele “tem um sistema grande e muito sólido, um sistema muito autoritário que depende muito da repressão e de estratégias de repressão”. Por isso, ele fora da Venezuela não é a garantia da mudança.
“O principal que espero é que nossos líderes políticos eleitos da oposição tenham voz ativa. Como isso vai se desenrolar? Qual será o resultado? Claro, ainda não sabemos. Mas acredito que seja importante termos um processo que garanta que o país não mergulhe no caos e, em segundo lugar, que o país faça uso adequado de nossos mecanismos para garantir os valores democráticos”, finaliza a jornalista.
EUA x Venezuela
Maduro é acusado de conspiração para o narcoterrorismo, para o tráfico de cocaína, posse de metralhadoras e dispositivos explosivos, além de conspiração para a posse de armas de uso restrito destinadas ao narcotráfico, conforme aponta o Departamento de Justiça norte-americano. O governo retirou uma das acusações principais contra o líder venezuelano, a de que ele seria supostamente o chefe do grupo de narcotraficantes Cartel de los Soles. Sua captura, como aponta os EUA, foi por esses motivos.
Maduro e a esposa, Cilia Flores, se declararam inocentes diante da Justiça dos Estados Unidos. Em sua fala, o líder venezuelano afirmou ser um “prisioneiro de guerra”. “Eu sou inocente. Sou um homem decente. Sou um presidente”, afirmou. Agora uma nova audiência foi marcada para 17 de março, quando o casal deve prestar depoimento.
Para Trump, a operação foi 'tecnicamente perfeita' por não ter resultado em nenhuma morte entre as forças norte-americanas, nem perda de equipamentos. Já do outro lado foi diferente.. O que foi divulgado, até o momento, é que 32 cubanos, 23 militares venezuelanos e dois civis perderam a vida no ataque dos EUA ao país.
Três dias após a captura de Maduro, Trump afirmou que o governo interino da Venezuela concordou em enviar entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo “de alta qualidade” ao país. O líder norte-americano disse ainda que o produto será vendido a preço de mercado e que o lucro da operação será controlado por ele “para garantir que seja usado em benefício do povo da Venezuela e dos Estados Unidos”. Em entrevista nesta quarta-feira, dia 7, o secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, pontuou ainda que o governo americano quer controlar a venda do petróleo venezuelano "indefinidamente" e "depositar o dinheiro em contas controladas pelos EUA".
Apesar das interferências que seguem, governo norte-americano tem frisado ter se tratado de uma operação militar e não uma ocupação à Venezuela.
Até o momento, a situação não afetou diretamente os brasileiros. Especialistas ouvidos pelo Terra apontam que se tratou de um ataque muito grave, violento, e que remonta à política internacional do século 19 -- mas que mesmo assim, por enquanto, os impactos seguem pequenos ao que diz respeito ao Brasil. Também avaliam o risco de guerra como “particularmente baixo”, considerando que Trump entrou neste último mandato com o objetivo de ser o presidente dos Estados Unidos que mais acabou com guerras.
O que pode mudar o cenário, como apontam, é caso se inicie uma nova crise humanitária na Venezuela, que pode gerar um aumento do fluxo migratório para o Brasil e uma consequente sobrecarga no sistema de saúde e de outros sistemas brasileiros de seguridade social. Mas não veem isso acontecendo no momento.
Por mais que as movimentações na fronteira da Venezuela com Roraima sigam "calmas" após o ataque, o Ministério da Saúde enviou equipes da Força Nacional do Sistema Único de Saúde a Roraima para avaliar a estrutura da rede de saúde, a disponibilidade de profissionais, vacinas e outros insumos na fronteira com a Venezuela.
*Com informações das agências Ansa, Reuters e Estadão Conteúdo